Tuesday, September 29, 2009

" Viveu, no espaço de tempo de uma batida de coração, os momentos capitais de sua vida. Via de novo os heróis que lhe tinham revelado a força e a prosperidade de seus longínquos antepassados africanos, fazendo-o acreditar num futuro melhor. Sentiu-se velho, velho de séculos incontáveis. Um cansaço cósmico, de planeta que o tempo fizera deserto de pedras, caía sobre seus ombros descarnados, suores e revoltas. Ti Noel gastara sua herança e, apesar de ter chegado à extrema miséria, deixava a mesma herança recebida. Era um corpo de carne já vivida. E compreendia, agora, que o homem nunca sabe por quem sofre e espera. Sofre, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e que, por sua vez, sofrerão, esperarão e trabalharão por outros que também não serão felizes, pois o homem deseja sempre uma felicidade muito além da porção que lhe foi outorgada. Mas a grandeza do homem consiste precisamente em querer melhorar a si mesmo, a impor-se Tarefas. No Reino dos Céus não há grandeza a conquistar, pois lá toda a hierarquia já está estabelecida, a incógnita solucionada, o viver sem fim, a impossibilidade do sacrfício, do repouso, do deleite. Por isso, esmagado pelo sofrimento e pelas Tarefas, belo na sua miséria, capaz de amar em meio às calamidades, o homem poderá encontrar sua grandeza, sua máxima medida no Reino deste Mundo. "

Alejo Canpentier, em "El Reino de este Mundo"

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