Sunday, August 30, 2009
Ao astronauta - Saramago
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
Friday, June 19, 2009
Saturday, May 09, 2009
Anti-Solar
Não sabem de quem.
Um do outro, da garoa, do escuro
São dois loucos sem saber
De quem apanham. Pra quê.
Da morte, do longe, do frio,
Da filosofia, da banalidade.
Da saudade.
Apanham um do outro. É escuro e madrugada.
Se perseguem, se riscam, se tocam paralíticos.
Paralítica é a noite e a lua. É a posse.
Paralítico é mais o medo e
O sonho é metade sonolento.
Um segue o outro. Apanha.
Ele desvencilha. O outro é sempre o outro.
Um é, às vezes, outro. E apanha
Daquela mão que supunha sua.
Não sabem que vão apanhar
De algum raio solar perdido na noite
Que espera dois loucos
Para matar-lhes o amor.
Fernanda Lobo
Monday, April 06, 2009
Ode Marítima

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?
Fernando Pessoa
Sunday, February 08, 2009
Wednesday, January 28, 2009
Deleuze, n'O Abecedário
Lua e Panorama dos Insetos
(O poeta pede ajuda à Virgem)
Peço à Divina Mãe de Deus,
Rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos,
que têm uma só letra em seu vocabulário,
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência do cavalo,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em grandes montões para
serem comidos pelos pássaros.
Peço a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que tem o mercado,
essa multidão chinesa de cebolas decapitadas
e esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados.
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre gracejadora.
Vizinha da salsa pesteada.
Sabes que eu abarco a carna mínima do mundo.
Lorca
Thursday, November 27, 2008

Sunday, November 02, 2008

Filhos de Orlon
Laura Erber
talvez porque prefira luz hiperbórea ao suor
fluorescência ao tato, brilho ao calor
já não quer saber do impacto narrativo
das mulheres cavalgando pela noite
em perfeitos conjuntinhos Edith Head
um torpedo do novo século leva o (amor) trivial
às alturas mal nascemos
nos embrulham em nylon
alarac dacron orlon
você e eu já nascemos com emoções
desconexas e courp vegetal
em 2007 um homem inventou a pílula
anti-arroto para vacas (reduz o efeito estufa)
mas isso ainda não explica porque algumas mulheres
param de comer
considerando as contradições sim ser
contemporâneo e mesmo
excitante
mas se por falta de peso ou de
umidade na córnea
eu preferir anacronismos
ao futuro da Sony Style
uma viagem de retorno
aosonho de mármore
de um escultor antigo deixar
que a gravidade- sobre
uma ninfa caindo
no bueiro, tudo bem-
faça o trabalho das dobras
faça dizer "moluscos"
polpudos! que me
roubaram 5
sonos da infância
e lembrar o vestido
que nas mesmas férias
(com a ajuda de um menino triste) tentamos
construir com sardinha
e algas
talvez seja só um furo no tempo
ou meu ciclo circadiano
comod izer a beleza ton-sur-ton
dos andarilhos da 040
quando
a memória do Atlântico
faz o seu retorno
em chuva ácida
(o strecht não era infalível
como pensamos)
Friday, October 17, 2008
Compadres...

Wednesday, September 03, 2008
Tuesday, August 26, 2008

Thursday, August 14, 2008
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda
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Friday, August 08, 2008
Para Maria da Graça

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.A realidade, Maria, é louca.Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou ?" É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinicerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
Monday, August 04, 2008
Pequenas ternuras
Friday, August 01, 2008
da rendição humana
Wednesday, July 16, 2008

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Wednesday, June 25, 2008
Xico Sá
Amigos e amigas, vai saber lá o porquê das somas completas dos inconscientes, mas num encontro na última quarta-feira, com Fred 04, no clube Clash, em São Paulo, falamos de tudo, principalmente da importância ou da desimportância do ônibus, o velho busao, o busão-blues de todas as esperas e bacuraus perdidos madrugas adentro.
Até criamos, na utopia mais avexada, um movimento cuja milhagem é a narrativa, o homem e a mulher em pé na parada. Pense. Tem gente que gamou, casou e fez filhos a partir dessa hora, né? Mãozinhas dadas no mesmo assento, zolhinhos gastos com a mesma paisagem a caminho de casa, ela descendo e a gente, cavalheiros no último, beijando a mão e a recebendo na rua, PRINCESA de todos os meios-fios e calçamentos!
Só vale na vida o que se conta de pé, o resto é alcova e fuleragem, fuleragem enquanto vingança do Nordeste, o melhor dos mundos, a nossa sabedoria particular, a nossa linda lição de existência tão grande quanto a sabedoria de Nietszche.
Pense numa peleja, pense num clássico da filosofia a perder a neve ou a miragem de Canindé de vista.
O que dizer, que balãozinho sobre nossas cabeças de eternos gibis e quadrinhos?!
O que se diz nessa hora, amigo?
Já passou o CDU/Várzea?
E o Radial/CDU? Donde CDU vem a ser Cidade Universitária, sigla e destino da minha amada e querida CEU, a residência da UFPE, donde habitei o quarto 101 com meus amigos de Carpina e outras zonas de matas e sertões afora.
A gente lá de pé cubando o movimento.
Pense num suspense.
Nada mais hitcockiano do que um ônibus dobrando uma esquina.
Pense numa espera!
Às vezes deitado e bêbado no cimento do Bar Savoy, sem um centavo no bolso e com o azul desbotado sem poder sequer apertar a mão do poeta Carlos Pena Filho, o maior simbolista brasileiro de todos os tempos, que já havia partido desta noutra linha da mão e da vida.
Sorte era a generosidade 24 horas de Jaci Bezerra, Tarcísio 7 e Alberto da Cunha Melo, que me tiravam da fome e ainda me davam o delírio da poesia e da comida.
Jaci, 7 e Alberto, além de grandes por si mesmos, vixe, são os T.S. Eliots, melhor, são os Walt Whitmans do meu estômago quente na chegada ao Hellcife, linha Crato via Princesa do Agreste, salve salve, Deus inapalpável, estes homens de carne, amor e osso.
Estes, entre outros, me revelaram a certeza do poema como sustância da humanidade.
Assim aprendi sobre poesia e homens, mas, como eu ia falando, ja passou o CDU/Várzea?
Pense numa espera de madrugas tantas. Pense até o pescoço entortar, pense enquanto passa boi, passa boiada e nada pra Caxangá, miséria humana, vida de gado, e quando dobrava da Madalena rumo ao Cordeiro o cheiro de galeto a me encher de fome de tudo, como reza a poética de Jorge du Peixe, meu ídolo.
CDU/Várzea, o destino, era o que este cronista, eterno pedestre, graças a Deus, indagava, ali dormindo no batente do cimento frio do bar Savoy, avenida Guararapes, Recife, anos um, nove, oito, zero, 1.980.
Uma forma de contar a vida e a possível luta de classes por intermédio das histórias aquém e além da catraca. Passa boi, passa boiada...
Thursday, June 12, 2008
"então, amor também acaba?"
O amor acaba
Agradecemos a J.Carino pelo envio da crônica.
(O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22).
Friday, June 06, 2008
O poeta ... "sem esforço entende/ A linguagem da flor e das coisas sem voz!" *

Tão ABSTRATA é a idéia do teu ser





