Monday, March 26, 2007


A atividade humana é toda ela dirigida no sentido do permanecer. A busca incessante da superação do tempo. Quer o homem se projetar, continuar, e seus atos assim o conduzem, mesmo quando as circunstâncias o lançam na mais repetida e monótona realização de vida, quando o gesto heróico ou a heroicidade do diuturno [que dura muito] trabalho de criação artística, científica, econômica e política lhe faltam.


Sempre há a ilusão da continuidade, no filho, na crença religiosa, no trabalho ou no paradoxal comportamento irreverente e anárquico. O homem se apega às coisas pequenas e ridículas se for. Apega-se ao afã de deixar a marca de seu rosto na transitoriedade da vida. Mas se houvesse a imortalidade? Encontraria o homem o sossego eterno? a absoluta felicidade?...E o prazer? Se não houvesse o efêmero que dá sua medida, o prazer transformar-se-ia em dor. O minuto que acaba torna belo o presente, valoriza-o, deixa-o na saudade.


Com a eternidade, desaparecia também o encanto de nossas vidas. A morte, limitando nosso tempo, obriga-nos a tomar decisões: são múltiplos os caminhos. O destino é pois a soma de nossas opções. No dia a dia, traçamos o enredo de nosso próprio romance, na apaixonante espera do desenlace. Mas se não morremos, para que decidir?

Aí está: a imortalidade é a morte da vida.


Se somos felizes é porque morremos, diz-nos Simone de Beauvoir.

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