Wednesday, November 25, 2009

(:


[...]
Lélio se estendeu, feliz de seu bom descanso. Já se abençoava de ter vindo para o Pinhém; principalmente, se conseguia solto, dono de si e sem estorvo. Era um novo estirão de sua vida, que principiava. Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira - os parentes, os conhecidos, até os namoros, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa fazer a barra. A tanto sentia falta de uma confusão grande, que ajudasse a um não carecer de curtir a confusão pequena das coisas de todo o dia da gente, derredor.
E ter tempo para ir se lembrando devagarinho das melhores horas, consumindo. Avante e volta, gostava de galopar no campo, o galope, o galope. Assim queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data,e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo.
Guimarães Rosa.
No urubuquaquá, no Pinhém

Friday, November 20, 2009



Ó vida dos lavradores,
Se elles conhecessem bem
As vantagens que tem,
Aquelles tantos suores,
Que santamente os mantem.


Sá de Miranda

Guimarães em gotas

[...]
e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo - Ó colossalidade! - na direção da altura?
E não é assim que as palavras têm canto e plumagem.

Rosa, 1984, p.253 Sagarana

Eu mesmo não gostei. Mas a minha poesia viajara muito e agora estava bem depois do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso me perturbou, escrevi: Ou a perfeição, ou a pândega!

Rosa, 1984, p.255 Sagarana