Wednesday, January 28, 2009

"O escritor está à espreita, o filósofo está à espreita. É evidente que estamos à espreita. O animal é... observe as orelhas de um animal, ele não faz nada sem estar à espreita. Nunca está tranquilo."

Deleuze, n'O Abecedário



Lua e Panorama dos Insetos

(O poeta pede ajuda à Virgem)

Peço à Divina Mãe de Deus,
Rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos,
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em grandes montões para
serem comidos pelos pássaros.
Peço a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que tem o mercado,
essa multidão chinesa de cebolas decapitadas
e esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados.
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre gracejadora.
Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abarco a carna mínima do mundo.


Lorca

No comments: