Friday, November 20, 2009

Guimarães em gotas

[...]
e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinquenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo - Ó colossalidade! - na direção da altura?
E não é assim que as palavras têm canto e plumagem.

Rosa, 1984, p.253 Sagarana

Eu mesmo não gostei. Mas a minha poesia viajara muito e agora estava bem depois do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso me perturbou, escrevi: Ou a perfeição, ou a pândega!

Rosa, 1984, p.255 Sagarana

Wednesday, October 28, 2009

;)

This can’t be love
Because I feel so well
No sobs, no sorrows, no sighs

This can’t be love
I get no dizzy spells
My head is not in the skies
My heart does not stand still
Just hear it beat
This is too sweet to be love

This can’t be love
Because I feel so well
I love to look in your eyes
I love to look in your eyes

Friday, October 23, 2009

"Capibaribe, Beberibe, Subaé, Francisco

Tudo é um risco só, e o mar é o mar

E eu quase, quase não existo e sei

Eu não sou cega

O mundo me navega e eu não sei navegar"

Tuesday, September 29, 2009

" Viveu, no espaço de tempo de uma batida de coração, os momentos capitais de sua vida. Via de novo os heróis que lhe tinham revelado a força e a prosperidade de seus longínquos antepassados africanos, fazendo-o acreditar num futuro melhor. Sentiu-se velho, velho de séculos incontáveis. Um cansaço cósmico, de planeta que o tempo fizera deserto de pedras, caía sobre seus ombros descarnados, suores e revoltas. Ti Noel gastara sua herança e, apesar de ter chegado à extrema miséria, deixava a mesma herança recebida. Era um corpo de carne já vivida. E compreendia, agora, que o homem nunca sabe por quem sofre e espera. Sofre, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e que, por sua vez, sofrerão, esperarão e trabalharão por outros que também não serão felizes, pois o homem deseja sempre uma felicidade muito além da porção que lhe foi outorgada. Mas a grandeza do homem consiste precisamente em querer melhorar a si mesmo, a impor-se Tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois lá toda a hierarquia já está estabelecida, a incógnita solucionada, o viver sem fim, a impossibilidade do sacrfício, do repouso, do deleite. Por isso, esmagado pelo sofrimento e pelas Tarefas, belo na sua miséria, capaz de amar em meio às calamidades, o homem poderá encontrar sua grandeza, sua máxima medida no Reino deste Mundo. "

Alejo Canpentier, em "El Reino de este Mundo"

ah, como não?

A Inês


Não me sorrias à sombria fronte,
Ai! sorrir eu não posso novamente:
Que o céu afaste o que tu chorarias
E em vão talvez chorasses, tão somente.

E perguntas que dor trago secreta,
A roer minha alegria e juventude?
E em vão procuras conhecer-me a angústia
Que nem tu tornarias menos rude?

Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,
Nem de baixa ambição honras perdidas,
Que me fazem opor-me ao meu estado
E evadir-me das coisas mais queridas.

De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,
É esse tédio que deriva, e quanto!
Não, a Beleza não me dá prazer,
Teus olhos para mim mal têm encanto.

Esta tristeza imóvel e sem fim
É a do judeu errante e fabuloso
Que não verá além da sepultura
E em vida não terá nenhum repouso.

Que exilado - de si pode fugir?
Mesmo nas zonas mais e mais distantes,
Sempre me caça a praga da existência,
O Pensamento, que é um demônio, antes.

Mas os outros parecem transportar-se
De prazer e, o que eu deixo, apreciar;
Possam sempre sonhar com esses arroubos
E como acordo nunca despertar!

Por muitos climas o meu fado é ir-me,
Ir-se com um recordar amaldiçoado;
Meu consolo é saber que ocorra embora
O que ocorrer, o pior já me foi dado.

Qual foi esse pior? Não me perguntes,
Não pesquises por que é que consterno!
Sorri! não sofras risco em desvendar
O coração de um homem: dentro é o Inferno.


Lord Byron

Friday, September 18, 2009

O Medo






Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo... Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas.
Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo

Carlos Drummond de Andrade
Basta ser Homem, para estar só. Irremediavelmente só.

Thursday, September 03, 2009

apesar da quarta-feira...


[...]
Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar
Tempo da praia de ponta de pedra
Das noites de lua, dos blocos de rua
Do susto é carreira na caramboleira
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, munguzá, cravo e canela
Serenata eu fiz pra ela
A cada noite de luar
Tempo do corso, na Rua da Aurora
É moço no passo
Menino e senhora do bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima
Do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda apesar da quarta-feira
No cordão da saideira
Vendo a vida se enfeitar
Edu Lobo

Sunday, August 30, 2009

Ao astronauta - Saramago

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.

Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.


No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa

Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

Tuesday, June 23, 2009


Bonde

O transatlântico mesclado
Dlendlena e esguicha luz
Prostetutas e famias sacolejam
Oswald-24

Friday, June 19, 2009


La salamandra fría que desmiente
noticia docta, a defender me atrevo:
cuando em incendios que sedento bebo,
mi corazón habita y no lo sente (...)

Quevedo, "Ejemplos de otras llamas que parecen posibles comparadas a las suyas."

Saturday, May 09, 2009

Anti-Solar

Um segue o outro no escuro. Apanham.
Não sabem de quem.
Um do outro, da garoa, do escuro
São dois loucos sem saber
De quem apanham. Pra quê.
Da morte, do longe, do frio,
Da filosofia, da banalidade.
Da saudade.

Apanham um do outro. É escuro e madrugada.
Se perseguem, se riscam, se tocam paralíticos.
Paralítica é a noite e a lua. É a posse.
Paralítico é mais o medo e
O sonho é metade sonolento.

Um segue o outro. Apanha.
Ele desvencilha. O outro é sempre o outro.
Um é, às vezes, outro. E apanha
Daquela mão que supunha sua.
Não sabem que vão apanhar
De algum raio solar perdido na noite
Que espera dois loucos
Para matar-lhes o amor.


Fernanda Lobo

Monday, April 06, 2009

Ode Marítima


Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

Fernando Pessoa

Sunday, February 08, 2009

tomorrow is my turn




ATACAMA - laguna Chaxa.


What the future has in store no one ever knows before
All these years I’ve been learning to save fingers from burning...

Wednesday, January 28, 2009

"O escritor está à espreita, o filósofo está à espreita. É evidente que estamos à espreita. O animal é... observe as orelhas de um animal, ele não faz nada sem estar à espreita. Nunca está tranquilo."

Deleuze, n'O Abecedário



Lua e Panorama dos Insetos

(O poeta pede ajuda à Virgem)

Peço à Divina Mãe de Deus,
Rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos,
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em grandes montões para
serem comidos pelos pássaros.
Peço a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que tem o mercado,
essa multidão chinesa de cebolas decapitadas
e esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados.
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre gracejadora.
Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abarco a carna mínima do mundo.


Lorca

Thursday, November 27, 2008


Pessoal intransferível
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada nos bolsos e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, ?herdeiro? da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.
Torquato Neto

Sunday, November 02, 2008



Filhos de Orlon

Laura Erber

talvez porque prefira luz hiperbórea ao suor

fluorescência ao tato, brilho ao calor

já não quer saber do impacto narrativo

das mulheres cavalgando pela noite

em perfeitos conjuntinhos Edith Head

um torpedo do novo século leva o (amor) trivial

às alturas mal nascemos

nos embrulham em nylon

alarac dacron orlon

você e eu já nascemos com emoções

desconexas e courp vegetal

em 2007 um homem inventou a pílula

anti-arroto para vacas (reduz o efeito estufa)

mas isso ainda não explica porque algumas mulheres

param de comer

considerando as contradições sim ser

contemporâneo e mesmo

excitante

mas se por falta de peso ou de

umidade na córnea

eu preferir anacronismos

ao futuro da Sony Style

uma viagem de retorno

aosonho de mármore

de um escultor antigo deixar

que a gravidade- sobre

uma ninfa caindo

no bueiro, tudo bem-

faça o trabalho das dobras

faça dizer "moluscos"

polpudos! que me

roubaram 5

sonos da infância

e lembrar o vestido

que nas mesmas férias

(com a ajuda de um menino triste) tentamos

construir com sardinha

e algas

talvez seja só um furo no tempo

ou meu ciclo circadiano

comod izer a beleza ton-sur-ton

dos andarilhos da 040

quando

a memória do Atlântico

faz o seu retorno

em chuva ácida

(o strecht não era infalível

como pensamos)

Friday, October 17, 2008

Compadres...


Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su cassa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los Puertos de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
esto trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Compadre quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
No veis la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir!,
dejadme hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna,
por donde retumba el agua.
Lorca

Wednesday, September 03, 2008

O Rouxinol

Verlaine

Numa revoada azul de pássaros cantando,
descem-me ao coração as saudades, em bando;
descem à murchecida e lúrica folhagem
do meu peito, que mira a dolorosa imagem
sobre a violácea cor do rio da Amargura.

Tuesday, August 26, 2008


ÍTACA

(Tadução de Constantin Cavafis, de 1911)

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Posêidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Posêidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
Quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colônias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras: coral e madrepérola,
âmbar e marfim, e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto, para aprenderes
com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que láchegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras,
Ítaca não te traiu.
Sabio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido
o sentido de Ítaca.

Thursday, August 14, 2008

Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda

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