"... copiando paisagens de velhos calendários ou flores arrancadas às revistas de bordados, à natureza não, a D. Cláudia temia a natureza, a chuva, o sol, o mar, o vento, ignorava as flores que irrompem dos estrumes, e a própria vida humana, as relações sociais, os pequenos equívocos da convivência, as conversas mais acaloradas assustavam-na. O namoro com o dr. Neto arrastava-se há anos e a culpa não era apenas dele. Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava a D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que é melhor não desvendar. Se olhava para dentro de si lá entrevia ao fundo, num relance, essa mesma crueza asfixiada sob cândidos folhetins ou girassóis imaginários. E asfixiava-a mais."'
Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira
No leito
19 years ago

