Saturday, September 23, 2006


Entrega

O mais engraçado em pessoas completamente insanas são seus surtos de lucidez, quando “acham que estão ficando loucas”, ela se ria.
Ela não via motivos racionais naquele prazerzinho recorrente que tinha em coisas que a mantinham longe, de certa forma. Longe da maior parte, um tipo de exclusão, feita por ela mesma, um ostracismo mais ameno. Ela cultivava seus momentozinhos e o seu jeito de caminhar só, que pra ela a faziam parecer protagonista de uma biografia. Uma em que se nasce todos os dias. Ela nascia, nascia até o dia de morrer.
Não sabia demais a respeito daquele dia de morrer, porque já havia nascido vários dias e já havia se pendurado em várias certezas absolutas sobre o dia de morrer. Agora, ela se abstinha, de forma covarde, de ter uma certeza absoluta. Sabia-se covarde e cada vez que confirmava essa “virtude” magnífica, parecia-lhe descer dos céus um espelho que se postava à sua frente e mostrava a ela uma face que era sua, mas era muito mais pálida e um rosto medroso, que não costumava ser seu. Isto acontecia todas as vezes em que se atrevia a não ter certeza absoluta.
Se atrever, ela se atrevia. Ah, isso é! Andava se atrevendo até mesmo à covardia de uns tempos pra esses. Se atrevendo a não fazer, se atrevendo a medir, se atrevendo a esperar. Isto era um atrevimento, considerando-se as virtudes e vícios que se sobrepunham como tijolos na personalidade que passara todos esses não muitos anos cultivando.
Andava entendendo algumas coisas. Andava entendendo que as pessoas faziam coisas absurdamente grandes e difíceis, apesar de quase sempre vazias. E, para isso, era preciso fazer coisas pequenas sempre e com perseguição, e as coisas pequenas não eram menos difíceis.
Ela se sentia uma estúpida tantas vezes por só ter nascido agora! Poderia ter nascido tão antes e feito tantas coisas mais... Mas se esquecia de que ela levaria consigo essa lamúria até o dia de morte. Porque sempre se recusaria a não nascer todo santo dia. Pra fazer do santo dia herege. Ou santo.
Ela queria mais. Mas às vezes achava que queria só por querer. Precisar, não precisava. Isso até alcançar e não saber mais como vivia com menos, de tão repleta que se sentia. Naqueles momentos em que ela mesma se tornava uma música... Sentia-se dissipar pelo ar e compor-se novamente em contorno de notas musicais. Um chorinho, uma percussão cubana, solos do Bolero de Ravel, sustos de tango...
E ela gostava de conversar. Conversar como um rio. E foi reparando que as pessoas andam escassas para conversas como rios. Não porque não tenham eloqüência, mas, exatamente, pelos seus excessivos cursos de retórica; pela feiúra que ela achava os que estavam sempre tentando desesperadamente provar algo a alguém, a si, a um mundo tão caduco!
Deus meu! As pessoas se desdobram em um milhão de outras para provar algo a alguém invisível, a um oráculo sórdido que grita: “compre e seja feliz!”, e ainda descontam sua necessidade de provar nos visíveis ao redor. Elas só querem encher os olhos e os ouvidos alheios com o que andaram fazendo de quase faraônico para se sentirem aceitas. Ela achava feio, mas tinha que sorrir. Um sorriso que doía por dentro, a torturava nos órgãos fundamentais. Sorria porque era obrigada a fazê-lo. Não tinha outra saída. Não podia chorar e dizer àquele ser abarrotado de vantagens o quanto ele era feio. Feio e pegajoso como um verme. Um verme débil, parasitando egoísta e nesciamente.
Além de apreciar conversas, num desses nascimentos, ela descobrira o quanto gostava de não conversar. Não de tentar conversar e ver um assunto a ser discutido com calor se esvair até puros testes do canal. Não. Ela gostava de não ter que conversar. De se sentir confortável não conversando. Adorava aquele medinho de falar em momentos tão nobres e irretocáveis e desencadear, assim, algo que pudesse espantar aquela atmosfera, como quem espanta peixes na pescaria só pela vozearia e tira do pescador o alimento de todo um dia.
Há momentos que não devem ser trocados por verbetes pronunciados. Nem por descrições tardias. Tentar descrever certos momentos, ela já sabia, seria como assaltá-los de forma excessivamente bárbara, torturá-los, chutá-los e deixá-los estrebuchados em um chão qualquer, como quem tira a essência e abandona a matéria abominável. Pronto. Aquilo era a descrição de instantes indescritíveis.
Poder escrever era, para ela, um tipo de abuso desejável. Como se ela fosse se despindo. Peça por peça. Se desnudando palavra por palavra. E cada palavra a mais no papel, era um esconderijo a menos nela mesma. E ela entregava um a um de seus esconderijos em letras, derrubava muro por muro em frases, movia suas altas e íngremes montanhas em pequenos poemas.
E ela era, inúmeras vezes, tomada de súbito amor. Amor daqueles que se sabe que é amor, não pode ser mais nada. E um amor destinado a quem acabava de chegar sempre, a quem nunca vira antes, por meninas tão jovens, negrinhas, lindas. Por mulheres tão velhas e tão sem brilho de tanto altruísmo. Era tomada de amor por meninos tão pequenos, tão sapecas, verdadeiros; por homens tão donos de si, tão auto-suficientes, tão carentes... Era, de repente, um amor que surgia em qualquer lugar, dos mais inóspitos aos mais corriqueiros, e poderia ser destinado a qualquer pessoa, só pelo que ela tinha certeza do que via em seus olhos, como se a íris redonda fosse a maquete de um mundo redondo.
Nesse amor, ela gostaria de se deter mais, porque isso realmente a extasiava e a deixava sempre naquela esperança de que ocorresse novamente. Porque ela se sentia prestes a chorar sem lágrimas, gritar sem voz, pular até uma nuvem, sabendo não ter pernas suficientes para tal. E aí, ela impetuosamente queria declarar esse amor repentino. Queria encontrar uma maneira, sei lá! Não sei. E perguntava no máximo o nome e tentava dar, de presente, o seu melhor sorriso. E muitas vezes a criatura subitamente a ela amável tinha medo, como aquela menina negrinha, que lhe entregou logo o chiclete que vendera; pronunciou o nome rapidamente; sorriu grande, mas nervoso; virou-se e foi. Com uma roupinha meio rosa, bem desbotada e uma parafernália para engraxar nos ombros, como um pequeno Cristo e sua cruz. E ela ficou ali passada, abandonada, amando até o fim aquela negrinha. Era um amor desvairado, mas tão consolável. Facilmente consolável por gestos pequeníssimos.
Havia quem percebesse o seu amor imprevisto e não tivesse medo dele. Havia até quem sentisse o mesmo, quase ao mesmo tempo e, então ela via que era a hora de se abandonar, de pular de um lugar alto só pra sentir uma brisa nova tocar seu semblante, em um deleite único por haver quem compartilhasse com ela aquela mania lunática de sentir. E a impressão que sobrava a ela era que ali, naquela força imensa reduzida a uma medida cronológica e espacial, ali se formava um deus, grande, suntuoso, acima do que eram todos, um Grande Poeta talvez. E esse deus crescia por si, sem necessidade de ser alimentado todos os dias, mas que a alimentaria se ela voltasse até ali. E alimentaria a quem mais ousasse amar com ela.
Às vezes, ela se sentia muito tentada a abraçar todas as dores do mundo. E era aí que não sabia até onde essa tentação se tornava martírio. E se confundia de forma absoluta, porque chegava a interrogar se sua existência e a vida que levava não ofendiam a quem nunca teria possibilidade levar aquela vida. Não era lá grande coisa de vida também, mas havia vidas tão absurdamente subumanas que a agrediam. Ou era ela quem as agredia. Não sabia. Dava-se à confusão dolorosa.
O certo é que havia quem ofendesse a ela e aos arrastadamente sobreviventes - e aí ela se sentia do lado destes-, mas aqueles jamais se desocupam de contar cobres pra pensar em quem ofendem. E ela arquivava consigo um asco, uma repugnância, um aborrecimento pelas coisas que pareciam sempre girar na órbita da posse.
Descobria-se encabulada, muitas vezes, com a necessidade que as pessoas têm por lugares-comuns, a avidez delas por explicações plausíveis para o clichê que são. Até quando não conseguiam enquadrar carinho, conversas, palavras, beijos, sexo, abraço em uma palavra dessas obviedades não se davam por satisfeitas. Não sossegavam em deixar as coisas serem só o que eram e ficavam loucas atrás de um rótulo, uma embalagem. Quem ensinou isso a elas, afinal?Poderia fazer o colossal favor de ensinar algo proveitoso, que desfizesse essa palhaçada? Vendar os olhos e provar uma fruta cujo nome se desconhece é tão mais colorido, mais leve, mais intenso e honesto. Mas ela sabia que era uma tentação, uma corrupção corrosiva a que as pessoas não conseguiam resistir e colocavam rótulos e mais rótulos, até que se tornassem elas mesmas uvas passas em conserva. Tão conservadas que chegavam ao último dia da data de validade, petrificadas: o dia de morrer.


Fernanda Lobo (in-completo)

Thursday, September 21, 2006


"... mas quem dará o balanço dos projetos humanos que se frustraram,
dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo?
Quem dará o balanço do medo que nós tivemos? ”


Fernando Gabeira

Sunday, September 17, 2006


OS ARAUTOS NEGROS

Vallejo



Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles
a ressaca de quanto foi sofrido
se empoçara na alma... Eu nem sei!

São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.

São as caídas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.

E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como
quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;
volve os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

Monday, September 11, 2006


" como estão juntos os países

nas lições escolares

e duas comarcas se confundem

e há um rio perto de um rio

e crescem juntos dois vulcões..."


Neruda

Thursday, September 07, 2006


" Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento Lua nova a clarear
invento o amor
E sei a dor de me lançar

Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais e sei a vez de me lançar."

-Milton Nascimento

Monday, September 04, 2006


Eu vou me completando.
Me completo até quando a incompletude me for bastante.
Porque ser inteiro não quer dizer ser completo.
Ser inteiro sei o que é, e ser completo desconheço.

Vivendo cada coisa sem futuro, eu me completo.
Eu colho as rosas e ajunto os cacos depois, já que gosto de ser assim: de rosas e cacos.
Posso escolher juntar só rosas, ou só cacos. Mas eu quero os dois.

Vivendo cada assunto desimportante, completo a parte fundamental.
Vivendo cada onda que eu não sei de onde vem, ou aonde vai dar,
eu só quero me tornar o mar- conter todas as ondas.

E, conhecendo coisas que não vão dar em nada, eu conheço pequenas porções de completude.

Porque só é grande quem nunca é completo- quem diria estar a grandeza no que falta?- e maior é aquele a quem basta seu existir. Incompleto.

Fernanda Lobo