Saturday, March 31, 2007

E se é a inquietação que quereis expulsar,
tal inquietação foi escolhida por vós
e não tanto imposta de fora.

E se quereis dissipar o medo,
a sede desse medo é o vosso coração
e não a mão que vos assusta.

De fato, todas as coisas se movem no mais íntimo do vosso ser,
num constante semi-abraço,
tanto as desejadas quanto as temidas,
as repugnantes e as tentadoras,
aquelas que buscais como aquelas de que fugis.

Tais coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras,
em pares estreitamente unidos.
E quando a sombra se debilita e desaparece,
a luz que resta torna-se sombra de uma nova luz.
E assim a vossa liberdade, desembaraçada de estorvos,
torna-se ela própria embaraço de uma liberdade maior.

Kahlil Gibran

Wednesday, March 28, 2007

“...e quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso da carapaça, pensam que estão em segurança mas se consomem de medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam, trazem na mão a chave mas se esquecem que ela abre, e, obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois recusam o remédio;


[...]


a sabedoria está precisamente em não se fechar nesse mundo menor: humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza...”


Raduan Nassar, LavourArcaica

... e num constante exercício de manter longe as vendas dos meus olhos, e só conhecer o que cria vida foi que eu descortinei, ainda que mal saída de uma morte qualquer, que talvez estivesse enganada e que a minha visão de mim mesma fosse a mais deformada de todas.

Passei a duvidar do meu acesso a mim e a procurar a ponte entre mim e eu, a desconfiar que eu falava outra língua, senão essa que bem conheço. Falasse a língua intocável e muito interior de símbolos e fonemas tão extremos e agudos que qualquer outra pessoa que conhecesse não a suportaria. A força da minha língua interior é insuportável. É um pouco como esse zunir agudo e contínuo no ouvido do mundo.

Derramo, neste caso, meu perdão inegável e puro a vocês que não toleram um idioma abstrato e enjoadinho e que têm compreensível indisposição para tocar no que explode e se espalha, que querem, com razão, se livrar dessas complicações do sujeito. Por Deus que eu também quero ser objeto!...

Fernanda Lobo

Monday, March 26, 2007


A atividade humana é toda ela dirigida no sentido do permanecer. A busca incessante da superação do tempo. Quer o homem se projetar, continuar, e seus atos assim o conduzem, mesmo quando as circunstâncias o lançam na mais repetida e monótona realização de vida, quando o gesto heróico ou a heroicidade do diuturno [que dura muito] trabalho de criação artística, científica, econômica e política lhe faltam.


Sempre há a ilusão da continuidade, no filho, na crença religiosa, no trabalho ou no paradoxal comportamento irreverente e anárquico. O homem se apega às coisas pequenas e ridículas se for. Apega-se ao afã de deixar a marca de seu rosto na transitoriedade da vida. Mas se houvesse a imortalidade? Encontraria o homem o sossego eterno? a absoluta felicidade?...E o prazer? Se não houvesse o efêmero que dá sua medida, o prazer transformar-se-ia em dor. O minuto que acaba torna belo o presente, valoriza-o, deixa-o na saudade.


Com a eternidade, desaparecia também o encanto de nossas vidas. A morte, limitando nosso tempo, obriga-nos a tomar decisões: são múltiplos os caminhos. O destino é pois a soma de nossas opções. No dia a dia, traçamos o enredo de nosso próprio romance, na apaixonante espera do desenlace. Mas se não morremos, para que decidir?

Aí está: a imortalidade é a morte da vida.


Se somos felizes é porque morremos, diz-nos Simone de Beauvoir.

Monday, March 19, 2007

Se choro é porque posso chorar. Se não pudesse, me arrisco a dizer que tanto faria, já que é no meio de muito não poder.

Se não fosse permitido chorar lágrimas, talvez o fizesse em tinta sobre papel e escreveria molhado e úmido e molhado novamente. Até o seco.
Porque já sei que é sempre que eu escrevo como se chorasse, mesmo quando é um riso solto que me agita a pena. Aí posso escrever como se sorrisse alto como a alegria insistente do coração de um louco. Da alegria que não seca por mais que evapore.

E nessa falta de fato que excede na minha história, me arrisco a dizer que é o concreto que me impressiona.
Me impressionou a moça pequena parada em um ponto de ônibus, com pulseirinhas de contas azuis, como sua blusinha desbotada azul.
Ainda tive tempo de ver que em suas mãos tímidas havia cicatrizes e havia cor de sujo nos pés e na sandália pequena.
E o que ainda me atingiu foi a consternação acalmada e reticente no relance dos olhos da menina negrinha. E sua capacidade de não tê-los eternamente molhados, mas de ainda combinar pulseiras azuis com uma blusinha azul muito desbotada.


Fernanda Lobo

" A vida das gentes neste mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
Pisca e mama.
Pisca e brinca.
Pisca e ama.
Pisca e cria filhos.
Pisca e geme reumatismos.
Por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é? "

explosion


" Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e ficam se fingindo de sonsos. " C.L.

Tuesday, March 13, 2007

clown


“Todo mundo é um pedacinho do outro!
... todo outro é um pedacinho do mundo!”

Sunday, March 11, 2007


Embriague-se


É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do Tempo
que lhe quebra os ombros e o curva para o chão,
é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto,
você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunte que horas são
e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão:
"É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se;
embriague-se sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".

Baudelaire

Thursday, March 08, 2007


Quais eram os olhos sobre cada um dos lugares que você visitou? De quem os ouvidos em cada uma das músicas que você ouviu? As mãos sobre as texturas que você já sentiu? Eram seus olhos, seus ouvidos e suas mãos?

E essas sensações que resolvem emergir do mergulho mais longo que haviam dado dentro da sua alma, ao estímulo de um abraço infinito, de um sorriso de criança, do amor a quem você ama? A sensação de vida que já poderia estar se asfixiando dentro de você, tão longo tivesse sido seu mergulho, mas que vem à tona respirar quando em contato com essas coisas que só você acha bonito e que - só em você- provocam aquela disposição branda e prometedora de que o simples existir pode ser melhor, melhor, ilimitadamente melhor...

E mais, se você pudesse transmitir essa arrebatadora sensação a outrem, só pelo fato de tocá-lo? Sem palavra mágica, sem cartola e vara de condão... E as pessoas tocadas, de repente, se sentissem bem como você se sente. E se sentissem bem apesar da disparidade social que assola o País desde antes mesmo que o País fosse país; se sorrissem, apesar da lembrança dos que têm fome, que apela em gritos silenciosos dentro de todos os seres humanos, nos fazendo sofrer da culpa coletiva pelos que morrem sem teto e sem chão; e se as pessoas se fizessem felizes apesar das lágrimas que têm em si, causadas pela selvajaria com que os humanos têm tratado os humanos, pela injustiça absurda e castradora de sonhos que a realidade obriga a lembrar nessa nossa cotidiana luta pelo pão do dia; e se pudessem esquecer, por um momento, a decepção amarga que chega a cada governo novo, que nunca passa de velho...

Se o seu toque fizesse com que os homens conhecessem a alegria no APESAR DE. Se você pudesse fazer isso... Aí, meu amigo, eu te diria que você é mágico completo. Ou então, te diria que você não faz nada que não tivesse sido feito pelo primeiro hominídeo que tentou traduzir aos seus contemporâneos e a você – um bom par de anos depois - a sensação que tinham diante de sua realidade, tentando causar a outros essa mesma sensação, por meio da pintura do seu mundo com sangue e argila nas pedras de suas casas-cavernas. E fez-se o que chamam Arte.

A Arte nasceu quando um hominídeo expressou suas impressões. O autor da obra-prima se tratava de quase um macaco e quase um gênio, olhando o mundo de dentro de uma caverna e materializando em formas e cores a fusão de seus olhos com o seu mundo. O autor era quase um macaco e quase um gênio. E você, quase macaco e quase gênio... Não sente um mundo ao seu redor? Não tem olhos? O mundo é trazido a você quase completamente, por tevês, monitores, polegadas e decibéis aos montes, e o autor só tinha pés - recém-bípede! Olhos você pode escolher quais prefere: mãos, ouvidos, retinas... Por que se esquivar de ser esse mágico-autor?

A Arte triunfa sobre o maior inimigo da humanidade, o tempo; prevalece sobre os anos e resiste a ser arrastada pelas tempestades das desilusões humanas; a Arte imortaliza um autor e um mundo. Quem rejeitaria a possibilidade de sair do chão pedregoso e duro, que são nossos dias sem sonhos e voar, ganhar altura ilimitada nas asas das sensações que o belo nos traz? Quem há de negar a importância da arte-mágica em dias de desapontamento recorrente? Quem é o Homem que nega Vida, enquanto atém todo seu esforço no Sobreviver? Ser artista é abrir os olhos, sentir o mundo e se saber autor, pai da própria imortalidade.


Fernanda Lobo

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isto considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado, acima de todas as coisas. não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo...
***
"Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso." - C. L.

Wednesday, March 07, 2007

salome 1869



... e como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume evaporado,ficou toda pasmada de encontrar o seu coração vazio.
...

Thursday, March 01, 2007


...


mas ontem,
eu recebi um telegrama...


.)