Friday, February 05, 2010

O amor é o ridículo da vida.



A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraiso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas. Morrer NÃO dói.

Sunday, January 24, 2010

a green-eyed monster


Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e inquietação./ Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa retomasse o seu ar regular e calmo.


Alves & cia


Eça de Queiroz


Sunday, January 17, 2010

De novo - "há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua..."


Repeat : Otto

Não precisa falar
Nem saber de mim
E até pra morrer
Você tem que existir

Nasceram flores num canto de um quarto escuro
Mas eu te juro, são flores de um longo inverno
Isso é pra morrer
6 minutos
Instantes acabam a eternidade
Isso é pra viver
Momentos únicos
Bem junto na cama de um quarto de hotel

E você me falou de uma casa pequena
Com uma varanda, chamando as crianças pra jantar...

Sunday, December 20, 2009

O mundo estava no rosto da amada

-e logo converteu-se em nada, em

mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei

no rosto amado, um mundo à mão, ali,

aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.

Mas eu também estava pleno de

mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

Rainer Maria Rilke, Tradução: Augusto de Campos

Saturday, December 19, 2009

devir-viver

eu olho o horizonte, que não tem no chão nada que se possa colher, se não pequenas ilusões massacradas - e nem estamos em guerra - e poucas, pouquíssimas brotando sem adubo - mas essas não são de colher - e eu digo o que diz tchekov quando digo que a vida há de ser surpreendentemente bela.

Fernanda Lobo
Alma, mão, silhueta, riso, fi-sio-no-mia. Toda palavra me diz, todo texto é recitável e sairia da minha boca não fosse o vão torpor de algumas palavras DURAS, escuras, tortas, en...gas...ga...das.


Fernanda Lobo

Wednesday, November 25, 2009

(:


[...]
Lélio se estendeu, feliz de seu bom descanso. Já se abençoava de ter vindo para o Pinhém; principalmente, se conseguia solto, dono de si e sem estorvo. Era um novo estirão de sua vida, que principiava. Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira - os parentes, os conhecidos, até os namoros, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa fazer a barra. A tanto sentia falta de uma confusão grande, que ajudasse a um não carecer de curtir a confusão pequena das coisas de todo o dia da gente, derredor.
E ter tempo para ir se lembrando devagarinho das melhores horas, consumindo. Avante e volta, gostava de galopar no campo, o galope, o galope. Assim queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data,e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo.
Guimarães Rosa.
No urubuquaquá, no Pinhém

Friday, November 20, 2009



Ó vida dos lavradores,
Se elles conhecessem bem
As vantagens que tem,
Aquelles tantos suores,
Que santamente os mantem.


Sá de Miranda

Guimarães em gotas

[...]
e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo - Ó colossalidade! - na direção da altura?
E não é assim que as palavras têm canto e plumagem.

Rosa, 1984, p.253 Sagarana

Eu mesmo não gostei. Mas a minha poesia viajara muito e agora estava bem depois do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso me perturbou, escrevi: Ou a perfeição, ou a pândega!

Rosa, 1984, p.255 Sagarana