Tuesday, May 30, 2006


Sentir um grito é mais do que ouvir.
É estremecer dentro, mesmo se não se sabe ser o grito de liberdade ou pavor.

Sentir as palavras é mais do que ler.
É saber um acréscimo de estranhamento em si, estranhamento por ter sido abusado dentro de si um lugar nunca tocado. Abusado por palavras. É se deixar exorcizar pelo inteligível.

Sentir um sabor é mais do que gostar.
É se entregar a um delírio tão momentâneo quanto consumidor, é querer mais o prazer do que o prêmio.

Sentir um perfume é mais, é bem mais do que cheirar.
É ter certeza de que o momento existe, é se saber em um sonho quase realizado. Realizado até que finde. Sem lembrar que findará.

Há sons que ultrapassam a sonoridade, há sons que trazem gostos; que têm mãos para enfiá-las em seus seios. E arrancar em enxurradas o que houver de mais compacto.

Há cheiros que se eternizam.

Há palavras que têm vida, que confrontam, que entendem.

E há vidas que, sentidas, ultrapassam respirar, ultrapassam uma biologia funcional. São as que se deixam invadir pelo que há que se sentir por detrás do que existir.

Fernanda Lobo

Saturday, May 27, 2006



fernanda diz:
os dois tão conversando longe, mas parece que tão perto ,sabe?
fernanda diz:
rindo...
fernanda diz:
uma paz....
luisa diz:
vou ver
fernanda diz:
adoro janelas grandes
luisa diz:
tb!
luisa diz:
adoro a janela do meu quarto novo pq ela é grande
luisa diz:
a do outro era pequena
luisa diz:
;/
fernanda diz:
é... a minha é grande
fernanda diz:
faz minha vida muito melhor a minha janela
fernanda diz:
minha janela e meus travesseiros
luisa diz:
essa janela é muito muito grande
luisa diz:
bonita mesmo a foto
fernanda diz:
num é?
fernanda diz:
delicia
fernanda diz:
eu fiquei um tempão olhando essa foto
fernanda diz:
vou por no blog
fernanda diz:
q q eu escrevo?
luisa diz:
coisas simples, mas fundamentais
luisa diz:
janelas e travesseiros
fernanda diz:
a gente é muito amelie tb com essas ondas
luisa diz:
hm.. escreve o que vc me disse
luisa diz:
que eles tão longe mas parece que estão perto...

Thursday, May 25, 2006


"Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim".

Cazuza

Wednesday, May 17, 2006


... A palavra
Pablo Neruda


Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.


*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

Thursday, May 11, 2006

Pose pra foto, meninos de rua!


"Eles são deuses
Eles não são
Eles são deuses
Claro que não
Eles são deuses
E ninguém é
Eles são deuses
Porque são deuses
Porque só deuses
Vivem sem fé."