Wednesday, November 29, 2006


" O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor;
embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento;
sem medida que o conheça,
o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim;
é um pomo exótico que não pode ser repartido,
podendo entretanto prover igualmente a todo mundo;
onipresente, o tempo está em tudo;
existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia,
existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados,
e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia;
existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família,
nas paredes da nossa casa, na água que bebemos,
na terra que fecunda, na semente que germina,
nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos,
na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça,
no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia;
rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas,
e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;
rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições,
não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente,
estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria
para receber dele os favores e não a sua ira;
o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo,
e quem souber com acerto a quantidade de vagar,
ou a de espera, que se deve pôr nas coisas,
não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."


Raduan Nassar.

Sunday, November 26, 2006


"
[...]

Me ocorreu também que era num exercício de paciência que ele se recolhia, consultando no escuro texto dos mais velhos: a página nobre e ancestral.

Mas na corrente do meu transe já não contava sua dor misturada ao respeito pela lenda dos antigos.
Eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai. Que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos convênios, mas que existia uma outra Medicina: a minha; e que, fora de mim, eu não reconhecia qualquer ciência e que era tudo uma questão de perspectiva. E o que valia era o meu - e só o meu - ponto de vista.

Que era um requinte de saciados testar as virtudes da paciência com a fome de terceiros..."


Raduan Nassar - LavourArcaica

Wednesday, November 22, 2006


Eu, véspera de mim.
Sentada sem bagagem na estação,
saudosa do dia-eu.
Espero a chegada de mim,
não certa do dia que vi.
Certeza inadiável de que sou véspera. Só.
Véspera do que versa, voa...
Vicia, vibra
Vacila, vassala.
Véspera de quem chega de mala,
se juntar à minha cuia e cuíca.
Boa bagagem. Vide véspera.
Dia-Eu, só amanhã...

Fernanda Lobo

Sunday, November 19, 2006



XLVI

"Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tâo sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcansáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas."

Friday, November 17, 2006


" É tal a nossa imprevidência ou ignorância, que tomamos por um grave mal o que freqüentes vezes é origem e ocasião dos maiores bens. "

Sunday, November 12, 2006



" O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?
perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó,
soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento. "


Neruda


" Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra(...)
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti. "

John Donne


Saturday, November 11, 2006


"...
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem. "


(Maiakovsky, "V Internacional", trad. de Augusto de Campos)

Friday, November 10, 2006


Invento coragem.
Invento e desobstruo o canal fundamental de existir. Desobstruo e depois alargo o canal: aumento o fluxo de existência.
Desobstruo o caminho ao não mais tentar entender o que extrapola entendimento.
Alargo o canal. Criando a coragem que não existe; desprezando entraves que seriam, mas não são.
E vem vida em um fluxo enorme, vazão de vida que não para de crescer. Em enxurradas, aguaceiro. E vem tudo o que “é” de uma só vez em uma onda gigantesca e azul. Azulzinha. Azulzíssima.

E, por um momento, eu penso em me arrepender de ter inventado coragem. Aumentei o fluxo e vou me afogar. Estou me afogando. Eu não queria terminar assim. Asfixiado. Asfixiado por tudo que “é” e me liberta demais. Assim é a derrocada dos artífices de coragem?

E, me afogando, sinto meu ar mais do que nunca. Sinto, porque nunca havia dado tanta importância ao ar. Havia dado apego a coisas bem mais banais do que o ar: coisas burguesas, caras coisas baratas e ordinárias... E trocaria todas elas, imediatamente, só por ar.
E sinto meus pulmões mais do que nunca. E me reconheço inédito no meio da asfixia: pobre de ganâncias e de tantas ambições. Eu nunca me vi assim. Se eu não estivesse morrendo afogado riria da minha cara de estúpido, querendo ar e não posses.

Afogando-me e me conhecendo. Que decepção me conhecer... Entre tanta vida, tantos objetos, tantas ocasiões, tantas pessoas, tantos planos, tantas desilusões, tantos pensamentos, tanto querer. Eu não imaginava que me afogaria assim no canal que eu mesmo aumentei, no fluxo que eu mesmo permiti... E me percebo muito eu. De novo, eu demais.

Percebendo-me, reparo ao meu redor e avisto distante um funil. Num lapso de lucidez em meio ao meu desespero, nado até ele. Fecho os olhos e, num impulso, jogo-me no estreitíssimo canal do funil. E passo. Coisas bem menores do que eu tentaram e não passaram, eu vi. Mas, eu sei, elas nunca desobstruíram seus canais. Eu passei só. Passei sem as coisas e sem as pessoas. Eu tenho ar e me vejo nu.

Nesses canais de tanto existir, às vezes ocorre de alguém se descobrir e ocorre de outros permanecerem incógnitos de si...


Fernanda Lobo

Monday, November 06, 2006


" O objetivo primordial e necessário de toda a existência deve ser a felicidade,
mas a felicidade não pode ser obtida individualmente;
é inútil se esperar pela felicidade isolada;
todos devem compartilhar dela ou então a maioria nunca será capaz de gozá-la."


Robert Owen


" Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.
(...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma. "

Carlos Castaneda

Friday, November 03, 2006




AQUELA MULHER
Rubem Braga
O médico me levou até o elevador.
Quando cheguei à rua
Sabia que já não estava condenado a morrer.
Mas as horas de perigo, de certeza da morte,
De preparação para a morte,
As horas da morte ainda batiam dentro de mim.
Nessas horas a vida recuara ante meus olhos,
Cheia
De suas fascinações, tristezas e ternuras,
Estava orgulhoso de mim mesmo.
De meu pensamento viril diante da morte,
Da força de meu ódio aos inimigos que eu pensara em matar antes de morrer.
Do amor, do grande e comovido amor
Com que eu me despedia em silência de vós, almas queridas,
Almas queridas a que jamais servi bem.
Ia pela rua, mas ainda ia a meu lado
A sombra sem terror mas inapelável
Da morte.
Foi então que passou a desconhecida mulher
Abençoada eternamente seja essa mulher!
Uma alta, bela, desconhecida mulher
Que andava com seu andar de desconhecida mansa
Seus finos cabelos negros brilhavam ao sol
E seus olhos eram claros como a vida que renascia.
No seu corpo havia a doce dignidade essencial
Que é a marca suprema da beleza na mulher.
Eu a fitei, eu detive os seus olhos com os meus,
Foi apenas um segundo.
Ela não desviou os seus,
Apenas continuou na sua marcha mansa
Não sentiu nos meus olhos a aflição deslumbrada
A ansiosa descoberta, a impressão de milagre
Nos meus olhos ressucitados que saudavam
E abençoavam, abençoavam ardentemente sua natureza de mulher.
Eu estava tão sólido em face da morte,
De minha morte, de minha obscura morte,
Estava tão sólido, firme, bem plantado e certo
Perante a morte – e agora
Era como se a vida como alta onda desabasse
Sobre mim, e num instante
Senti toda a sua força furiosa, o desespero, a beleza,
A ânsia que não tem fim, a sede, a dolorosa
Exaltação que sempre foi a vida para mim,
A tonteira cruel, a coragem, a promessa
O que ela me dá, o que tomo, o que roubo,
O que espero, e tudo, tudo o que eternamente desespero.
Senti-me fraco, miserável, diante da vida,
À mercê da sua força inelutável, da atração
Cruel com que me chama todo dia.
Senti a sua exasperante incerteza,
Senti num instante toda a sua longa, longa,
Mortificante melancolia.
Fazia sol na rua.
Dois homens pararam me olhando. Eu olhava
Longe – com meu olhar ressuscitado
Que de longe, muito longe, ainda
Abençoava aquela mulher.

(São Paulo, 1941)