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Invento coragem.
Invento e desobstruo o canal fundamental de existir. Desobstruo e depois alargo o canal: aumento o fluxo de existência.
Desobstruo o caminho ao não mais tentar entender o que extrapola entendimento.
Alargo o canal. Criando a coragem que não existe; desprezando entraves que seriam, mas não são.
E vem vida em um fluxo enorme, vazão de vida que não para de crescer. Em enxurradas, aguaceiro. E vem tudo o que “é” de uma só vez em uma onda gigantesca e azul. Azulzinha. Azulzíssima.
E, por um momento, eu penso em me arrepender de ter inventado coragem. Aumentei o fluxo e vou me afogar. Estou me afogando. Eu não queria terminar assim. Asfixiado. Asfixiado por tudo que “é” e me liberta demais. Assim é a derrocada dos artífices de coragem?
E, me afogando, sinto meu ar mais do que nunca. Sinto, porque nunca havia dado tanta importância ao ar. Havia dado apego a coisas bem mais banais do que o ar: coisas burguesas, caras coisas baratas e ordinárias... E trocaria todas elas, imediatamente, só por ar.
E sinto meus pulmões mais do que nunca. E me reconheço inédito no meio da asfixia: pobre de ganâncias e de tantas ambições. Eu nunca me vi assim. Se eu não estivesse morrendo afogado riria da minha cara de estúpido, querendo ar e não posses.
Afogando-me e me conhecendo. Que decepção me conhecer... Entre tanta vida, tantos objetos, tantas ocasiões, tantas pessoas, tantos planos, tantas desilusões, tantos pensamentos, tanto querer. Eu não imaginava que me afogaria assim no canal que eu mesmo aumentei, no fluxo que eu mesmo permiti... E me percebo muito eu. De novo, eu demais.
Percebendo-me, reparo ao meu redor e avisto distante um funil. Num lapso de lucidez em meio ao meu desespero, nado até ele. Fecho os olhos e, num impulso, jogo-me no estreitíssimo canal do funil. E passo. Coisas bem menores do que eu tentaram e não passaram, eu vi. Mas, eu sei, elas nunca desobstruíram seus canais. Eu passei só. Passei sem as coisas e sem as pessoas. Eu tenho ar e me vejo nu.
Nesses canais de tanto existir, às vezes ocorre de alguém se descobrir e ocorre de outros permanecerem incógnitos de si...Fernanda Lobo
1 comment:
putz...
to ateh tremendo hehehehe
=**
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