Wednesday, August 29, 2007

Se eu pudesse




Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer,
lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro

Friday, August 24, 2007


P.M.S.L.
Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.
Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio dos corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é contínuo negar-se no seu fogo, seu arder é deslizar.
Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela finge?
Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próprio findar.
Eis o que somos:
o nosso tédio de ser.
Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!
O girassol
vê com assombro
que só a sua precariedade
floresce. Mas
esse assombro é que é ele, em verdade.
Saber-se
fonte única de si
alucina.
Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.
Ferreira Gullar

Friday, August 17, 2007


E agora, que medo é esse?
Medo de me deixar gastar pelos intemperismos irrefreáveis desses tempos,
Medo de escorrer de mim e ficar tão rasa
até me confundir com ausência;
com matéria vaga, errante, tão indefinida;
vencida pelo mundo, entregue à cruz do "em volta".

Medo de, depois de ausência, ser inexistência e só.
(e que patético não ser nem o que não é.)
E, logo agora,
vem de onde essa vontade de me caçar
como se caça borboletas?
(que bom seria me assistir com rede na mão e pés no chão correndo pelo campo...)
Descortino a grande vida de minhas moléculas
e as agarro com obstinação para que não evaporem.
Que lástima ficar rasa logo agora!
Valha-me Deus
que essa intermitência apavora.
Que medo de ser fumaça que abandona o fogo. Tão
leviana e néscia!
Me deixei lixar por quem pediu,
achei que me livrar da aspereza fosse conforto.
Depois, ainda quiseram me polir
e eu sorri para aquele verniz artificial.
Por conseguinte, me lapidaram
e logo agora percebo que - lamento, lamento! -
percebo que tenho vergonha deste resultado
tão lapidado no anti-espelho.
E agora, Maria?
E agora, todos os Josés?
Respondam-me todos os meus ourives:
Quem de vocês pode tornar bruta a pepita já derretida
escorrendo de si?
ó vento, ó chuva, sol, montanhas...
ó humanos, seus gastadores de retina e de almas,
Deixem-me!
Que eu quero é ser um poço de mim...
Fernanda Lobo

Saturday, August 11, 2007


O utopista
Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

Murilo Mendes

Friday, August 10, 2007




Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.

Murilo Mendes

Sunday, August 05, 2007


E cuspido, espremido,
petisco de visgo,
forçando a passagem
pela barreira,
sangrando,rasgando,
subindo a ladeira,
orgasmo invertido,
gritei quando vi:
já estava respirando.

Tom Zé.

ANGÚSTIA E REAÇÃO

Há noites intransponíveis,
Há dias em que pára nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à idéia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.

Murilo Mendes

Faxina


Joguei fora o que era de lixo.
Dei a César o que era de César.

Batom com batom
Música com música
Perfume com perfume
Vestido com vestido
Fotografia com as lembranças
e cartas com o amor.

Poemas com poemas.

Mal se passou um dia inteiro
e os batons
as músicas
os perfumes
os vestidos e as fotos,
tudo
já estava, de novo,
cheio de poemas.

Fernanda Lobo