Wednesday, April 18, 2007


" Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté. Estes desejos excessivos que desaparecem bruscamente... Esta inconstância que me faz doidejar em torno de um soneto incompleto, um artigo que se esquiva, um romance que não posso acabar... O hábito de vagabundear por aqui, por ali, por acolá, da pensão para o Bacurau, da Semana para casa de Vitorino, aos domingos pelos arrebaldes: e depois dias extensos de preguiça e tédio passados no quarto, aborrecimentos sem motivo que me atiram para a cama, embrutecido e pesado... Esta inteligêcia confusa, pronta a receber sem exame o que lhe impingem... Explosões súbitas de dor teatral, logo substituídas por indiferença completa... Admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às miçangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos, que depois risco...
Diferenças também, é claro. Outras raças, outros costumes, quatrocentos anos. Mas, no íntimo, um caeté. Um caeté descrente.
Descrente? Engano. Não há mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar em artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram!
Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo- uma estrela no céu, algumas mulheres na terra... "

Graciliano Ramos. Caetés.

Tuesday, April 10, 2007

Saturday, March 31, 2007

E se é a inquietação que quereis expulsar,
tal inquietação foi escolhida por vós
e não tanto imposta de fora.

E se quereis dissipar o medo,
a sede desse medo é o vosso coração
e não a mão que vos assusta.

De fato, todas as coisas se movem no mais íntimo do vosso ser,
num constante semi-abraço,
tanto as desejadas quanto as temidas,
as repugnantes e as tentadoras,
aquelas que buscais como aquelas de que fugis.

Tais coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras,
em pares estreitamente unidos.
E quando a sombra se debilita e desaparece,
a luz que resta torna-se sombra de uma nova luz.
E assim a vossa liberdade, desembaraçada de estorvos,
torna-se ela própria embaraço de uma liberdade maior.

Kahlil Gibran

Wednesday, March 28, 2007

“...e quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso da carapaça, pensam que estão em segurança mas se consomem de medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam, trazem na mão a chave mas se esquecem que ela abre, e, obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois recusam o remédio;


[...]


a sabedoria está precisamente em não se fechar nesse mundo menor: humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza...”


Raduan Nassar, LavourArcaica

... e num constante exercício de manter longe as vendas dos meus olhos, e só conhecer o que cria vida foi que eu descortinei, ainda que mal saída de uma morte qualquer, que talvez estivesse enganada e que a minha visão de mim mesma fosse a mais deformada de todas.

Passei a duvidar do meu acesso a mim e a procurar a ponte entre mim e eu, a desconfiar que eu falava outra língua, senão essa que bem conheço. Falasse a língua intocável e muito interior de símbolos e fonemas tão extremos e agudos que qualquer outra pessoa que conhecesse não a suportaria. A força da minha língua interior é insuportável. É um pouco como esse zunir agudo e contínuo no ouvido do mundo.

Derramo, neste caso, meu perdão inegável e puro a vocês que não toleram um idioma abstrato e enjoadinho e que têm compreensível indisposição para tocar no que explode e se espalha, que querem, com razão, se livrar dessas complicações do sujeito. Por Deus que eu também quero ser objeto!...

Fernanda Lobo

Monday, March 26, 2007


A atividade humana é toda ela dirigida no sentido do permanecer. A busca incessante da superação do tempo. Quer o homem se projetar, continuar, e seus atos assim o conduzem, mesmo quando as circunstâncias o lançam na mais repetida e monótona realização de vida, quando o gesto heróico ou a heroicidade do diuturno [que dura muito] trabalho de criação artística, científica, econômica e política lhe faltam.


Sempre há a ilusão da continuidade, no filho, na crença religiosa, no trabalho ou no paradoxal comportamento irreverente e anárquico. O homem se apega às coisas pequenas e ridículas se for. Apega-se ao afã de deixar a marca de seu rosto na transitoriedade da vida. Mas se houvesse a imortalidade? Encontraria o homem o sossego eterno? a absoluta felicidade?...E o prazer? Se não houvesse o efêmero que dá sua medida, o prazer transformar-se-ia em dor. O minuto que acaba torna belo o presente, valoriza-o, deixa-o na saudade.


Com a eternidade, desaparecia também o encanto de nossas vidas. A morte, limitando nosso tempo, obriga-nos a tomar decisões: são múltiplos os caminhos. O destino é pois a soma de nossas opções. No dia a dia, traçamos o enredo de nosso próprio romance, na apaixonante espera do desenlace. Mas se não morremos, para que decidir?

Aí está: a imortalidade é a morte da vida.


Se somos felizes é porque morremos, diz-nos Simone de Beauvoir.

Monday, March 19, 2007

Se choro é porque posso chorar. Se não pudesse, me arrisco a dizer que tanto faria, já que é no meio de muito não poder.

Se não fosse permitido chorar lágrimas, talvez o fizesse em tinta sobre papel e escreveria molhado e úmido e molhado novamente. Até o seco.
Porque já sei que é sempre que eu escrevo como se chorasse, mesmo quando é um riso solto que me agita a pena. Aí posso escrever como se sorrisse alto como a alegria insistente do coração de um louco. Da alegria que não seca por mais que evapore.

E nessa falta de fato que excede na minha história, me arrisco a dizer que é o concreto que me impressiona.
Me impressionou a moça pequena parada em um ponto de ônibus, com pulseirinhas de contas azuis, como sua blusinha desbotada azul.
Ainda tive tempo de ver que em suas mãos tímidas havia cicatrizes e havia cor de sujo nos pés e na sandália pequena.
E o que ainda me atingiu foi a consternação acalmada e reticente no relance dos olhos da menina negrinha. E sua capacidade de não tê-los eternamente molhados, mas de ainda combinar pulseiras azuis com uma blusinha azul muito desbotada.


Fernanda Lobo

" A vida das gentes neste mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
Pisca e mama.
Pisca e brinca.
Pisca e ama.
Pisca e cria filhos.
Pisca e geme reumatismos.
Por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é? "

explosion


" Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e ficam se fingindo de sonsos. " C.L.

Tuesday, March 13, 2007

clown


“Todo mundo é um pedacinho do outro!
... todo outro é um pedacinho do mundo!”

Sunday, March 11, 2007


Embriague-se


É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do Tempo
que lhe quebra os ombros e o curva para o chão,
é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto,
você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunte que horas são
e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão:
"É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se;
embriague-se sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".

Baudelaire

Thursday, March 08, 2007


Quais eram os olhos sobre cada um dos lugares que você visitou? De quem os ouvidos em cada uma das músicas que você ouviu? As mãos sobre as texturas que você já sentiu? Eram seus olhos, seus ouvidos e suas mãos?

E essas sensações que resolvem emergir do mergulho mais longo que haviam dado dentro da sua alma, ao estímulo de um abraço infinito, de um sorriso de criança, do amor a quem você ama? A sensação de vida que já poderia estar se asfixiando dentro de você, tão longo tivesse sido seu mergulho, mas que vem à tona respirar quando em contato com essas coisas que só você acha bonito e que - só em você- provocam aquela disposição branda e prometedora de que o simples existir pode ser melhor, melhor, ilimitadamente melhor...

E mais, se você pudesse transmitir essa arrebatadora sensação a outrem, só pelo fato de tocá-lo? Sem palavra mágica, sem cartola e vara de condão... E as pessoas tocadas, de repente, se sentissem bem como você se sente. E se sentissem bem apesar da disparidade social que assola o País desde antes mesmo que o País fosse país; se sorrissem, apesar da lembrança dos que têm fome, que apela em gritos silenciosos dentro de todos os seres humanos, nos fazendo sofrer da culpa coletiva pelos que morrem sem teto e sem chão; e se as pessoas se fizessem felizes apesar das lágrimas que têm em si, causadas pela selvajaria com que os humanos têm tratado os humanos, pela injustiça absurda e castradora de sonhos que a realidade obriga a lembrar nessa nossa cotidiana luta pelo pão do dia; e se pudessem esquecer, por um momento, a decepção amarga que chega a cada governo novo, que nunca passa de velho...

Se o seu toque fizesse com que os homens conhecessem a alegria no APESAR DE. Se você pudesse fazer isso... Aí, meu amigo, eu te diria que você é mágico completo. Ou então, te diria que você não faz nada que não tivesse sido feito pelo primeiro hominídeo que tentou traduzir aos seus contemporâneos e a você – um bom par de anos depois - a sensação que tinham diante de sua realidade, tentando causar a outros essa mesma sensação, por meio da pintura do seu mundo com sangue e argila nas pedras de suas casas-cavernas. E fez-se o que chamam Arte.

A Arte nasceu quando um hominídeo expressou suas impressões. O autor da obra-prima se tratava de quase um macaco e quase um gênio, olhando o mundo de dentro de uma caverna e materializando em formas e cores a fusão de seus olhos com o seu mundo. O autor era quase um macaco e quase um gênio. E você, quase macaco e quase gênio... Não sente um mundo ao seu redor? Não tem olhos? O mundo é trazido a você quase completamente, por tevês, monitores, polegadas e decibéis aos montes, e o autor só tinha pés - recém-bípede! Olhos você pode escolher quais prefere: mãos, ouvidos, retinas... Por que se esquivar de ser esse mágico-autor?

A Arte triunfa sobre o maior inimigo da humanidade, o tempo; prevalece sobre os anos e resiste a ser arrastada pelas tempestades das desilusões humanas; a Arte imortaliza um autor e um mundo. Quem rejeitaria a possibilidade de sair do chão pedregoso e duro, que são nossos dias sem sonhos e voar, ganhar altura ilimitada nas asas das sensações que o belo nos traz? Quem há de negar a importância da arte-mágica em dias de desapontamento recorrente? Quem é o Homem que nega Vida, enquanto atém todo seu esforço no Sobreviver? Ser artista é abrir os olhos, sentir o mundo e se saber autor, pai da própria imortalidade.


Fernanda Lobo

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isto considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado, acima de todas as coisas. não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo...
***
"Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso." - C. L.

Wednesday, March 07, 2007

salome 1869



... e como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado,ficou toda pasmada de encontrar o seu coração vazio.
...

Thursday, March 01, 2007


...


mas ontem,
eu recebi um telegrama...


.)

Tuesday, February 27, 2007


Os sós
só lidam consigo.
Só lidar
com solidão
Não consigo.

Só posso me dar
se for em demasia
sem solicitar,
que é liberdade
solução de solidão.
<
Brilhar por si
é coisa de Sol,
é coisa de Deus,
de coisa maior
que pode estar só.
Eu não.>>

Fernanda Lobo

poesia-vida-poesia


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...

Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

José, para onde?

Sunday, February 25, 2007




"O amor é o ridículo da vida.
A gente procura nele uma pureza impossível,
uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue,
bonita e breve,
como as borboletas que só vivem 24 horas.
Morrer não dói."

Friday, February 23, 2007




" Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus. "

Sunday, February 18, 2007




"Eu amo a vida,
eis a minha verdadeira fraqueza.
Amo-a tanto,
que não tenho
nenhuma imaginação
para o que não
for vida."
Albert Camus

Thursday, February 15, 2007

liberté

no silêncio, há a iminência da palavra fatal.

o silêncio desloca o homem do esquecimento de si próprio e faz com que viva o "oco da alma".

o silêncio provoca a angústia de se descobrir como simples estar-no-mundo, entregue a si mesmo, desamparado da firmeza que o senso-comum lhe oferece.

Saturday, February 10, 2007

o coração da flor / a alma da flor



e ele queria ser um herói,
ou mártir de uma qualquer história minha,
mas ele em personagem não tinha que ser inventado,
pois forçava incessantemente sua existência dentro de mim,
na história mais minha...

Thursday, February 08, 2007

Monday, February 05, 2007


" no centro da sala,
diante da mesa,
no fundo do prato,
comida e tristeza.
a gente se olha,
se toca e se cala
e se desentende
no instante em que fala.

cada um guarda mais o seu segredo,
sua mão fechada,
sua boca aberta,
seu peito deserto.
sua mão parada,
lacrada, selada,
molhada de medo.

pai na cabeceira: é hora do almoço.
minha mãe me chama: é hora do almoço.
minha irmã mais nova, negra cabeleira,
minha avó me chama: é hora do almoço.

e eu 'inda sou bem moço pra tanta tristeza,
deixemos de coisas, cuidemos da vida,
senão, chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta moço sem ter visto a vida. "

Friday, February 02, 2007




Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer que o mundo respirava mais se ela apertava assim seu colo
e como se não fosse um tempo em que já fosse impróprio se dançar assim
ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins.


Como fosse um lar seu corpo a valsa triste iluminava e à noite caminhava assim
e como um par, o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim
valsando como valsa uma criança que entra na roda, a noite tá no fim,
e ela valsando só na madrugada, se julgando amada ao som dos bandolins.
Oswaldo Montenegro

Tuesday, January 30, 2007




A autenticidade exige que se aceite sofrer,
por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo.


Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer.
Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos.


É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico.


Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade.
Sartre

Monday, January 29, 2007


E morri de novo. Morri sem a graça e a coragem de outrora. Morri já me retirando do brilho que a morte tem.
Morri duvidando.
Antes morresse tendo certeza: brilhante e digna.
E não entendo porque escrevo morrendo. Talvez porque nasci escrevendo e me sinta obrigada a fazê-lo num sacro rito de esgotamento.
Morro contemplando a ironia clara e fúnebre. Cômica e, claramente, disfarçada fúnebre.
E me demorando em encontrar o fio da meada que a mim não se amarra, nem me detém. O fio dos humanos, que não me tocou- não me toca.- e prefere deixar que eu me afaste a abordar isso que eu sou.
O fio pelo qual tentam me puxar, me aproximar, me conter. Sem saber que é impossível trazer para perto de si quem morre e prefere ir ao inferno com os próprios pés a se deixar ser lançado por Deus.
E um cansaço de mim... Desse eu respirando, movendo, mergulhando, perdendo ar, perdendo chão, ganhando tanto sentimento, ganhando tanto do alto...
E até morrer cansa desse sentir demais. Nem o último suspiro alivia a quem morre duvidando e pulsando: sem ar,sem brilho, sem seiva.


Fernanda Lobo

Saturday, January 27, 2007

" eu quero é viver em paz..."



alma limpa,
mente livre!

alma limpa eleva,
mente livre edifica.

(: fê . liz !

Friday, January 12, 2007


"... a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesma ao ponto de eu neste instante explodir em : eu.
esse eu que é vós, pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou..."

Thursday, January 11, 2007



Malandrinho diz:
na bahia os santos sao so os aqueles q o alejadinho fez .

hahahahahahaha
eu posso com um troço desses (vindo de um sujeito que se intitula Malandrinho)???
" xuxu, vou me mandar.
é, eu vou pra Bahia
talvez volte qualquer dia! "


(:

Wednesday, January 03, 2007

bom é isso: quando a poesia salva o dia.



“ A vida é isso:
carregar na mochila
as próprias feridas.

Mas sempre
Com um punhado de rosas
Na mão.

As ocasiões exigem,
O cheiro guia.”

Hélio Aroeira

'' Ser feliz pra sempre é o final que todos desejamos para a nossa história pessoal. Só que a felicidade muda de significado durante o percuso de uma vida. Ninguém sabe direito o que é felicidade, mas, definitivamente, não é acomodação.
Acomodar-se é o mesmo que fazer uma longa viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que aborrecimento. É preciso um pouquinho de turbulência para a gente acordar e sentir alguma coisa, nem que seja medo. Tem muita gente que não conhece as delícias de ser feliz por uns meses, depois infelizes por uns dias, felicíssimo por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluco, então ser feliz de novo em fevereiro e em março, e em abril questionar tudo o que se fez, aí em agosto ser feliz porque a ousadia deu certo, e infeliz porque durou pouco, e assim sentir-se realmente vivo porque cada dia passa a ser um único dia, e não mais um dia.
Então, não se distraia!!! Ou você caba sendo feliz para sempre. "

Saturday, December 30, 2006


no meio da conversa eufórica, espaçosa, gesticulada,
ele esbarra no copo de cristal da velha: copo caro, copo de longe.
o semblante da velha ao constatar o óbito da coisa é o de quem perdeu um filho.
o filho da velha - sabe a mãe que tem - parece ter perdido a progenitora.
a conversa espirituosa já inexiste.
E ninguém perdeu ninguém.


Fernanda Lobo

Thursday, December 28, 2006


" na vida,
quem perde o telhado

em troca,
recebe as estrelas... "

Sunday, December 24, 2006



"Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."


A Insustentável leveza do ser, Milan Kundera.

Wednesday, December 06, 2006

meta - língua


Eu devia ser mais poesia.
Eu queria chorar poesia. Eu queria sorrir poesia.
Eu queria ser mais rima. Mais ritmo, se assim coubesse.
Sabe que eu deveria ouvir mais poesia?
Cheirar à poesia, viver a poesia.
Sabe que eu devia recriar mais coisas belas?
Pisar menos o chão penoso.
Ouvir menos meus passos secos, sem poesia.
Piso demais, voando estou pouquíssimo.

Eu devia saber mais poemas, mais odes, sonetos.

Decorar todos.
Decorar decorando com adornos, ornamentos. De corações.
Abaixo verbos secos. Menos números efêmeros.
Abaixo fontes estéreis.

Eu devia era falar poesia, era sonhar esses poemas.
Essas figueiras, esse pomares,
essas novas brancas nuvens,
sempre novas.
Esse frio, esse fogo.
Essa lua, a poesia que me está oculta,
encoberta por algum descuido do Existir.
Por que se esconde? Por que não me abraça como faz o Sol?
Por que não se coloca a correr como rio perene essa poesia?
Por que me esquece tão rápido?
Por que não mereço?

Como? Se antes de existir em qualquer - em qualquer um - antes disso, sou poeta.

Eu devia encontrar essa poesia, como ao tesouro que se encontra no fim da vida e que não se pode mais medir, ou consumir.
Eu devia esquecer coisas e lembrar poesias.
Como choro por procurar. Viver procurando.
Choro mesmo. Choro pranto. Choro e não há consolo, não há alívio, ou auxílio.

Suspensa em águas caladas. Torrentes de secas.
Sede de versos, versos mais belos que os dos homens.
Estranho a vida sem encanto. Estranho a seca.
Estranho o que não me alaga,

como se fosse uma santa, rica, inefável poesia.

Fernanda Lobo

Tuesday, December 05, 2006



Estou fazendo as malas. Já está na hora de ir para um lugar distante, onde não imagino o que encontraria.
É hora de confessar que o amor pelo seguro é o que faz tropeçar e viver tropeçando, como se, com o passar do tempo, meus passos não fossem mais tão meus.

Estou fazendo as malas e escolhendo um lugar mais alto. Estou olhando meu céu, que não mais olharei, com um misto de ódio - que justifica as malas - e de um saudosismo inconcebível que eu não esperava como hóspede, porque é como se meu céu fosse eu mesma. E ele me ameaça me acompanhar aonde eu for, como eu mesma.

Às malas! Não quero levar tantas coisas supérfluas. De banal, eu me basto. Quero carregar o suficiente. O resto que se converta no delírio e no pecado dos luxos raros.
Estou indo aprender a ser só. Estou indo saber que talvez a afirmação da existência não dependa de que nos avisem que existe.


[...]


Fernanda Lobo

Monday, December 04, 2006

E dá-lhe Chico!

Ela faz cinema /Chico buarque

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas nao existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

Wednesday, November 29, 2006


" O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor;
embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento;
sem medida que o conheça,
o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim;
é um pomo exótico que não pode ser repartido,
podendo entretanto prover igualmente a todo mundo;
onipresente, o tempo está em tudo;
existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia,
existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados,
e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia;
existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família,
nas paredes da nossa casa, na água que bebemos,
na terra que fecunda, na semente que germina,
nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos,
na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça,
no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia;
rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas,
e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;
rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições,
não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente,
estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria
para receber dele os favores e não a sua ira;
o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo,
e quem souber com acerto a quantidade de vagar,
ou a de espera, que se deve pôr nas coisas,
não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."


Raduan Nassar.

Sunday, November 26, 2006


"
[...]

Me ocorreu também que era num exercício de paciência que ele se recolhia, consultando no escuro texto dos mais velhos: a página nobre e ancestral.

Mas na corrente do meu transe já não contava sua dor misturada ao respeito pela lenda dos antigos.
Eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai. Que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos convênios, mas que existia uma outra Medicina: a minha; e que, fora de mim, eu não reconhecia qualquer ciência e que era tudo uma questão de perspectiva. E o que valia era o meu - e só o meu - ponto de vista.

Que era um requinte de saciados testar as virtudes da paciência com a fome de terceiros..."


Raduan Nassar - LavourArcaica

Wednesday, November 22, 2006


Eu, véspera de mim.
Sentada sem bagagem na estação,
saudosa do dia-eu.
Espero a chegada de mim,
não certa do dia que vi.
Certeza inadiável de que sou véspera. Só.
Véspera do que versa, voa...
Vicia, vibra
Vacila, vassala.
Véspera de quem chega de mala,
se juntar à minha cuia e cuíca.
Boa bagagem. Vide véspera.
Dia-Eu, só amanhã...

Fernanda Lobo

Sunday, November 19, 2006



XLVI

"Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tâo sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcansáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."

Friday, November 17, 2006


" É tal a nossa imprevidência ou ignorância, que tomamos por um grave mal o que freqüentes vezes é origem e ocasião dos maiores bens. "

Sunday, November 12, 2006



" O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?
perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó,
soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento. "


Neruda


" Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra(...)
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti. "

John Donne


Saturday, November 11, 2006


"...
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem. "


(Maiakovsky, "V Internacional", trad. de Augusto de Campos)

Friday, November 10, 2006


Invento coragem.
Invento e desobstruo o canal fundamental de existir. Desobstruo e depois alargo o canal: aumento o fluxo de existência.
Desobstruo o caminho ao não mais tentar entender o que extrapola entendimento.
Alargo o canal. Criando a coragem que não existe; desprezando entraves que seriam, mas não são.
E vem vida em um fluxo enorme, vazão de vida que não para de crescer. Em enxurradas, aguaceiro. E vem tudo o que “é” de uma só vez em uma onda gigantesca e azul. Azulzinha. Azulzíssima.

E, por um momento, eu penso em me arrepender de ter inventado coragem. Aumentei o fluxo e vou me afogar. Estou me afogando. Eu não queria terminar assim. Asfixiado. Asfixiado por tudo que “é” e me liberta demais. Assim é a derrocada dos artífices de coragem?

E, me afogando, sinto meu ar mais do que nunca. Sinto, porque nunca havia dado tanta importância ao ar. Havia dado apego a coisas bem mais banais do que o ar: coisas burguesas, caras coisas baratas e ordinárias... E trocaria todas elas, imediatamente, só por ar.
E sinto meus pulmões mais do que nunca. E me reconheço inédito no meio da asfixia: pobre de ganâncias e de tantas ambições. Eu nunca me vi assim. Se eu não estivesse morrendo afogado riria da minha cara de estúpido, querendo ar e não posses.

Afogando-me e me conhecendo. Que decepção me conhecer... Entre tanta vida, tantos objetos, tantas ocasiões, tantas pessoas, tantos planos, tantas desilusões, tantos pensamentos, tanto querer. Eu não imaginava que me afogaria assim no canal que eu mesmo aumentei, no fluxo que eu mesmo permiti... E me percebo muito eu. De novo, eu demais.

Percebendo-me, reparo ao meu redor e avisto distante um funil. Num lapso de lucidez em meio ao meu desespero, nado até ele. Fecho os olhos e, num impulso, jogo-me no estreitíssimo canal do funil. E passo. Coisas bem menores do que eu tentaram e não passaram, eu vi. Mas, eu sei, elas nunca desobstruíram seus canais. Eu passei só. Passei sem as coisas e sem as pessoas. Eu tenho ar e me vejo nu.

Nesses canais de tanto existir, às vezes ocorre de alguém se descobrir e ocorre de outros permanecerem incógnitos de si...


Fernanda Lobo

Monday, November 06, 2006


" O objetivo primordial e necessário de toda a existência deve ser a felicidade,
mas a felicidade não pode ser obtida individualmente;
é inútil se esperar pela felicidade isolada;
todos devem compartilhar dela ou então a maioria nunca será capaz de gozá-la."


Robert Owen


" Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.
(...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma. "

Carlos Castaneda

Friday, November 03, 2006




AQUELA MULHER
Rubem Braga
O médico me levou até o elevador.
Quando cheguei à rua
Sabia que já não estava condenado a morrer.
Mas as horas de perigo, de certeza da morte,
De preparação para a morte,
As horas da morte ainda batiam dentro de mim.
Nessas horas a vida recuara ante meus olhos,
Cheia
De suas fascinações, tristezas e ternuras,
Estava orgulhoso de mim mesmo.
De meu pensamento viril diante da morte,
Da força de meu ódio aos inimigos que eu pensara em matar antes de morrer.
Do amor, do grande e comovido amor
Com que eu me despedia em silência de vós, almas queridas,
Almas queridas a que jamais servi bem.
Ia pela rua, mas ainda ia a meu lado
A sombra sem terror mas inapelável
Da morte.
Foi então que passou a desconhecida mulher
Abençoada eternamente seja essa mulher!
Uma alta, bela, desconhecida mulher
Que andava com seu andar de desconhecida mansa
Seus finos cabelos negros brilhavam ao sol
E seus olhos eram claros como a vida que renascia.
No seu corpo havia a doce dignidade essencial
Que é a marca suprema da beleza na mulher.
Eu a fitei, eu detive os seus olhos com os meus,
Foi apenas um segundo.
Ela não desviou os seus,
Apenas continuou na sua marcha mansa
Não sentiu nos meus olhos a aflição deslumbrada
A ansiosa descoberta, a impressão de milagre
Nos meus olhos ressucitados que saudavam
E abençoavam, abençoavam ardentemente sua natureza de mulher.
Eu estava tão sólido em face da morte,
De minha morte, de minha obscura morte,
Estava tão sólido, firme, bem plantado e certo
Perante a morte – e agora
Era como se a vida como alta onda desabasse
Sobre mim, e num instante
Senti toda a sua força furiosa, o desespero, a beleza,
A ânsia que não tem fim, a sede, a dolorosa
Exaltação que sempre foi a vida para mim,
A tonteira cruel, a coragem, a promessa
O que ela me dá, o que tomo, o que roubo,
O que espero, e tudo, tudo o que eternamente desespero.
Senti-me fraco, miserável, diante da vida,
À mercê da sua força inelutável, da atração
Cruel com que me chama todo dia.
Senti a sua exasperante incerteza,
Senti num instante toda a sua longa, longa,
Mortificante melancolia.
Fazia sol na rua.
Dois homens pararam me olhando. Eu olhava
Longe – com meu olhar ressuscitado
Que de longe, muito longe, ainda
Abençoava aquela mulher.

(São Paulo, 1941)

Tuesday, October 31, 2006


" Os indígenas foram derrotados também pelo assombro. O imperador (asteca) Montezuma recebeu em seu palácio as primeiras notícias: um grande 'monte' andava se mexendo pelo mar. Outros mensageiros chegaram depois: '[...] muito espanto lhe causou ao ouvir como dispara um canhão, como ressoa seu estrépito, como derruba as pessoas; e atordoam-se os ouvidos. E quando sai o tiro, uma bola de pedra sai de suas entranhas: vai chovendo fogo [...]'. Os estrangeiros traziam 'veados', nos quais montavam e ficavam 'das alturas dos tetos'. Por todas as partes tinham o corpo envolto, ' somente as caras aparecem. São brancas, como se fossem de cal. Têm cabelo amarelo, embora alguns o tenham preto. Sua barba é grande [...]'. Montezuma acreditou que era o deus Quetzalcoatl que voltava. " (GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América)


[...]


" No México, os astecas cultuavam o deus Quetzalcoatl. Ele personificava a sabedoria e o conhecimento e foi quem lhes deu, entre outras coisas, o chocolate.Os astecas acreditavam que Quetzalcoatl trouxera do céu para o povo as sementes de cacau. Eles "festejavam" as colheitas com rituais de sacrifícios humanos, oferecendo às vítimas taças de chocolate.Um dia, Quetzalcoatl ficou velho e decidiu abandonar os astecas. Partiu em uma jangada de serpentes para o seu lugar de origem, a Terra do Ouro. Antes de partir, porém, ele prometeu voltar no ano de "um cunho", que ocorria uma vez a cada ciclo de 52 anos no calendário que ele mesmo criara para os astecas. "