Saturday, December 31, 2005

Incompreendido só



Nem preciso de que alguém me entenda.
Ninguém me entender já é o bastante .
Isso de querer demais
Isso de sentir demais coisas muito belas
É isso o que me estraga .

Nem quero que alguém me console .
Ninguém me consolar é o bastante pra que eu perceba que sou só eu .
E isso aqui que agonia demais
Isso que fere demais intencionalmente
É isso o que me tira de só um querer modesto...

Não preciso de juízo ausente.
Sem estar enterrado, ninguém vai entender.
Entender porque eu planto e não quero a ceifa,
Porque eu nasço e não acredito em morte.

E fica isso tudo se debatendo
Isso tudo de chorar e embotar os olhos quando se quer ver
Isso de perder palavras quando se quer dizer de deslumbramento
Isso de querer, e não conseguir sentir nas mãos arrebatamento.

Nem dá pra esperar que alguém perceba
É querer demais que compreendam um denso desconsolo,
Uma enfadonha insatisfação acobertada por placidez.
Não posso exigir que sufoquem suas lógicas ponderadas
Pra entender isso tudo aqui.


Fernanda Lobo

Saturday, December 17, 2005


As seis cordas

Federico Garcia Lorca

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

Wednesday, December 07, 2005



Procurar-me assim não é sinônimo de encontrar.
É sinônimo de buscar, buscar mais um pouco...

É buscar uma certa profundidade no que parece superficial.

É notar uma certa ignorância ávida por conhecimento.

Procurar o que eu sou demanda uma certa coragem, a coragem que me sobra muitas vezes...
É buscar alguma melancolia num mundo de sorrisos, sons sistêmicos...

É não encontrar respostas, mas ouvir perguntas que ecoam e não querer outra coisa, senão buscar.

Procurar-me faz deslumbrar um resquício de nobreza, de força, de olhos fixos e adiantes...

É recusar uma cegueira quase inevitável.

Não cabe a mim dizer o que sou, mas ser.

Não cabe a mim respirar sem liberdade, dizer sem sentir, sentir sem dizer...
Não cabe a mim ser perfeita, porque o erro me pertence e me possui, mas o aprendizado também.

Procurar-me não leva a uma estrada branca, mas ao que explode em cores, dores, amores...

Encontrar-me é o impossível. Desistir de encontrar-me também.
Fernanda Lobo