Saturday, December 30, 2006


no meio da conversa eufórica, espaçosa, gesticulada,
ele esbarra no copo de cristal da velha: copo caro, copo de longe.
o semblante da velha ao constatar o óbito da coisa é o de quem perdeu um filho.
o filho da velha - sabe a mãe que tem - parece ter perdido a progenitora.
a conversa espirituosa já inexiste.
E ninguém perdeu ninguém.


Fernanda Lobo

Thursday, December 28, 2006


" na vida,
quem perde o telhado

em troca,
recebe as estrelas... "

Sunday, December 24, 2006



"Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."


A Insustentável leveza do ser, Milan Kundera.

Wednesday, December 06, 2006

meta - língua


Eu devia ser mais poesia.
Eu queria chorar poesia. Eu queria sorrir poesia.
Eu queria ser mais rima. Mais ritmo, se assim coubesse.
Sabe que eu deveria ouvir mais poesia?
Cheirar à poesia, viver a poesia.
Sabe que eu devia recriar mais coisas belas?
Pisar menos o chão penoso.
Ouvir menos meus passos secos, sem poesia.
Piso demais, voando estou pouquíssimo.

Eu devia saber mais poemas, mais odes, sonetos.

Decorar todos.
Decorar decorando com adornos, ornamentos. De corações.
Abaixo verbos secos. Menos números efêmeros.
Abaixo fontes estéreis.

Eu devia era falar poesia, era sonhar esses poemas.
Essas figueiras, esse pomares,
essas novas brancas nuvens,
sempre novas.
Esse frio, esse fogo.
Essa lua, a poesia que me está oculta,
encoberta por algum descuido do Existir.
Por que se esconde? Por que não me abraça como faz o Sol?
Por que não se coloca a correr como rio perene essa poesia?
Por que me esquece tão rápido?
Por que não mereço?

Como? Se antes de existir em qualquer - em qualquer um - antes disso, sou poeta.

Eu devia encontrar essa poesia, como ao tesouro que se encontra no fim da vida e que não se pode mais medir, ou consumir.
Eu devia esquecer coisas e lembrar poesias.
Como choro por procurar. Viver procurando.
Choro mesmo. Choro pranto. Choro e não há consolo, não há alívio, ou auxílio.

Suspensa em águas caladas. Torrentes de secas.
Sede de versos, versos mais belos que os dos homens.
Estranho a vida sem encanto. Estranho a seca.
Estranho o que não me alaga,

como se fosse uma santa, rica, inefável poesia.

Fernanda Lobo

Tuesday, December 05, 2006



Estou fazendo as malas. Já está na hora de ir para um lugar distante, onde não imagino o que encontraria.
É hora de confessar que o amor pelo seguro é o que faz tropeçar e viver tropeçando, como se, com o passar do tempo, meus passos não fossem mais tão meus.

Estou fazendo as malas e escolhendo um lugar mais alto. Estou olhando meu céu, que não mais olharei, com um misto de ódio - que justifica as malas - e de um saudosismo inconcebível que eu não esperava como hóspede, porque é como se meu céu fosse eu mesma. E ele me ameaça me acompanhar aonde eu for, como eu mesma.

Às malas! Não quero levar tantas coisas supérfluas. De banal, eu me basto. Quero carregar o suficiente. O resto que se converta no delírio e no pecado dos luxos raros.
Estou indo aprender a ser só. Estou indo saber que talvez a afirmação da existência não dependa de que nos avisem que existe.


[...]


Fernanda Lobo

Monday, December 04, 2006

E dá-lhe Chico!

Ela faz cinema /Chico buarque

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas nao existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

Wednesday, November 29, 2006


" O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor;
embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento;
sem medida que o conheça,
o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim;
é um pomo exótico que não pode ser repartido,
podendo entretanto prover igualmente a todo mundo;
onipresente, o tempo está em tudo;
existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia,
existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados,
e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia;
existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família,
nas paredes da nossa casa, na água que bebemos,
na terra que fecunda, na semente que germina,
nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos,
na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça,
no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia;
rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas,
e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;
rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições,
não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente,
estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria
para receber dele os favores e não a sua ira;
o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo,
e quem souber com acerto a quantidade de vagar,
ou a de espera, que se deve pôr nas coisas,
não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."


Raduan Nassar.

Sunday, November 26, 2006


"
[...]

Me ocorreu também que era num exercício de paciência que ele se recolhia, consultando no escuro texto dos mais velhos: a página nobre e ancestral.

Mas na corrente do meu transe já não contava sua dor misturada ao respeito pela lenda dos antigos.
Eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai. Que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos convênios, mas que existia uma outra Medicina: a minha; e que, fora de mim, eu não reconhecia qualquer ciência e que era tudo uma questão de perspectiva. E o que valia era o meu - e só o meu - ponto de vista.

Que era um requinte de saciados testar as virtudes da paciência com a fome de terceiros..."


Raduan Nassar - LavourArcaica

Wednesday, November 22, 2006


Eu, véspera de mim.
Sentada sem bagagem na estação,
saudosa do dia-eu.
Espero a chegada de mim,
não certa do dia que vi.
Certeza inadiável de que sou véspera. Só.
Véspera do que versa, voa...
Vicia, vibra
Vacila, vassala.
Véspera de quem chega de mala,
se juntar à minha cuia e cuíca.
Boa bagagem. Vide véspera.
Dia-Eu, só amanhã...

Fernanda Lobo

Sunday, November 19, 2006



XLVI

"Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tâo sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcansáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."

Friday, November 17, 2006


" É tal a nossa imprevidência ou ignorância, que tomamos por um grave mal o que freqüentes vezes é origem e ocasião dos maiores bens. "

Sunday, November 12, 2006



" O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?
perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó,
soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento. "


Neruda


" Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra(...)
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti. "

John Donne


Saturday, November 11, 2006


"...
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem. "


(Maiakovsky, "V Internacional", trad. de Augusto de Campos)

Friday, November 10, 2006


Invento coragem.
Invento e desobstruo o canal fundamental de existir. Desobstruo e depois alargo o canal: aumento o fluxo de existência.
Desobstruo o caminho ao não mais tentar entender o que extrapola entendimento.
Alargo o canal. Criando a coragem que não existe; desprezando entraves que seriam, mas não são.
E vem vida em um fluxo enorme, vazão de vida que não para de crescer. Em enxurradas, aguaceiro. E vem tudo o que “é” de uma só vez em uma onda gigantesca e azul. Azulzinha. Azulzíssima.

E, por um momento, eu penso em me arrepender de ter inventado coragem. Aumentei o fluxo e vou me afogar. Estou me afogando. Eu não queria terminar assim. Asfixiado. Asfixiado por tudo que “é” e me liberta demais. Assim é a derrocada dos artífices de coragem?

E, me afogando, sinto meu ar mais do que nunca. Sinto, porque nunca havia dado tanta importância ao ar. Havia dado apego a coisas bem mais banais do que o ar: coisas burguesas, caras coisas baratas e ordinárias... E trocaria todas elas, imediatamente, só por ar.
E sinto meus pulmões mais do que nunca. E me reconheço inédito no meio da asfixia: pobre de ganâncias e de tantas ambições. Eu nunca me vi assim. Se eu não estivesse morrendo afogado riria da minha cara de estúpido, querendo ar e não posses.

Afogando-me e me conhecendo. Que decepção me conhecer... Entre tanta vida, tantos objetos, tantas ocasiões, tantas pessoas, tantos planos, tantas desilusões, tantos pensamentos, tanto querer. Eu não imaginava que me afogaria assim no canal que eu mesmo aumentei, no fluxo que eu mesmo permiti... E me percebo muito eu. De novo, eu demais.

Percebendo-me, reparo ao meu redor e avisto distante um funil. Num lapso de lucidez em meio ao meu desespero, nado até ele. Fecho os olhos e, num impulso, jogo-me no estreitíssimo canal do funil. E passo. Coisas bem menores do que eu tentaram e não passaram, eu vi. Mas, eu sei, elas nunca desobstruíram seus canais. Eu passei só. Passei sem as coisas e sem as pessoas. Eu tenho ar e me vejo nu.

Nesses canais de tanto existir, às vezes ocorre de alguém se descobrir e ocorre de outros permanecerem incógnitos de si...


Fernanda Lobo

Monday, November 06, 2006


" O objetivo primordial e necessário de toda a existência deve ser a felicidade,
mas a felicidade não pode ser obtida individualmente;
é inútil se esperar pela felicidade isolada;
todos devem compartilhar dela ou então a maioria nunca será capaz de gozá-la."


Robert Owen


" Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.
(...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma. "

Carlos Castaneda

Friday, November 03, 2006




AQUELA MULHER
Rubem Braga
O médico me levou até o elevador.
Quando cheguei à rua
Sabia que já não estava condenado a morrer.
Mas as horas de perigo, de certeza da morte,
De preparação para a morte,
As horas da morte ainda batiam dentro de mim.
Nessas horas a vida recuara ante meus olhos,
Cheia
De suas fascinações, tristezas e ternuras,
Estava orgulhoso de mim mesmo.
De meu pensamento viril diante da morte,
Da força de meu ódio aos inimigos que eu pensara em matar antes de morrer.
Do amor, do grande e comovido amor
Com que eu me despedia em silência de vós, almas queridas,
Almas queridas a que jamais servi bem.
Ia pela rua, mas ainda ia a meu lado
A sombra sem terror mas inapelável
Da morte.
Foi então que passou a desconhecida mulher
Abençoada eternamente seja essa mulher!
Uma alta, bela, desconhecida mulher
Que andava com seu andar de desconhecida mansa
Seus finos cabelos negros brilhavam ao sol
E seus olhos eram claros como a vida que renascia.
No seu corpo havia a doce dignidade essencial
Que é a marca suprema da beleza na mulher.
Eu a fitei, eu detive os seus olhos com os meus,
Foi apenas um segundo.
Ela não desviou os seus,
Apenas continuou na sua marcha mansa
Não sentiu nos meus olhos a aflição deslumbrada
A ansiosa descoberta, a impressão de milagre
Nos meus olhos ressucitados que saudavam
E abençoavam, abençoavam ardentemente sua natureza de mulher.
Eu estava tão sólido em face da morte,
De minha morte, de minha obscura morte,
Estava tão sólido, firme, bem plantado e certo
Perante a morte – e agora
Era como se a vida como alta onda desabasse
Sobre mim, e num instante
Senti toda a sua força furiosa, o desespero, a beleza,
A ânsia que não tem fim, a sede, a dolorosa
Exaltação que sempre foi a vida para mim,
A tonteira cruel, a coragem, a promessa
O que ela me dá, o que tomo, o que roubo,
O que espero, e tudo, tudo o que eternamente desespero.
Senti-me fraco, miserável, diante da vida,
À mercê da sua força inelutável, da atração
Cruel com que me chama todo dia.
Senti a sua exasperante incerteza,
Senti num instante toda a sua longa, longa,
Mortificante melancolia.
Fazia sol na rua.
Dois homens pararam me olhando. Eu olhava
Longe – com meu olhar ressuscitado
Que de longe, muito longe, ainda
Abençoava aquela mulher.

(São Paulo, 1941)

Tuesday, October 31, 2006


" Os indígenas foram derrotados também pelo assombro. O imperador (asteca) Montezuma recebeu em seu palácio as primeiras notícias: um grande 'monte' andava se mexendo pelo mar. Outros mensageiros chegaram depois: '[...] muito espanto lhe causou ao ouvir como dispara um canhão, como ressoa seu estrépito, como derruba as pessoas; e atordoam-se os ouvidos. E quando sai o tiro, uma bola de pedra sai de suas entranhas: vai chovendo fogo [...]'. Os estrangeiros traziam 'veados', nos quais montavam e ficavam 'das alturas dos tetos'. Por todas as partes tinham o corpo envolto, ' somente as caras aparecem. São brancas, como se fossem de cal. Têm cabelo amarelo, embora alguns o tenham preto. Sua barba é grande [...]'. Montezuma acreditou que era o deus Quetzalcoatl que voltava. " (GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América)


[...]


" No México, os astecas cultuavam o deus Quetzalcoatl. Ele personificava a sabedoria e o conhecimento e foi quem lhes deu, entre outras coisas, o chocolate.Os astecas acreditavam que Quetzalcoatl trouxera do céu para o povo as sementes de cacau. Eles "festejavam" as colheitas com rituais de sacrifícios humanos, oferecendo às vítimas taças de chocolate.Um dia, Quetzalcoatl ficou velho e decidiu abandonar os astecas. Partiu em uma jangada de serpentes para o seu lugar de origem, a Terra do Ouro. Antes de partir, porém, ele prometeu voltar no ano de "um cunho", que ocorria uma vez a cada ciclo de 52 anos no calendário que ele mesmo criara para os astecas. "

Friday, October 27, 2006



"O meu mundo não é como o dos outros;
quero demais, exijo demais,

há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem eu mesma compreendo.

Estou, no entanto, longe de ser uma pessimista,
sou antes uma exaltada!

Com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade...
sei lá de quê!"

_Florbela Espanca

Wednesday, October 25, 2006

I have a question: what the bleep do we know?


Rodrigo:
td q eu leio
(17:49) Rodrigo:
é q a palavra chave de hj
(17:49) Rodrigo:
da filososfia pós-moderna
(17:49) Rodrigo:
é " relatividade"
(17:50) Rodrigo:
td é relativo
(17:50) Rodrigo:
até mesmo nas matérias mais positivistas
(17:50) Rodrigo:
como quimica ou fisica
(17:50) Rodrigo:
os modelos subsistem ate descobrirem outro
(17:50) Rodrigo:
ou passam a servir apenas pra um pedaço dos fenomenos
(17:51) (: fê .:
putz
(17:51) (: fê .:
oh, céus!
(17:52) (: fê .:
lá se vao nossos paradigmas mais resistentes
(17:52) (: fê .:
em que nós vamos acreditar agora, irmao?
(17:52) (: fê .:
se nao mais nem na ciencia???
(17:52) (: fê .:
OH
(17:52) (: fê .:
que diabo é isso?
(17:52) Rodrigo:
na ciência mana ?
(17:52) Rodrigo:
a ciencia serve pra matéria
(17:52) Rodrigo:
essa ciencia capitalista
(17:52) (: fê .:
e a matéria é o mais baixo calao das coisas que existem.
(17:52) Rodrigo:
ciencia pragmática
(17:530 (: fê .:
por detrás de uma coisa material existem 700 milhoes de pensamentos
(17:54) (: fê .:
e suposiçoes e negaçoes ou confirmaçoes
(17:54) (: fê .:
até aquilo se concretizar como matéria.
(17:54) Rodrigo:
sim sim
(17:54) (: fê .:
entao, a matéria é a coisa mais rasa que tem
(17:54) (: fê .:
perto de tudo que existe ,sabe?

Rodrigo:
quer fritar ?
(17:55) Rodrigo:
olhe pra um objeto ae
(17:55) Rodrigo:
veja seus detalhes
(17:55) Rodrigo:
agora pense ?
(17:55) Rodrigo:
como vc tem consciencia desse objeto
(17:55) Rodrigo:
como vc vê ele ?
(17:55) Rodrigo:
quem vê ele ?
(17:55) Rodrigo:
sao os olhos ?
(17:55) Rodrigo:
é o cérebro ?
(17:55) Rodrigo:
vc é o cérebro que tem consciencia ?
(17:56) Rodrigo:
ou o cérebro é só um orgão
(17:56) Rodrigo:
e quem capta as sinapses do cérebro
(17:56) Rodrigo:
??
(: fê .:
é... ter certeza de alguma coisa
(17:58) (: fê .:
é tao inseguro quanto nao ter.
(17:58) Rodrigo:
aham
(17:59) Rodrigo:
mas qdo a gente pensa assim
(17:59) Rodrigo:
" sou eu e meu espírito.."
(17:59) Rodrigo:
é uma coisa
(17:59) Rodrigo:
mas se vc pensa
(17:59) Rodrigo:
" sou eu e meu corpo..."
(17:59) Rodrigo:
o espírito é a unidade consciente e pensante
(17:59) Rodrigo:
é diferente
(18:00) (: fê .:
de fato.
(18:00) (: fê .:
corpo nao infere à consciencia
(18:00) (: fê .:
e aí vai dizer que a única coisa certa é o espírito?
(18:00) (: fê .:
e o que é espírito?

[...]


(: fê .:
quem tá preocupado com "que porra sabe?" hoje, digo?
(18:32) (: fê .:
sabe de nada e quer é continuar sem saber de nada
(18:32) (: fê .:
pagando 300 conto em cada sertanejo
(18:33) (: fê .:
e enchendo a cara pra anestesiar a dor que é a sua própria companhia pra si.
(18:33) Rodrigo:
a ignorancia é uma benção né, mana?
(18:33) Rodrigo:
aristóteles ja disse
(18:33) Rodrigo:
o tal
(18:33) Rodrigo:
só sei q nada sei
(18:33) Rodrigo:
mas explicar as coisas
(18:33) Rodrigo:
é outra coisa, mais difícil do que saber delas
(18:33) Rodrigo:
então melhor fazer um leilão pelo coração
(18:33) Rodrigo:
repetidas e reiteradas vezes
(18:34) Rodrigo:
ir pro carná qq coisa
(18:34) Rodrigo:
outras tantas vezes
(18:34) Rodrigo:
e só
(18:35) (: fê .:
dormem, dormem...
(18:35) (: fê .:
há mais quem durma do que quem acorde
(18:35) (: fê .:
vai ser sempre assim?
(18:35) (: fê .:
foi sempre assim?
(18:35) (: fê .:
acordar dói.
(18:36) Rodrigo:
vai ser ainda mto tempo assim
(18:36) Rodrigo:
mas nem todos
(18:36) Rodrigo:
a lei da evolução pra mim é mto democrática
(18:36) Rodrigo:
acerta a todos
(18:36) Rodrigo:
qq hora dessa....
(18:37) (: fê .:
de alguma forma, as coisas acabam sendo justas e certas no fim. eu acho...

[...]

Rodrigo:
imagina mana
(18:39) Rodrigo:
a gente se encontrando
(18:39) Rodrigo:
enquanto espíritos
(18:40) Rodrigo:
e dizendo " nóóóó´q doido"
(18:40) Rodrigo:
é assim mesmo
(18:40) Rodrigo:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
(18:40) (: fê .:
hauihauiahuiahuiahuiahui
(18:40) (: fê .:
acho que os espíritos iam até ser parecidos
(18:40) (: fê .:
mas eu ia olhar assim:
(18:40) (: fê .:
putz...isso sou eu quando crescer, cara!!!
(18:41) Rodrigo:
e do jeito q sao nossos pensmentos
(18:41) Rodrigo:
vo te achar facim
(18:41) Rodrigo:
por sintonia
(18:41) Rodrigo:
afinidade
(18:41) Rodrigo:
quem chegar la primeiro espera o outro hein ?
(18:42) (: fê .:
combinado.
(18:42) (: fê .:
combinado agora nessa medida cronológica chamada 18:42 do dia 24/10/06.
(18:42) (: fê .:
hauihauiahuiahauiahauihaahuaihauia
(18:42) Rodrigo:
uhauhauhauhauahauhauhaha
(18:43) Rodrigo:
macooooooonhaaaaaaaa
(18:43) Rodrigo:
só pode
(18:43) Rodrigo:
a gente nem usa pra fritar...

[...]

isso é o que a gente faz com 54 minutos de conversa de computador!
e, sim! a gente tem mais o que fazer...
e das coisas que TEMOS que fazer pensar está incluso.

hasta, hermano! :*

Sunday, October 22, 2006





Quereria que amanhã não fosse tarde para dizer "eu te amo" hoje.
Suplicaria por isso a quem quer que fosse: amanhã não ser daqui a pouco tempo demais.

Tempo de ver fenecer o que se tem hoje.
É penoso admitir, eu sei. Mas amanhã já é bem tarde pra esses que amam demais.

Pra quem ama demais, tarde é breve. E tudo é tão grande e tão talvez inexprimível.
Tudo é tão grande e tão talvez...
Amanhã pode estar imortal o amor. Mas o "eu te amo" de hoje morreu... E ele morre bem vazio, bem desperdiçado, bem morno.

E talvez - pra que dizer "eu te amo"? Pra não ser tarde?
E pra ter raiva, mais tarde.
Mais tarde se tem raiva de se dizer um clichê pra quem também é.
Tudo bem. Eu não amaria clichês...

Mas eu sei que eu amaria clichês,
Seria completamente capaz de amá-los,
Porque meu apego se classifica tão ridículo quanto todos esses amores tidos.

Se amanhã não fosse excessivamente tarde pra dizer "eu te amo" hoje,
Aí eu pensaria menos em dizer. Ou menos pra dizer.
Pensaria bem menos em jargões, em palavras, em coisas tardias...
Mas amanhã é breve e bem rápido e bem tarde...



E eu aqui. Sem dizer de amor. Sem dizer de nada. Pensando em clichês parcos, em desperdícios medíocres. Desperdiçando cogitações em coisas mornas...
Ridículo. Ridículo tanto quanto o que foi dito de amor.


Fernanda Lobo

Wednesday, October 18, 2006


um dia degradê
começa com faces pálidas
avança com frontes cálidas.

um pouco de fumê,
embaçando fontes típicas
burlando mentes frígidas.

um pouco de blasé,
nenhum esforço válido,
em algum sentido ávido.

um pouco de azul,
passando pelo físico
chegando ao topo mágico.

se deita em um jornal
o degradê estúpido
dia findo em branco-pássaro.

Fernanda Lobo (para: Carol)

Tuesday, October 17, 2006


grávida

Arnaldo Antunes

eu tô grávida
grávida de um beija-flor
grávida de terra
de um liquidificador

e vou parir
um terremoto, uma bomba, uma cor
uma locomotiva a vapor
um corredor

eu tô grávida
esperando um avião
cada vez mais grávida
estou grávida de chão

e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
dar à luz

eu tô grávida
de uma nota musical
de um automóvel
de uma árvore de Natal

e vou parir
uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
um cartão postal

eu tô grávida
esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão

e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
vou dar a luz .

" A tradição é a personalidade dos imbecis. "

Einstein

Wednesday, October 11, 2006

Grito Interno


A quebra do silêncio que só você escuta.
A quebra do silêncio que só, você escuta.

CG

Friday, October 06, 2006

L'air du large- Claude Théberge

panis et circensis-

eu quis cantar
minha canção iluminada de sol

soltei os panos sobre os mastros no ar

soltei os tigres e leões nos quintais

mas as pessoas da sala de jantar
são ocupadas em nascer
.
.
.
.
.
.
e morrer.

Tuesday, October 03, 2006

Não sabendo que era inevitável, foi lá e mudou.

Não pude não re-pensar o que se faz, politicamente, no mundo por estes dias nessa atmosfera eleitoral. Triste por ter que ver uma lamentável crise ética- apoiada por milhões de brasileiros, intencionados em reeleger o presidente Lula- contra um partido explicitamente neoliberal, representado por Geraldo Alckmin- que retoma o governo de FHC, segundo ele mesmo- nessas eleições.

O neoliberalismo parte do princípio de que os indivíduos são estruturados para buscar seu próprio interesse e esses mesmos interesses acabam sendo coletivamente positivos. Gostaria de saber por que os seres humanos não podem ser concebidos como estruturados para colaborar, partilhar.
O supracitado modelo econômico quase retoma um "iluminismo primitivo" quando pressupõe uma natureza egoísta do ser humano e a tem como positiva, em termos de "competitividade natural". Dá-se um darwinismo tão absurdo, quanto incapaz de considerar as capacidades e evoluções intelectuais que levam o ser humano a SER HUMANO.

Pode parecer uma visão pouco pragmática da política, mas um bem-estar social ótimo - no sentido de alcance máximo - só pode emergir espontaneamente em uma sociedade com muita ambição, a maior quantidade de ambição que se possa ter em si, mas ambição para o coletivo. Claro que a cupidez competitivo individual e a ganância são inatos, existem desde sempre, mas eu acredito na capacidade humana de racionalizar, adquirir a percepção de que esse "instinto" só levará à ruína a coletividade e, por último, ele mesmo.

O que seria a livre concorrência neoliberal? O que é ser livre?
A concorrência seria livre no caso de todos os concorrentes terem a possibilidade de partir do mesmo ponto - do capital inicial ao de giro. Mas os seres humanos não nascem iguais. E nem livres.

No Direito é o fato que faz nascer a norma, porque as ações levam ao padrão. Nesse caso, poderíamos dizer que o neoliberalismo é uma ciência um tanto fúnebre, haja vista os números de horror e miséria que esse modelo vem trazendo desde que ganhou força, sendo 80% da riqueza do planeta distribuído por 29 países e os lamentáveis 20% aos outros, aproximadamente, 200 países do globo. Este fato levará a que padrão?

É verdade que ideais como direitos humanos, consciência ambiental e justiça são inegáveis entraves ao auto-interesse e à ordem natural. O que me entristece no neoliberalismo é exatamente serem os nossos bons ideais os empecilhos que tornam a realidade pior do que a teoria.

Por que eu deveria ser considerada errada ao “misturar" valores políticos e sociais à economia? Por que eu teria de agir da mesma forma padronizada por essa idiossincrasia: trabalhar para possuir e possuir para consumir e trabalhar um pouco mais para consumir um pouco mais e assim garantir o equilíbrio desse modelo?

Os países ricos - para ser bem simplista - que condenam os países que tomam medidas protecionistas em suas indústrias nascentes o fazem porque isto "prejudica a economia global". E me diga você porque eles teriam que vender seus produtos a custo mínimo? O que custa isso a um país? E por que motivo os políticos neoliberais afirmam que os sindicatos distorcem mercados? Não são estes também dignos de direitos?

Também estou cansada de pessoas taxarem idéias não-capitalistas de juvenis ou ufanistas, contra a grandíssima experiência e perícia neoliberal. A diferença básica está só em quem aceita o que acha inevitável e quem não aceita. Eu só acredito que a economia não deve estar separada de um pensamento filosófico cognitivo humano e que o enriquecimento válido não é apenas o material.

Pode ser que eu sucumba também uma hora dessas à necessidade de me vestir e de comer, e nem me lembre de ser idealista tendo que dar educação e comida a um filho: outro ser humano. E tudo vai continuar girando como está e milhões de pessoas continuarão morrendo - de fome, falta de calorias (!!!),mas só eu me assombro com isso . Mas aí há de ser só mais um pouco de boas intenções evaporadas pelo grande sol neoliberal. Se ele evapora até todos os direitos humanos e ambientais que se conseguiram com tantas lutas na História, não há de evaporar minhas pequenas (grandes) crenças?
O que é que se pode evitar?

Fernanda Lobo
Claude Théberge; Le Baiser.




Incenso Fosse Música

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além





-Leminski

Saturday, September 23, 2006


Entrega

O mais engraçado em pessoas completamente insanas são seus surtos de lucidez, quando “acham que estão ficando loucas”, ela se ria.
Ela não via motivos racionais naquele prazerzinho recorrente que tinha em coisas que a mantinham longe, de certa forma. Longe da maior parte, um tipo de exclusão, feita por ela mesma, um ostracismo mais ameno. Ela cultivava seus momentozinhos e o seu jeito de caminhar só, que pra ela a faziam parecer protagonista de uma biografia. Uma em que se nasce todos os dias. Ela nascia, nascia até o dia de morrer.
Não sabia demais a respeito daquele dia de morrer, porque já havia nascido vários dias e já havia se pendurado em várias certezas absolutas sobre o dia de morrer. Agora, ela se abstinha, de forma covarde, de ter uma certeza absoluta. Sabia-se covarde e cada vez que confirmava essa “virtude” magnífica, parecia-lhe descer dos céus um espelho que se postava à sua frente e mostrava a ela uma face que era sua, mas era muito mais pálida e um rosto medroso, que não costumava ser seu. Isto acontecia todas as vezes em que se atrevia a não ter certeza absoluta.
Se atrever, ela se atrevia. Ah, isso é! Andava se atrevendo até mesmo à covardia de uns tempos pra esses. Se atrevendo a não fazer, se atrevendo a medir, se atrevendo a esperar. Isto era um atrevimento, considerando-se as virtudes e vícios que se sobrepunham como tijolos na personalidade que passara todos esses não muitos anos cultivando.
Andava entendendo algumas coisas. Andava entendendo que as pessoas faziam coisas absurdamente grandes e difíceis, apesar de quase sempre vazias. E, para isso, era preciso fazer coisas pequenas sempre e com perseguição, e as coisas pequenas não eram menos difíceis.
Ela se sentia uma estúpida tantas vezes por só ter nascido agora! Poderia ter nascido tão antes e feito tantas coisas mais... Mas se esquecia de que ela levaria consigo essa lamúria até o dia de morte. Porque sempre se recusaria a não nascer todo santo dia. Pra fazer do santo dia herege. Ou santo.
Ela queria mais. Mas às vezes achava que queria só por querer. Precisar, não precisava. Isso até alcançar e não saber mais como vivia com menos, de tão repleta que se sentia. Naqueles momentos em que ela mesma se tornava uma música... Sentia-se dissipar pelo ar e compor-se novamente em contorno de notas musicais. Um chorinho, uma percussão cubana, solos do Bolero de Ravel, sustos de tango...
E ela gostava de conversar. Conversar como um rio. E foi reparando que as pessoas andam escassas para conversas como rios. Não porque não tenham eloqüência, mas, exatamente, pelos seus excessivos cursos de retórica; pela feiúra que ela achava os que estavam sempre tentando desesperadamente provar algo a alguém, a si, a um mundo tão caduco!
Deus meu! As pessoas se desdobram em um milhão de outras para provar algo a alguém invisível, a um oráculo sórdido que grita: “compre e seja feliz!”, e ainda descontam sua necessidade de provar nos visíveis ao redor. Elas só querem encher os olhos e os ouvidos alheios com o que andaram fazendo de quase faraônico para se sentirem aceitas. Ela achava feio, mas tinha que sorrir. Um sorriso que doía por dentro, a torturava nos órgãos fundamentais. Sorria porque era obrigada a fazê-lo. Não tinha outra saída. Não podia chorar e dizer àquele ser abarrotado de vantagens o quanto ele era feio. Feio e pegajoso como um verme. Um verme débil, parasitando egoísta e nesciamente.
Além de apreciar conversas, num desses nascimentos, ela descobrira o quanto gostava de não conversar. Não de tentar conversar e ver um assunto a ser discutido com calor se esvair até puros testes do canal. Não. Ela gostava de não ter que conversar. De se sentir confortável não conversando. Adorava aquele medinho de falar em momentos tão nobres e irretocáveis e desencadear, assim, algo que pudesse espantar aquela atmosfera, como quem espanta peixes na pescaria só pela vozearia e tira do pescador o alimento de todo um dia.
Há momentos que não devem ser trocados por verbetes pronunciados. Nem por descrições tardias. Tentar descrever certos momentos, ela já sabia, seria como assaltá-los de forma excessivamente bárbara, torturá-los, chutá-los e deixá-los estrebuchados em um chão qualquer, como quem tira a essência e abandona a matéria abominável. Pronto. Aquilo era a descrição de instantes indescritíveis.
Poder escrever era, para ela, um tipo de abuso desejável. Como se ela fosse se despindo. Peça por peça. Se desnudando palavra por palavra. E cada palavra a mais no papel, era um esconderijo a menos nela mesma. E ela entregava um a um de seus esconderijos em letras, derrubava muro por muro em frases, movia suas altas e íngremes montanhas em pequenos poemas.
E ela era, inúmeras vezes, tomada de súbito amor. Amor daqueles que se sabe que é amor, não pode ser mais nada. E um amor destinado a quem acabava de chegar sempre, a quem nunca vira antes, por meninas tão jovens, negrinhas, lindas. Por mulheres tão velhas e tão sem brilho de tanto altruísmo. Era tomada de amor por meninos tão pequenos, tão sapecas, verdadeiros; por homens tão donos de si, tão auto-suficientes, tão carentes... Era, de repente, um amor que surgia em qualquer lugar, dos mais inóspitos aos mais corriqueiros, e poderia ser destinado a qualquer pessoa, só pelo que ela tinha certeza do que via em seus olhos, como se a íris redonda fosse a maquete de um mundo redondo.
Nesse amor, ela gostaria de se deter mais, porque isso realmente a extasiava e a deixava sempre naquela esperança de que ocorresse novamente. Porque ela se sentia prestes a chorar sem lágrimas, gritar sem voz, pular até uma nuvem, sabendo não ter pernas suficientes para tal. E aí, ela impetuosamente queria declarar esse amor repentino. Queria encontrar uma maneira, sei lá! Não sei. E perguntava no máximo o nome e tentava dar, de presente, o seu melhor sorriso. E muitas vezes a criatura subitamente a ela amável tinha medo, como aquela menina negrinha, que lhe entregou logo o chiclete que vendera; pronunciou o nome rapidamente; sorriu grande, mas nervoso; virou-se e foi. Com uma roupinha meio rosa, bem desbotada e uma parafernália para engraxar nos ombros, como um pequeno Cristo e sua cruz. E ela ficou ali passada, abandonada, amando até o fim aquela negrinha. Era um amor desvairado, mas tão consolável. Facilmente consolável por gestos pequeníssimos.
Havia quem percebesse o seu amor imprevisto e não tivesse medo dele. Havia até quem sentisse o mesmo, quase ao mesmo tempo e, então ela via que era a hora de se abandonar, de pular de um lugar alto só pra sentir uma brisa nova tocar seu semblante, em um deleite único por haver quem compartilhasse com ela aquela mania lunática de sentir. E a impressão que sobrava a ela era que ali, naquela força imensa reduzida a uma medida cronológica e espacial, ali se formava um deus, grande, suntuoso, acima do que eram todos, um Grande Poeta talvez. E esse deus crescia por si, sem necessidade de ser alimentado todos os dias, mas que a alimentaria se ela voltasse até ali. E alimentaria a quem mais ousasse amar com ela.
Às vezes, ela se sentia muito tentada a abraçar todas as dores do mundo. E era aí que não sabia até onde essa tentação se tornava martírio. E se confundia de forma absoluta, porque chegava a interrogar se sua existência e a vida que levava não ofendiam a quem nunca teria possibilidade levar aquela vida. Não era lá grande coisa de vida também, mas havia vidas tão absurdamente subumanas que a agrediam. Ou era ela quem as agredia. Não sabia. Dava-se à confusão dolorosa.
O certo é que havia quem ofendesse a ela e aos arrastadamente sobreviventes - e aí ela se sentia do lado destes-, mas aqueles jamais se desocupam de contar cobres pra pensar em quem ofendem. E ela arquivava consigo um asco, uma repugnância, um aborrecimento pelas coisas que pareciam sempre girar na órbita da posse.
Descobria-se encabulada, muitas vezes, com a necessidade que as pessoas têm por lugares-comuns, a avidez delas por explicações plausíveis para o clichê que são. Até quando não conseguiam enquadrar carinho, conversas, palavras, beijos, sexo, abraço em uma palavra dessas obviedades não se davam por satisfeitas. Não sossegavam em deixar as coisas serem só o que eram e ficavam loucas atrás de um rótulo, uma embalagem. Quem ensinou isso a elas, afinal?Poderia fazer o colossal favor de ensinar algo proveitoso, que desfizesse essa palhaçada? Vendar os olhos e provar uma fruta cujo nome se desconhece é tão mais colorido, mais leve, mais intenso e honesto. Mas ela sabia que era uma tentação, uma corrupção corrosiva a que as pessoas não conseguiam resistir e colocavam rótulos e mais rótulos, até que se tornassem elas mesmas uvas passas em conserva. Tão conservadas que chegavam ao último dia da data de validade, petrificadas: o dia de morrer.


Fernanda Lobo (in-completo)

Thursday, September 21, 2006


"... mas quem dará o balanço dos projetos humanos que se frustraram,
dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo?
Quem dará o balanço do medo que nós tivemos? ”


Fernando Gabeira

Sunday, September 17, 2006


OS ARAUTOS NEGROS

Vallejo



Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles
a ressaca de quanto foi sofrido
se empoçara na alma... Eu nem sei!

São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.

São as caídas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.

E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como
quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;
volve os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

Monday, September 11, 2006


" como estão juntos os países

nas lições escolares

e duas comarcas se confundem

e há um rio perto de um rio

e crescem juntos dois vulcões..."


Neruda

Thursday, September 07, 2006


" Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento Lua nova a clarear
invento o amor
E sei a dor de me lançar

Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais e sei a vez de me lançar."

-Milton Nascimento

Monday, September 04, 2006


Eu vou me completando.
Me completo até quando a incompletude me for bastante.
Porque ser inteiro não quer dizer ser completo.
Ser inteiro sei o que é, e ser completo desconheço.

Vivendo cada coisa sem futuro, eu me completo.
Eu colho as rosas e ajunto os cacos depois, já que gosto de ser assim: de rosas e cacos.
Posso escolher juntar só rosas, ou só cacos. Mas eu quero os dois.

Vivendo cada assunto desimportante, completo a parte fundamental.
Vivendo cada onda que eu não sei de onde vem, ou aonde vai dar,
eu só quero me tornar o mar- conter todas as ondas.

E, conhecendo coisas que não vão dar em nada, eu conheço pequenas porções de completude.

Porque só é grande quem nunca é completo- quem diria estar a grandeza no que falta?- e maior é aquele a quem basta seu existir. Incompleto.

Fernanda Lobo

Friday, August 18, 2006


Por vezes, gosto de estar só.

Só comigo.

Só. Sem mim.

Só, sem o que pensam que sou.

Só, sem as flores que vêem em mim.

Só, sem os espinhos que ostento. Os tenho.

Só, sem os olhos, que me desdobram em tantos serem sobre mim.

Só, sem a partida e a parada.

Só com a chegada.

A chegada de um ente querido que, há tempos, não encontro:

eu mesma. Eu só.

Fernanda Lobo

Tuesday, August 15, 2006


Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

PARADA CARDÍACA

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Paulo Leminski

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,

eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski

Thursday, August 10, 2006


" Posso experimentar. Posso. Vou experimentar. Ir. Sem tomar direção, sem saber do caminho. Pé por pé, pé por si. Deixarei que o caminho me escolha. Vamos."

Guimarães Rosa

Tuesday, July 18, 2006


Balada De Agosto

Zeca Baleiro

Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras
Que não digo

Mesmo na luz não há quem possa
Se esconder do escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido

Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha
Nos teus olhos

Wednesday, July 12, 2006


Nem sou tão de me isentar da culpa que tenho, mas nesse ponto não vejo falta em mim, já que não se pode imputar pena a uma criança que, de repente, é pegada desprevenida pela imagem da guloseima. Não pode senão a venerar e a querer.
Fui também pegada desprevenida por isso, que são as coisas que existem, e não posso me ver culpada por querer tudo.
Como o homem que perde a linha de passagem entre admirar as belas pernas e querê-las, eu passei, por impulso- é verdade- , a ponte que passa de admirar tudo ao querer.
Não me detenho apenas a me entregar a essa demanda insana de tudo, mas há momentos em que não parece haver o que seja melhor do que nada. Isso porque, para mim, não basta o que é dito melhor do que nada.
Todavia, não pretendo que meu tudo seja sem limites. Limites, os odeio. Mas eles imperam. E me dão um consolo árduo de que quero um tudo com limites.
Existe o que eu não queira. E se não quero é pelo exclusivo motivo de não ser parte do meu tudo. Existe o que não desperte em mim interesse e dói ver limites assim em mim mesma.
Mas o tudo sem limites talvez fosse pior, quiçá impossível.
Também, a que vastidão de nada me levaria o querer tudo só para mim. O querer tudo sem colocá-lo à disposição de outrem. Sem fazer do transbordo do tudo, fonte que dê de beber a quem bem quero..
Não vejo onde me esconder desse querer: a criança já viu o doce, o homem já viu as pernas e eu me torno a cada dia o tudo que quero..e vão é sacudir a cabeça aliado àqueles tapinhas que pretendem exorcizar um hóspede indesejado de querer tudo: está aqui e é lamentável admitir, mas eu não tenho culpa.

Fernanda Lobo

Tuesday, July 11, 2006

CURTA!!!

http://media.putfile.com/balance/320

Christoph e Wolfgang Lauenstein, Alemanha.

ps.: O Castigo do Egoísta

Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem. O castigo do egoísta está em só disso se aperceber sob a férula (castigo), tentando em vão aprender a caridade, por interesse.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

O Homem - Um Ser Egoísta

O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Nas suas acções baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: 'Tudo para mim e nada para os outros' é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.

Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'

Saturday, July 01, 2006


Eu gosto mesmo é de poesia!
Nada parecido com letrinhas miúdas, simétrica e proporcionalmente colocadas em um papel.

Gosto de poesia. Mas a outra.
A poesia de que gosto é o que as poesias me provocam: é o que se parece com lágrimas sublimadas e me enche num soar de sílabas, num unir de palavras inventadas umas para as outras.

A poesia de meu gosto é aquilo que nao se sabe ser frio ou quente e que vai nao se sabe se na espinha ou no estomago como uma estrela cadente na virada repentina da música, ou quando o cantor pronuncia a palavra diferente. Uma palavrinha.

Poesia boa é, na viagem, encostar a cabeça na janela do carro e respirar, por ali mesmo, os novos ares que estao por vir, como se só o passar veloz das árvores verdes e o permanecer pacífico do céu azul já fossem suficientes para trazer tais ares.

Poesia mesmo é ter amigo. Amigos sao tao rudes(de várias formas) e, por vezes, tao desinteressantes. Mas aquela afobaçao que nao sabem esconder diante de qualquer esboço de lágrimas do amigo é poética, porque sentem que isso lhes dói mais do que se tivessem culpa.

E eu gosto dessa poesia que é o vento batendo no rosto, enquanto caminho só. E canto.

Gosto é dessa poesia amarga que me fala de todos os metros quadrados nos quais eu gostaria de estar, enquanto sei que estarei em poucos deles- mesmo querendo a rima de todos os lugares que existem.

Abraço de mae tem outra poesia: voce está escondido, sente que nada vai mudar, e se sente confortável assim mesmo.

Sorriso de irmao é poesia escrita em dialeto. Só eles sabem ler.

Poesia pode até ser tardia, como conselho de pai. A forte poesia. Mas que só se sabe ler depois de ter lido várias- e consultando o dicionário.

A outra poesia é o segundo antes do beijo, é a cabeça rodando antes de dizer o que vai dizer, é ver futebol torcendo de verdade, é pisar o chao depois dos piores sapatos, é uma surpresa azul, é um filme que eu nunca conseguiria bolar e- por que nao?- uma boa prosa em preto e branco que eu traduzo para poesia verde e vermelha, para as cores que eu bem entender...

Fernanda Lobo

Wednesday, June 21, 2006


Só que, às vezes, queria saber como seria não me ser.

Ser outro. Ser você. A impressão que tenho é a de que minha existência se vê limitada. A mim.

E isso me provoca uma inquietude incurável. Isso me põe na alma a extensão um moinho, que gira todo o tempo pela mesma tarefa, pelo mesmo fim, e tem sua existência limitada a ser o que é.

Talvez, exista, fora de mim, algo diferente desse ciclo, dessa forma, dessa linha, do limite. Talvez, haja fora, um trajeto melhor, pior, diferente... talvez.

Talvez, seja tudo igual.

Talvez, quando eu me vejo reagindo, eu seja só um animal, uma presa ameaçada por um caçador, tentando sua defesa, por vezes, vã.

Talvez, quando eu chore, seja só uma nuvem que se desfez quando não agüentou a densidade do que o sol, o próprio sol da vida, fez com que chegasse a ela.

Talvez, minha vida não passe do terremoto, dos movimentos de placas tectônicas, que fazem inexistir segurança, o estável, a certeza...

Talvez, eu não seja mais do que o mundo, devo ser só isso tudo... Talvez seja tudo igual. Dentro e fora.

Mas eu ainda acho que talvez, haja algo, fora de me ser, que eu deveria conhecer.

Fernanda Lobo

..."Se o sol se cansa
e a noite lenta quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente, inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan e o do sol".
Maiakovski

Monday, June 19, 2006


Katherine Mansfield

Meu espírito está quase morto. Minha fonte de vida, tão faminta que secou. Quase todas as minhas melhoras de saúde são pura farsa - teatro. Que significam? Posso caminhar? Apenas me arrastar. Posso fazer qualquer coisa com as mãos e o corpo? Nada. Sou uma inválida sem esperança alguma. O que é a minha vida? A existência de um parasita. Cinco anos já se passaram, e estou num cativeiro mais estreito do que nunca.
Portanto, se o Grande Lama do Tibet prometeu ajudar - como pode hesitar? Arrisque! Arrisque tudo! Não dê importância à opinião dos outros, àquelas vozes. Faça o mais difícil nesta terra para você. Aja por si mesma. Enfrente a verdade.
Certo, Tchekov não a enfrentou. Sim, mas Tchekov morreu. E sejamos honestos, o que sabemos de Tchecov a partir de suas cartas? Isso foi tudo? É claro que não. Não é de se supor que ele tenha tido uma vida inteira de desejos sobre a qual dificilmente se encontra uma palavra? Leiam-se as últimas cartas. Ele abriu mão da esperança. Eliminando-se os elementos sentimentais dessas cartas finais, elas são terríveis. Não há mais Tchecov. A doença o tragou.
Mas talvez, para as pessoas que não estão doentes, tudo isso seja absurdo. Nunca viajaram por essa estrada. Como podem saber onde é que estou? Tanto mais razão para avançar ousadamente, sozinha. A vida não é simples. Apesar de tudo o que dizemos sobre o mistério da Vida, quando chegamos perto, queremos tratá-lo como se fosse um conto infantil....
Mas, Katherine, o que você quer dizer com saúde? E por que você a deseja?
Resposta: saúde para mim significa poder viver uma vida plena, adulta, viva, de fôlego, em contato íntimo com o que amo - a terra e suas maravilhas - o mar - o sol. Tudo a que nos referimos quando falamos do mundo externo. Quero entrar nele, fazer parte dele, viver nele, aprender com ele, perder tudo o que em mim é superficial e adquirido e tornar-me um ser humano direto e consciente. Quero, compreendendo a mim mesma, compreender os outros. Quero ser tudo o que sou capaz de me tornar, para que possa ser (e aqui parei e esperei, mas não adianta - só há uma expressão possível) uma filha do sol. Sobre ajudar os outros, carregar uma luz e assim por diante, parece falso dizer qualquer palavra. Fiquemos com esta Uma filha do sol.
Depois, quero trabalhar. Em quê? Quero viver de modo a trabalhar com as mãos e o cérebro. Quero um jardim, uma pequena casa, grama, animais, livros, quadros música. E a partir disso tudo, para exprimi-lo, quero escrever.
Mas uma vida quente, ávida, viva ¿ enraizada na vida - para aprender, desejar, saber, sentir, pensar, agir. É o que desejo. Nada menos. É o que tenho de tentar."

Algumas Cartas e Trechos do Diário, ed. Noa Noa, 1988, tradução Rosaura Eichenberg

Saturday, June 17, 2006


" é mais fácil cultuar os mortos que os vivos

mais fácil viver de sombras que de sóis

é mais fácil mimeografar o passado

que imprimir o futuro. "

Sunday, June 04, 2006

Há quem encontre o fio da meada...


"Como todo ser vivo, procurei atingir meu ser e, para isso, inspirei-me nas experiências nas quais tinha a ilusão de haver chegado a isso.

Conhecer era, como em minhas contemplações infantis, oferecer minha consciência ao mundo, arrancá-la do nada do passado, das trevas da ausência; parecia-me realizar a impossível união do em si e do para si, quando me perdia no objeto que olhava, nos momentos de êxtases físicos ou afetivos, no encantamento da lembrança, no pressentimento entusiasta do futuro.

E desejava também materializar-me em livros que seriam como os que amara, coisas existindo para o outro, só que marcadas por uma presença: a minha.

Toda a busca do ser está fadada ao fracasso; esse mesmo fracasso, porém, pode ser assumido. Renunciando ao sonho vão de nos tornarmos deus, podemos satisfazer-nos simplesmente em existir. Saber não é possuir e, no entanto, não me canso de aprender. Desejava participar da eternidade de uma obra na qual me encarnaria, mas principalmente queria ser ouvida por meus contemporâneos.»

Simone de Beauvoir

Tuesday, May 30, 2006


Sentir um grito é mais do que ouvir.
É estremecer dentro, mesmo se não se sabe ser o grito de liberdade ou pavor.

Sentir as palavras é mais do que ler.
É saber um acréscimo de estranhamento em si, estranhamento por ter sido abusado dentro de si um lugar nunca tocado. Abusado por palavras. É se deixar exorcizar pelo inteligível.

Sentir um sabor é mais do que gostar.
É se entregar a um delírio tão momentâneo quanto consumidor, é querer mais o prazer do que o prêmio.

Sentir um perfume é mais, é bem mais do que cheirar.
É ter certeza de que o momento existe, é se saber em um sonho quase realizado. Realizado até que finde. Sem lembrar que findará.

Há sons que ultrapassam a sonoridade, há sons que trazem gostos; que têm mãos para enfiá-las em seus seios. E arrancar em enxurradas o que houver de mais compacto.

Há cheiros que se eternizam.

Há palavras que têm vida, que confrontam, que entendem.

E há vidas que, sentidas, ultrapassam respirar, ultrapassam uma biologia funcional. São as que se deixam invadir pelo que há que se sentir por detrás do que existir.

Fernanda Lobo

Saturday, May 27, 2006



fernanda diz:
os dois tão conversando longe, mas parece que tão perto ,sabe?
fernanda diz:
rindo...
fernanda diz:
uma paz....
luisa diz:
vou ver
fernanda diz:
adoro janelas grandes
luisa diz:
tb!
luisa diz:
adoro a janela do meu quarto novo pq ela é grande
luisa diz:
a do outro era pequena
luisa diz:
;/
fernanda diz:
é... a minha é grande
fernanda diz:
faz minha vida muito melhor a minha janela
fernanda diz:
minha janela e meus travesseiros
luisa diz:
essa janela é muito muito grande
luisa diz:
bonita mesmo a foto
fernanda diz:
num é?
fernanda diz:
delicia
fernanda diz:
eu fiquei um tempão olhando essa foto
fernanda diz:
vou por no blog
fernanda diz:
q q eu escrevo?
luisa diz:
coisas simples, mas fundamentais
luisa diz:
janelas e travesseiros
fernanda diz:
a gente é muito amelie tb com essas ondas
luisa diz:
hm.. escreve o que vc me disse
luisa diz:
que eles tão longe mas parece que estão perto...

Thursday, May 25, 2006


"Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim".

Cazuza

Wednesday, May 17, 2006


... A palavra
Pablo Neruda


Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.


*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

Thursday, May 11, 2006

Pose pra foto, meninos de rua!


"Eles são deuses
Eles não são
Eles são deuses
Claro que não
Eles são deuses
E ninguém é
Eles são deuses
Porque são deuses
Porque só deuses
Vivem sem fé."

Saturday, April 29, 2006

Sartre




A autenticidade exige que se aceite sofrer,
por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo.
Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer.
Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos.
É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico.
Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade.