
Eu devia ser mais poesia.
Eu queria chorar poesia. Eu queria sorrir poesia.
Eu queria ser mais rima. Mais ritmo, se assim coubesse.
Sabe que eu deveria ouvir mais poesia?
Cheirar à poesia, viver a poesia.
Sabe que eu devia recriar mais coisas belas?
Pisar menos o chão penoso.
Ouvir menos meus passos secos, sem poesia.
Piso demais, voando estou pouquíssimo.
Eu devia saber mais poemas, mais odes, sonetos.
Decorar todos.
Decorar decorando com adornos, ornamentos. De corações.
Abaixo verbos secos. Menos números efêmeros.
Abaixo fontes estéreis.
Eu devia era falar poesia, era sonhar esses poemas.
Essas figueiras, esse pomares, essas novas brancas nuvens,
sempre novas.
Esse frio, esse fogo.
Essa lua, a poesia que me está oculta, encoberta por algum descuido do Existir.
Por que se esconde? Por que não me abraça como faz o Sol?
Por que não se coloca a correr como rio perene essa poesia?
Por que me esquece tão rápido?
Por que não mereço?
Como? Se antes de existir em qualquer - em qualquer um - antes disso, sou poeta.
Eu devia encontrar essa poesia, como ao tesouro que se encontra no fim da vida e que não se pode mais medir, ou consumir.
Eu devia esquecer coisas e lembrar poesias.
Como choro por procurar. Viver procurando.
Choro mesmo. Choro pranto. Choro e não há consolo, não há alívio, ou auxílio.
Suspensa em águas caladas. Torrentes de secas.
Sede de versos, versos mais belos que os dos homens.
Estranho a vida sem encanto. Estranho a seca.
Estranho o que não me alaga,
como se fosse uma santa, rica, inefável poesia.
Fernanda Lobo
1 comment:
FÊ!
Simplesmente lindo!
Juro que quando eu comecei a ler me arrepiei, acho que me identifiquei com isso de querer ver mais a poesia das coisas, sei la!
Adorei, de verdade!
Bjos!
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