Wednesday, June 21, 2006


Só que, às vezes, queria saber como seria não me ser.

Ser outro. Ser você. A impressão que tenho é a de que minha existência se vê limitada. A mim.

E isso me provoca uma inquietude incurável. Isso me põe na alma a extensão um moinho, que gira todo o tempo pela mesma tarefa, pelo mesmo fim, e tem sua existência limitada a ser o que é.

Talvez, exista, fora de mim, algo diferente desse ciclo, dessa forma, dessa linha, do limite. Talvez, haja fora, um trajeto melhor, pior, diferente... talvez.

Talvez, seja tudo igual.

Talvez, quando eu me vejo reagindo, eu seja só um animal, uma presa ameaçada por um caçador, tentando sua defesa, por vezes, vã.

Talvez, quando eu chore, seja só uma nuvem que se desfez quando não agüentou a densidade do que o sol, o próprio sol da vida, fez com que chegasse a ela.

Talvez, minha vida não passe do terremoto, dos movimentos de placas tectônicas, que fazem inexistir segurança, o estável, a certeza...

Talvez, eu não seja mais do que o mundo, devo ser só isso tudo... Talvez seja tudo igual. Dentro e fora.

Mas eu ainda acho que talvez, haja algo, fora de me ser, que eu deveria conhecer.

Fernanda Lobo

..."Se o sol se cansa
e a noite lenta quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente, inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan e o do sol".
Maiakovski

Monday, June 19, 2006


Katherine Mansfield

Meu espírito está quase morto. Minha fonte de vida, tão faminta que secou. Quase todas as minhas melhoras de saúde são pura farsa - teatro. Que significam? Posso caminhar? Apenas me arrastar. Posso fazer qualquer coisa com as mãos e o corpo? Nada. Sou uma inválida sem esperança alguma. O que é a minha vida? A existência de um parasita. Cinco anos já se passaram, e estou num cativeiro mais estreito do que nunca.
Portanto, se o Grande Lama do Tibet prometeu ajudar - como pode hesitar? Arrisque! Arrisque tudo! Não dê importância à opinião dos outros, àquelas vozes. Faça o mais difícil nesta terra para você. Aja por si mesma. Enfrente a verdade.
Certo, Tchekov não a enfrentou. Sim, mas Tchekov morreu. E sejamos honestos, o que sabemos de Tchecov a partir de suas cartas? Isso foi tudo? É claro que não. Não é de se supor que ele tenha tido uma vida inteira de desejos sobre a qual dificilmente se encontra uma palavra? Leiam-se as últimas cartas. Ele abriu mão da esperança. Eliminando-se os elementos sentimentais dessas cartas finais, elas são terríveis. Não há mais Tchecov. A doença o tragou.
Mas talvez, para as pessoas que não estão doentes, tudo isso seja absurdo. Nunca viajaram por essa estrada. Como podem saber onde é que estou? Tanto mais razão para avançar ousadamente, sozinha. A vida não é simples. Apesar de tudo o que dizemos sobre o mistério da Vida, quando chegamos perto, queremos tratá-lo como se fosse um conto infantil....
Mas, Katherine, o que você quer dizer com saúde? E por que você a deseja?
Resposta: saúde para mim significa poder viver uma vida plena, adulta, viva, de fôlego, em contato íntimo com o que amo - a terra e suas maravilhas - o mar - o sol. Tudo a que nos referimos quando falamos do mundo externo. Quero entrar nele, fazer parte dele, viver nele, aprender com ele, perder tudo o que em mim é superficial e adquirido e tornar-me um ser humano direto e consciente. Quero, compreendendo a mim mesma, compreender os outros. Quero ser tudo o que sou capaz de me tornar, para que possa ser (e aqui parei e esperei, mas não adianta - só há uma expressão possível) uma filha do sol. Sobre ajudar os outros, carregar uma luz e assim por diante, parece falso dizer qualquer palavra. Fiquemos com esta Uma filha do sol.
Depois, quero trabalhar. Em quê? Quero viver de modo a trabalhar com as mãos e o cérebro. Quero um jardim, uma pequena casa, grama, animais, livros, quadros música. E a partir disso tudo, para exprimi-lo, quero escrever.
Mas uma vida quente, ávida, viva ¿ enraizada na vida - para aprender, desejar, saber, sentir, pensar, agir. É o que desejo. Nada menos. É o que tenho de tentar."

Algumas Cartas e Trechos do Diário, ed. Noa Noa, 1988, tradução Rosaura Eichenberg

Saturday, June 17, 2006


" é mais fácil cultuar os mortos que os vivos

mais fácil viver de sombras que de sóis

é mais fácil mimeografar o passado

que imprimir o futuro. "

Sunday, June 04, 2006

Há quem encontre o fio da meada...


"Como todo ser vivo, procurei atingir meu ser e, para isso, inspirei-me nas experiências nas quais tinha a ilusão de haver chegado a isso.

Conhecer era, como em minhas contemplações infantis, oferecer minha consciência ao mundo, arrancá-la do nada do passado, das trevas da ausência; parecia-me realizar a impossível união do em si e do para si, quando me perdia no objeto que olhava, nos momentos de êxtases físicos ou afetivos, no encantamento da lembrança, no pressentimento entusiasta do futuro.

E desejava também materializar-me em livros que seriam como os que amara, coisas existindo para o outro, só que marcadas por uma presença: a minha.

Toda a busca do ser está fadada ao fracasso; esse mesmo fracasso, porém, pode ser assumido. Renunciando ao sonho vão de nos tornarmos deus, podemos satisfazer-nos simplesmente em existir. Saber não é possuir e, no entanto, não me canso de aprender. Desejava participar da eternidade de uma obra na qual me encarnaria, mas principalmente queria ser ouvida por meus contemporâneos.»

Simone de Beauvoir