Thursday, March 08, 2007


Quais eram os olhos sobre cada um dos lugares que você visitou? De quem os ouvidos em cada uma das músicas que você ouviu? As mãos sobre as texturas que você já sentiu? Eram seus olhos, seus ouvidos e suas mãos?

E essas sensações que resolvem emergir do mergulho mais longo que haviam dado dentro da sua alma, ao estímulo de um abraço infinito, de um sorriso de criança, do amor a quem você ama? A sensação de vida que já poderia estar se asfixiando dentro de você, tão longo tivesse sido seu mergulho, mas que vem à tona respirar quando em contato com essas coisas que só você acha bonito e que - só em você- provocam aquela disposição branda e prometedora de que o simples existir pode ser melhor, melhor, ilimitadamente melhor...

E mais, se você pudesse transmitir essa arrebatadora sensação a outrem, só pelo fato de tocá-lo? Sem palavra mágica, sem cartola e vara de condão... E as pessoas tocadas, de repente, se sentissem bem como você se sente. E se sentissem bem apesar da disparidade social que assola o País desde antes mesmo que o País fosse país; se sorrissem, apesar da lembrança dos que têm fome, que apela em gritos silenciosos dentro de todos os seres humanos, nos fazendo sofrer da culpa coletiva pelos que morrem sem teto e sem chão; e se as pessoas se fizessem felizes apesar das lágrimas que têm em si, causadas pela selvajaria com que os humanos têm tratado os humanos, pela injustiça absurda e castradora de sonhos que a realidade obriga a lembrar nessa nossa cotidiana luta pelo pão do dia; e se pudessem esquecer, por um momento, a decepção amarga que chega a cada governo novo, que nunca passa de velho...

Se o seu toque fizesse com que os homens conhecessem a alegria no APESAR DE. Se você pudesse fazer isso... Aí, meu amigo, eu te diria que você é mágico completo. Ou então, te diria que você não faz nada que não tivesse sido feito pelo primeiro hominídeo que tentou traduzir aos seus contemporâneos e a você – um bom par de anos depois - a sensação que tinham diante de sua realidade, tentando causar a outros essa mesma sensação, por meio da pintura do seu mundo com sangue e argila nas pedras de suas casas-cavernas. E fez-se o que chamam Arte.

A Arte nasceu quando um hominídeo expressou suas impressões. O autor da obra-prima se tratava de quase um macaco e quase um gênio, olhando o mundo de dentro de uma caverna e materializando em formas e cores a fusão de seus olhos com o seu mundo. O autor era quase um macaco e quase um gênio. E você, quase macaco e quase gênio... Não sente um mundo ao seu redor? Não tem olhos? O mundo é trazido a você quase completamente, por tevês, monitores, polegadas e decibéis aos montes, e o autor só tinha pés - recém-bípede! Olhos você pode escolher quais prefere: mãos, ouvidos, retinas... Por que se esquivar de ser esse mágico-autor?

A Arte triunfa sobre o maior inimigo da humanidade, o tempo; prevalece sobre os anos e resiste a ser arrastada pelas tempestades das desilusões humanas; a Arte imortaliza um autor e um mundo. Quem rejeitaria a possibilidade de sair do chão pedregoso e duro, que são nossos dias sem sonhos e voar, ganhar altura ilimitada nas asas das sensações que o belo nos traz? Quem há de negar a importância da arte-mágica em dias de desapontamento recorrente? Quem é o Homem que nega Vida, enquanto atém todo seu esforço no Sobreviver? Ser artista é abrir os olhos, sentir o mundo e se saber autor, pai da própria imortalidade.


Fernanda Lobo

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