Saturday, December 30, 2006


no meio da conversa eufórica, espaçosa, gesticulada,
ele esbarra no copo de cristal da velha: copo caro, copo de longe.
o semblante da velha ao constatar o óbito da coisa é o de quem perdeu um filho.
o filho da velha - sabe a mãe que tem - parece ter perdido a progenitora.
a conversa espirituosa já inexiste.
E ninguém perdeu ninguém.


Fernanda Lobo

Thursday, December 28, 2006


" na vida,
quem perde o telhado

em troca,
recebe as estrelas... "

Sunday, December 24, 2006



"Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."


A Insustentável leveza do ser, Milan Kundera.

Wednesday, December 06, 2006

meta - língua


Eu devia ser mais poesia.
Eu queria chorar poesia. Eu queria sorrir poesia.
Eu queria ser mais rima. Mais ritmo, se assim coubesse.
Sabe que eu deveria ouvir mais poesia?
Cheirar à poesia, viver a poesia.
Sabe que eu devia recriar mais coisas belas?
Pisar menos o chão penoso.
Ouvir menos meus passos secos, sem poesia.
Piso demais, voando estou pouquíssimo.

Eu devia saber mais poemas, mais odes, sonetos.

Decorar todos.
Decorar decorando com adornos, ornamentos. De corações.
Abaixo verbos secos. Menos números efêmeros.
Abaixo fontes estéreis.

Eu devia era falar poesia, era sonhar esses poemas.
Essas figueiras, esse pomares,
essas novas brancas nuvens,
sempre novas.
Esse frio, esse fogo.
Essa lua, a poesia que me está oculta,
encoberta por algum descuido do Existir.
Por que se esconde? Por que não me abraça como faz o Sol?
Por que não se coloca a correr como rio perene essa poesia?
Por que me esquece tão rápido?
Por que não mereço?

Como? Se antes de existir em qualquer - em qualquer um - antes disso, sou poeta.

Eu devia encontrar essa poesia, como ao tesouro que se encontra no fim da vida e que não se pode mais medir, ou consumir.
Eu devia esquecer coisas e lembrar poesias.
Como choro por procurar. Viver procurando.
Choro mesmo. Choro pranto. Choro e não há consolo, não há alívio, ou auxílio.

Suspensa em águas caladas. Torrentes de secas.
Sede de versos, versos mais belos que os dos homens.
Estranho a vida sem encanto. Estranho a seca.
Estranho o que não me alaga,

como se fosse uma santa, rica, inefável poesia.

Fernanda Lobo

Tuesday, December 05, 2006



Estou fazendo as malas. Já está na hora de ir para um lugar distante, onde não imagino o que encontraria.
É hora de confessar que o amor pelo seguro é o que faz tropeçar e viver tropeçando, como se, com o passar do tempo, meus passos não fossem mais tão meus.

Estou fazendo as malas e escolhendo um lugar mais alto. Estou olhando meu céu, que não mais olharei, com um misto de ódio - que justifica as malas - e de um saudosismo inconcebível que eu não esperava como hóspede, porque é como se meu céu fosse eu mesma. E ele me ameaça me acompanhar aonde eu for, como eu mesma.

Às malas! Não quero levar tantas coisas supérfluas. De banal, eu me basto. Quero carregar o suficiente. O resto que se converta no delírio e no pecado dos luxos raros.
Estou indo aprender a ser só. Estou indo saber que talvez a afirmação da existência não dependa de que nos avisem que existe.


[...]


Fernanda Lobo

Monday, December 04, 2006

E dá-lhe Chico!

Ela faz cinema /Chico buarque

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas nao existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.