
E morri de novo. Morri sem a graça e a coragem de outrora. Morri já me retirando do brilho que a morte tem.
Morri duvidando.
Antes morresse tendo certeza: brilhante e digna.
E não entendo porque escrevo morrendo. Talvez porque nasci escrevendo e me sinta obrigada a fazê-lo num sacro rito de esgotamento.
Morro contemplando a ironia clara e fúnebre. Cômica e, claramente, disfarçada fúnebre.
E me demorando em encontrar o fio da meada que a mim não se amarra, nem me detém. O fio dos humanos, que não me tocou- não me toca.- e prefere deixar que eu me afaste a abordar isso que eu sou.
O fio pelo qual tentam me puxar, me aproximar, me conter. Sem saber que é impossível trazer para perto de si quem morre e prefere ir ao inferno com os próprios pés a se deixar ser lançado por Deus.
E um cansaço de mim... Desse eu respirando, movendo, mergulhando, perdendo ar, perdendo chão, ganhando tanto sentimento, ganhando tanto do alto...
E até morrer cansa desse sentir demais. Nem o último suspiro alivia a quem morre duvidando e pulsando: sem ar,sem brilho, sem seiva.
Fernanda Lobo