Monday, March 19, 2007

Se choro é porque posso chorar. Se não pudesse, me arrisco a dizer que tanto faria, já que é no meio de muito não poder.

Se não fosse permitido chorar lágrimas, talvez o fizesse em tinta sobre papel e escreveria molhado e úmido e molhado novamente. Até o seco.
Porque já sei que é sempre que eu escrevo como se chorasse, mesmo quando é um riso solto que me agita a pena. Aí posso escrever como se sorrisse alto como a alegria insistente do coração de um louco. Da alegria que não seca por mais que evapore.

E nessa falta de fato que excede na minha história, me arrisco a dizer que é o concreto que me impressiona.
Me impressionou a moça pequena parada em um ponto de ônibus, com pulseirinhas de contas azuis, como sua blusinha desbotada azul.
Ainda tive tempo de ver que em suas mãos tímidas havia cicatrizes e havia cor de sujo nos pés e na sandália pequena.
E o que ainda me atingiu foi a consternação acalmada e reticente no relance dos olhos da menina negrinha. E sua capacidade de não tê-los eternamente molhados, mas de ainda combinar pulseiras azuis com uma blusinha azul muito desbotada.


Fernanda Lobo

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