Friday, October 27, 2006



"O meu mundo não é como o dos outros;
quero demais, exijo demais,

há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem eu mesma compreendo.

Estou, no entanto, longe de ser uma pessimista,
sou antes uma exaltada!

Com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade...
sei lá de quê!"

_Florbela Espanca

Wednesday, October 25, 2006

I have a question: what the bleep do we know?


Rodrigo:
td q eu leio
(17:49) Rodrigo:
é q a palavra chave de hj
(17:49) Rodrigo:
da filososfia pós-moderna
(17:49) Rodrigo:
é " relatividade"
(17:50) Rodrigo:
td é relativo
(17:50) Rodrigo:
até mesmo nas matérias mais positivistas
(17:50) Rodrigo:
como quimica ou fisica
(17:50) Rodrigo:
os modelos subsistem ate descobrirem outro
(17:50) Rodrigo:
ou passam a servir apenas pra um pedaço dos fenomenos
(17:51) (: fê .:
putz
(17:51) (: fê .:
oh, céus!
(17:52) (: fê .:
lá se vao nossos paradigmas mais resistentes
(17:52) (: fê .:
em que nós vamos acreditar agora, irmao?
(17:52) (: fê .:
se nao mais nem na ciencia???
(17:52) (: fê .:
OH
(17:52) (: fê .:
que diabo é isso?
(17:52) Rodrigo:
na ciência mana ?
(17:52) Rodrigo:
a ciencia serve pra matéria
(17:52) Rodrigo:
essa ciencia capitalista
(17:52) (: fê .:
e a matéria é o mais baixo calao das coisas que existem.
(17:52) Rodrigo:
ciencia pragmática
(17:530 (: fê .:
por detrás de uma coisa material existem 700 milhoes de pensamentos
(17:54) (: fê .:
e suposiçoes e negaçoes ou confirmaçoes
(17:54) (: fê .:
até aquilo se concretizar como matéria.
(17:54) Rodrigo:
sim sim
(17:54) (: fê .:
entao, a matéria é a coisa mais rasa que tem
(17:54) (: fê .:
perto de tudo que existe ,sabe?

Rodrigo:
quer fritar ?
(17:55) Rodrigo:
olhe pra um objeto ae
(17:55) Rodrigo:
veja seus detalhes
(17:55) Rodrigo:
agora pense ?
(17:55) Rodrigo:
como vc tem consciencia desse objeto
(17:55) Rodrigo:
como vc vê ele ?
(17:55) Rodrigo:
quem vê ele ?
(17:55) Rodrigo:
sao os olhos ?
(17:55) Rodrigo:
é o cérebro ?
(17:55) Rodrigo:
vc é o cérebro que tem consciencia ?
(17:56) Rodrigo:
ou o cérebro é só um orgão
(17:56) Rodrigo:
e quem capta as sinapses do cérebro
(17:56) Rodrigo:
??
(: fê .:
é... ter certeza de alguma coisa
(17:58) (: fê .:
é tao inseguro quanto nao ter.
(17:58) Rodrigo:
aham
(17:59) Rodrigo:
mas qdo a gente pensa assim
(17:59) Rodrigo:
" sou eu e meu espírito.."
(17:59) Rodrigo:
é uma coisa
(17:59) Rodrigo:
mas se vc pensa
(17:59) Rodrigo:
" sou eu e meu corpo..."
(17:59) Rodrigo:
o espírito é a unidade consciente e pensante
(17:59) Rodrigo:
é diferente
(18:00) (: fê .:
de fato.
(18:00) (: fê .:
corpo nao infere à consciencia
(18:00) (: fê .:
e aí vai dizer que a única coisa certa é o espírito?
(18:00) (: fê .:
e o que é espírito?

[...]


(: fê .:
quem tá preocupado com "que porra sabe?" hoje, digo?
(18:32) (: fê .:
sabe de nada e quer é continuar sem saber de nada
(18:32) (: fê .:
pagando 300 conto em cada sertanejo
(18:33) (: fê .:
e enchendo a cara pra anestesiar a dor que é a sua própria companhia pra si.
(18:33) Rodrigo:
a ignorancia é uma benção né, mana?
(18:33) Rodrigo:
aristóteles ja disse
(18:33) Rodrigo:
o tal
(18:33) Rodrigo:
só sei q nada sei
(18:33) Rodrigo:
mas explicar as coisas
(18:33) Rodrigo:
é outra coisa, mais difícil do que saber delas
(18:33) Rodrigo:
então melhor fazer um leilão pelo coração
(18:33) Rodrigo:
repetidas e reiteradas vezes
(18:34) Rodrigo:
ir pro carná qq coisa
(18:34) Rodrigo:
outras tantas vezes
(18:34) Rodrigo:
e só
(18:35) (: fê .:
dormem, dormem...
(18:35) (: fê .:
há mais quem durma do que quem acorde
(18:35) (: fê .:
vai ser sempre assim?
(18:35) (: fê .:
foi sempre assim?
(18:35) (: fê .:
acordar dói.
(18:36) Rodrigo:
vai ser ainda mto tempo assim
(18:36) Rodrigo:
mas nem todos
(18:36) Rodrigo:
a lei da evolução pra mim é mto democrática
(18:36) Rodrigo:
acerta a todos
(18:36) Rodrigo:
qq hora dessa....
(18:37) (: fê .:
de alguma forma, as coisas acabam sendo justas e certas no fim. eu acho...

[...]

Rodrigo:
imagina mana
(18:39) Rodrigo:
a gente se encontrando
(18:39) Rodrigo:
enquanto espíritos
(18:40) Rodrigo:
e dizendo " nóóóó´q doido"
(18:40) Rodrigo:
é assim mesmo
(18:40) Rodrigo:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
(18:40) (: fê .:
hauihauiahuiahuiahuiahui
(18:40) (: fê .:
acho que os espíritos iam até ser parecidos
(18:40) (: fê .:
mas eu ia olhar assim:
(18:40) (: fê .:
putz...isso sou eu quando crescer, cara!!!
(18:41) Rodrigo:
e do jeito q sao nossos pensmentos
(18:41) Rodrigo:
vo te achar facim
(18:41) Rodrigo:
por sintonia
(18:41) Rodrigo:
afinidade
(18:41) Rodrigo:
quem chegar la primeiro espera o outro hein ?
(18:42) (: fê .:
combinado.
(18:42) (: fê .:
combinado agora nessa medida cronológica chamada 18:42 do dia 24/10/06.
(18:42) (: fê .:
hauihauiahuiahauiahauihaahuaihauia
(18:42) Rodrigo:
uhauhauhauhauahauhauhaha
(18:43) Rodrigo:
macooooooonhaaaaaaaa
(18:43) Rodrigo:
só pode
(18:43) Rodrigo:
a gente nem usa pra fritar...

[...]

isso é o que a gente faz com 54 minutos de conversa de computador!
e, sim! a gente tem mais o que fazer...
e das coisas que TEMOS que fazer pensar está incluso.

hasta, hermano! :*

Sunday, October 22, 2006





Quereria que amanhã não fosse tarde para dizer "eu te amo" hoje.
Suplicaria por isso a quem quer que fosse: amanhã não ser daqui a pouco tempo demais.

Tempo de ver fenecer o que se tem hoje.
É penoso admitir, eu sei. Mas amanhã já é bem tarde pra esses que amam demais.

Pra quem ama demais, tarde é breve. E tudo é tão grande e tão talvez inexprimível.
Tudo é tão grande e tão talvez...
Amanhã pode estar imortal o amor. Mas o "eu te amo" de hoje morreu... E ele morre bem vazio, bem desperdiçado, bem morno.

E talvez - pra que dizer "eu te amo"? Pra não ser tarde?
E pra ter raiva, mais tarde.
Mais tarde se tem raiva de se dizer um clichê pra quem também é.
Tudo bem. Eu não amaria clichês...

Mas eu sei que eu amaria clichês,
Seria completamente capaz de amá-los,
Porque meu apego se classifica tão ridículo quanto todos esses amores tidos.

Se amanhã não fosse excessivamente tarde pra dizer "eu te amo" hoje,
Aí eu pensaria menos em dizer. Ou menos pra dizer.
Pensaria bem menos em jargões, em palavras, em coisas tardias...
Mas amanhã é breve e bem rápido e bem tarde...



E eu aqui. Sem dizer de amor. Sem dizer de nada. Pensando em clichês parcos, em desperdícios medíocres. Desperdiçando cogitações em coisas mornas...
Ridículo. Ridículo tanto quanto o que foi dito de amor.


Fernanda Lobo

Wednesday, October 18, 2006


um dia degradê
começa com faces pálidas
avança com frontes cálidas.

um pouco de fumê,
embaçando fontes típicas
burlando mentes frígidas.

um pouco de blasé,
nenhum esforço válido,
em algum sentido ávido.

um pouco de azul,
passando pelo físico
chegando ao topo mágico.

se deita em um jornal
o degradê estúpido
dia findo em branco-pássaro.

Fernanda Lobo (para: Carol)

Tuesday, October 17, 2006


grávida

Arnaldo Antunes

eu tô grávida
grávida de um beija-flor
grávida de terra
de um liquidificador

e vou parir
um terremoto, uma bomba, uma cor
uma locomotiva a vapor
um corredor

eu tô grávida
esperando um avião
cada vez mais grávida
estou grávida de chão

e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
dar à luz

eu tô grávida
de uma nota musical
de um automóvel
de uma árvore de Natal

e vou parir
uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
um cartão postal

eu tô grávida
esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão

e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
vou dar a luz .

" A tradição é a personalidade dos imbecis. "

Einstein

Wednesday, October 11, 2006

Grito Interno


A quebra do silêncio que só você escuta.
A quebra do silêncio que só, você escuta.

CG

Friday, October 06, 2006

L'air du large- Claude Théberge

panis et circensis-

eu quis cantar
minha canção iluminada de sol

soltei os panos sobre os mastros no ar

soltei os tigres e leões nos quintais

mas as pessoas da sala de jantar
são ocupadas em nascer
.
.
.
.
.
.
e morrer.

Tuesday, October 03, 2006

Não sabendo que era inevitável, foi lá e mudou.

Não pude não re-pensar o que se faz, politicamente, no mundo por estes dias nessa atmosfera eleitoral. Triste por ter que ver uma lamentável crise ética- apoiada por milhões de brasileiros, intencionados em reeleger o presidente Lula- contra um partido explicitamente neoliberal, representado por Geraldo Alckmin- que retoma o governo de FHC, segundo ele mesmo- nessas eleições.

O neoliberalismo parte do princípio de que os indivíduos são estruturados para buscar seu próprio interesse e esses mesmos interesses acabam sendo coletivamente positivos. Gostaria de saber por que os seres humanos não podem ser concebidos como estruturados para colaborar, partilhar.
O supracitado modelo econômico quase retoma um "iluminismo primitivo" quando pressupõe uma natureza egoísta do ser humano e a tem como positiva, em termos de "competitividade natural". Dá-se um darwinismo tão absurdo, quanto incapaz de considerar as capacidades e evoluções intelectuais que levam o ser humano a SER HUMANO.

Pode parecer uma visão pouco pragmática da política, mas um bem-estar social ótimo - no sentido de alcance máximo - só pode emergir espontaneamente em uma sociedade com muita ambição, a maior quantidade de ambição que se possa ter em si, mas ambição para o coletivo. Claro que a cupidez competitivo individual e a ganância são inatos, existem desde sempre, mas eu acredito na capacidade humana de racionalizar, adquirir a percepção de que esse "instinto" só levará à ruína a coletividade e, por último, ele mesmo.

O que seria a livre concorrência neoliberal? O que é ser livre?
A concorrência seria livre no caso de todos os concorrentes terem a possibilidade de partir do mesmo ponto - do capital inicial ao de giro. Mas os seres humanos não nascem iguais. E nem livres.

No Direito é o fato que faz nascer a norma, porque as ações levam ao padrão. Nesse caso, poderíamos dizer que o neoliberalismo é uma ciência um tanto fúnebre, haja vista os números de horror e miséria que esse modelo vem trazendo desde que ganhou força, sendo 80% da riqueza do planeta distribuído por 29 países e os lamentáveis 20% aos outros, aproximadamente, 200 países do globo. Este fato levará a que padrão?

É verdade que ideais como direitos humanos, consciência ambiental e justiça são inegáveis entraves ao auto-interesse e à ordem natural. O que me entristece no neoliberalismo é exatamente serem os nossos bons ideais os empecilhos que tornam a realidade pior do que a teoria.

Por que eu deveria ser considerada errada ao “misturar" valores políticos e sociais à economia? Por que eu teria de agir da mesma forma padronizada por essa idiossincrasia: trabalhar para possuir e possuir para consumir e trabalhar um pouco mais para consumir um pouco mais e assim garantir o equilíbrio desse modelo?

Os países ricos - para ser bem simplista - que condenam os países que tomam medidas protecionistas em suas indústrias nascentes o fazem porque isto "prejudica a economia global". E me diga você porque eles teriam que vender seus produtos a custo mínimo? O que custa isso a um país? E por que motivo os políticos neoliberais afirmam que os sindicatos distorcem mercados? Não são estes também dignos de direitos?

Também estou cansada de pessoas taxarem idéias não-capitalistas de juvenis ou ufanistas, contra a grandíssima experiência e perícia neoliberal. A diferença básica está só em quem aceita o que acha inevitável e quem não aceita. Eu só acredito que a economia não deve estar separada de um pensamento filosófico cognitivo humano e que o enriquecimento válido não é apenas o material.

Pode ser que eu sucumba também uma hora dessas à necessidade de me vestir e de comer, e nem me lembre de ser idealista tendo que dar educação e comida a um filho: outro ser humano. E tudo vai continuar girando como está e milhões de pessoas continuarão morrendo - de fome, falta de calorias (!!!),mas só eu me assombro com isso . Mas aí há de ser só mais um pouco de boas intenções evaporadas pelo grande sol neoliberal. Se ele evapora até todos os direitos humanos e ambientais que se conseguiram com tantas lutas na História, não há de evaporar minhas pequenas (grandes) crenças?
O que é que se pode evitar?

Fernanda Lobo
Claude Théberge; Le Baiser.




Incenso Fosse Música

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além





-Leminski

Saturday, September 23, 2006


Entrega

O mais engraçado em pessoas completamente insanas são seus surtos de lucidez, quando “acham que estão ficando loucas”, ela se ria.
Ela não via motivos racionais naquele prazerzinho recorrente que tinha em coisas que a mantinham longe, de certa forma. Longe da maior parte, um tipo de exclusão, feita por ela mesma, um ostracismo mais ameno. Ela cultivava seus momentozinhos e o seu jeito de caminhar só, que pra ela a faziam parecer protagonista de uma biografia. Uma em que se nasce todos os dias. Ela nascia, nascia até o dia de morrer.
Não sabia demais a respeito daquele dia de morrer, porque já havia nascido vários dias e já havia se pendurado em várias certezas absolutas sobre o dia de morrer. Agora, ela se abstinha, de forma covarde, de ter uma certeza absoluta. Sabia-se covarde e cada vez que confirmava essa “virtude” magnífica, parecia-lhe descer dos céus um espelho que se postava à sua frente e mostrava a ela uma face que era sua, mas era muito mais pálida e um rosto medroso, que não costumava ser seu. Isto acontecia todas as vezes em que se atrevia a não ter certeza absoluta.
Se atrever, ela se atrevia. Ah, isso é! Andava se atrevendo até mesmo à covardia de uns tempos pra esses. Se atrevendo a não fazer, se atrevendo a medir, se atrevendo a esperar. Isto era um atrevimento, considerando-se as virtudes e vícios que se sobrepunham como tijolos na personalidade que passara todos esses não muitos anos cultivando.
Andava entendendo algumas coisas. Andava entendendo que as pessoas faziam coisas absurdamente grandes e difíceis, apesar de quase sempre vazias. E, para isso, era preciso fazer coisas pequenas sempre e com perseguição, e as coisas pequenas não eram menos difíceis.
Ela se sentia uma estúpida tantas vezes por só ter nascido agora! Poderia ter nascido tão antes e feito tantas coisas mais... Mas se esquecia de que ela levaria consigo essa lamúria até o dia de morte. Porque sempre se recusaria a não nascer todo santo dia. Pra fazer do santo dia herege. Ou santo.
Ela queria mais. Mas às vezes achava que queria só por querer. Precisar, não precisava. Isso até alcançar e não saber mais como vivia com menos, de tão repleta que se sentia. Naqueles momentos em que ela mesma se tornava uma música... Sentia-se dissipar pelo ar e compor-se novamente em contorno de notas musicais. Um chorinho, uma percussão cubana, solos do Bolero de Ravel, sustos de tango...
E ela gostava de conversar. Conversar como um rio. E foi reparando que as pessoas andam escassas para conversas como rios. Não porque não tenham eloqüência, mas, exatamente, pelos seus excessivos cursos de retórica; pela feiúra que ela achava os que estavam sempre tentando desesperadamente provar algo a alguém, a si, a um mundo tão caduco!
Deus meu! As pessoas se desdobram em um milhão de outras para provar algo a alguém invisível, a um oráculo sórdido que grita: “compre e seja feliz!”, e ainda descontam sua necessidade de provar nos visíveis ao redor. Elas só querem encher os olhos e os ouvidos alheios com o que andaram fazendo de quase faraônico para se sentirem aceitas. Ela achava feio, mas tinha que sorrir. Um sorriso que doía por dentro, a torturava nos órgãos fundamentais. Sorria porque era obrigada a fazê-lo. Não tinha outra saída. Não podia chorar e dizer àquele ser abarrotado de vantagens o quanto ele era feio. Feio e pegajoso como um verme. Um verme débil, parasitando egoísta e nesciamente.
Além de apreciar conversas, num desses nascimentos, ela descobrira o quanto gostava de não conversar. Não de tentar conversar e ver um assunto a ser discutido com calor se esvair até puros testes do canal. Não. Ela gostava de não ter que conversar. De se sentir confortável não conversando. Adorava aquele medinho de falar em momentos tão nobres e irretocáveis e desencadear, assim, algo que pudesse espantar aquela atmosfera, como quem espanta peixes na pescaria só pela vozearia e tira do pescador o alimento de todo um dia.
Há momentos que não devem ser trocados por verbetes pronunciados. Nem por descrições tardias. Tentar descrever certos momentos, ela já sabia, seria como assaltá-los de forma excessivamente bárbara, torturá-los, chutá-los e deixá-los estrebuchados em um chão qualquer, como quem tira a essência e abandona a matéria abominável. Pronto. Aquilo era a descrição de instantes indescritíveis.
Poder escrever era, para ela, um tipo de abuso desejável. Como se ela fosse se despindo. Peça por peça. Se desnudando palavra por palavra. E cada palavra a mais no papel, era um esconderijo a menos nela mesma. E ela entregava um a um de seus esconderijos em letras, derrubava muro por muro em frases, movia suas altas e íngremes montanhas em pequenos poemas.
E ela era, inúmeras vezes, tomada de súbito amor. Amor daqueles que se sabe que é amor, não pode ser mais nada. E um amor destinado a quem acabava de chegar sempre, a quem nunca vira antes, por meninas tão jovens, negrinhas, lindas. Por mulheres tão velhas e tão sem brilho de tanto altruísmo. Era tomada de amor por meninos tão pequenos, tão sapecas, verdadeiros; por homens tão donos de si, tão auto-suficientes, tão carentes... Era, de repente, um amor que surgia em qualquer lugar, dos mais inóspitos aos mais corriqueiros, e poderia ser destinado a qualquer pessoa, só pelo que ela tinha certeza do que via em seus olhos, como se a íris redonda fosse a maquete de um mundo redondo.
Nesse amor, ela gostaria de se deter mais, porque isso realmente a extasiava e a deixava sempre naquela esperança de que ocorresse novamente. Porque ela se sentia prestes a chorar sem lágrimas, gritar sem voz, pular até uma nuvem, sabendo não ter pernas suficientes para tal. E aí, ela impetuosamente queria declarar esse amor repentino. Queria encontrar uma maneira, sei lá! Não sei. E perguntava no máximo o nome e tentava dar, de presente, o seu melhor sorriso. E muitas vezes a criatura subitamente a ela amável tinha medo, como aquela menina negrinha, que lhe entregou logo o chiclete que vendera; pronunciou o nome rapidamente; sorriu grande, mas nervoso; virou-se e foi. Com uma roupinha meio rosa, bem desbotada e uma parafernália para engraxar nos ombros, como um pequeno Cristo e sua cruz. E ela ficou ali passada, abandonada, amando até o fim aquela negrinha. Era um amor desvairado, mas tão consolável. Facilmente consolável por gestos pequeníssimos.
Havia quem percebesse o seu amor imprevisto e não tivesse medo dele. Havia até quem sentisse o mesmo, quase ao mesmo tempo e, então ela via que era a hora de se abandonar, de pular de um lugar alto só pra sentir uma brisa nova tocar seu semblante, em um deleite único por haver quem compartilhasse com ela aquela mania lunática de sentir. E a impressão que sobrava a ela era que ali, naquela força imensa reduzida a uma medida cronológica e espacial, ali se formava um deus, grande, suntuoso, acima do que eram todos, um Grande Poeta talvez. E esse deus crescia por si, sem necessidade de ser alimentado todos os dias, mas que a alimentaria se ela voltasse até ali. E alimentaria a quem mais ousasse amar com ela.
Às vezes, ela se sentia muito tentada a abraçar todas as dores do mundo. E era aí que não sabia até onde essa tentação se tornava martírio. E se confundia de forma absoluta, porque chegava a interrogar se sua existência e a vida que levava não ofendiam a quem nunca teria possibilidade levar aquela vida. Não era lá grande coisa de vida também, mas havia vidas tão absurdamente subumanas que a agrediam. Ou era ela quem as agredia. Não sabia. Dava-se à confusão dolorosa.
O certo é que havia quem ofendesse a ela e aos arrastadamente sobreviventes - e aí ela se sentia do lado destes-, mas aqueles jamais se desocupam de contar cobres pra pensar em quem ofendem. E ela arquivava consigo um asco, uma repugnância, um aborrecimento pelas coisas que pareciam sempre girar na órbita da posse.
Descobria-se encabulada, muitas vezes, com a necessidade que as pessoas têm por lugares-comuns, a avidez delas por explicações plausíveis para o clichê que são. Até quando não conseguiam enquadrar carinho, conversas, palavras, beijos, sexo, abraço em uma palavra dessas obviedades não se davam por satisfeitas. Não sossegavam em deixar as coisas serem só o que eram e ficavam loucas atrás de um rótulo, uma embalagem. Quem ensinou isso a elas, afinal?Poderia fazer o colossal favor de ensinar algo proveitoso, que desfizesse essa palhaçada? Vendar os olhos e provar uma fruta cujo nome se desconhece é tão mais colorido, mais leve, mais intenso e honesto. Mas ela sabia que era uma tentação, uma corrupção corrosiva a que as pessoas não conseguiam resistir e colocavam rótulos e mais rótulos, até que se tornassem elas mesmas uvas passas em conserva. Tão conservadas que chegavam ao último dia da data de validade, petrificadas: o dia de morrer.


Fernanda Lobo (in-completo)

Thursday, September 21, 2006


"... mas quem dará o balanço dos projetos humanos que se frustraram,
dos abraços que se negaram, dos beijos paralisados, tudo por medo?
Quem dará o balanço do medo que nós tivemos? ”


• Fernando Gabeira

Sunday, September 17, 2006


OS ARAUTOS NEGROS

Vallejo



Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles
a ressaca de quanto foi sofrido
se empoçara na alma... Eu nem sei!

São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.

São as caídas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.

E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como
quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;
volve os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

Monday, September 11, 2006


" como estão juntos os países

nas lições escolares

e duas comarcas se confundem

e há um rio perto de um rio

e crescem juntos dois vulcões..."


Neruda

Thursday, September 07, 2006


" Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento Lua nova a clarear
invento o amor
E sei a dor de me lançar

Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais e sei a vez de me lançar."

-Milton Nascimento

Monday, September 04, 2006


Eu vou me completando.
Me completo até quando a incompletude me for bastante.
Porque ser inteiro não quer dizer ser completo.
Ser inteiro sei o que é, e ser completo desconheço.

Vivendo cada coisa sem futuro, eu me completo.
Eu colho as rosas e ajunto os cacos depois, já que gosto de ser assim: de rosas e cacos.
Posso escolher juntar só rosas, ou só cacos. Mas eu quero os dois.

Vivendo cada assunto desimportante, completo a parte fundamental.
Vivendo cada onda que eu não sei de onde vem, ou aonde vai dar,
eu só quero me tornar o mar- conter todas as ondas.

E, conhecendo coisas que não vão dar em nada, eu conheço pequenas porções de completude.

Porque só é grande quem nunca é completo- quem diria estar a grandeza no que falta?- e maior é aquele a quem basta seu existir. Incompleto.

Fernanda Lobo

Friday, August 18, 2006


Por vezes, gosto de estar só.

Só comigo.

Só. Sem mim.

Só, sem o que pensam que sou.

Só, sem as flores que vêem em mim.

Só, sem os espinhos que ostento. Os tenho.

Só, sem os olhos, que me desdobram em tantos serem sobre mim.

Só, sem a partida e a parada.

Só com a chegada.

A chegada de um ente querido que, há tempos, não encontro:

eu mesma. Eu só.

Fernanda Lobo

Tuesday, August 15, 2006


Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

PARADA CARDÍACA

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Paulo Leminski

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,

eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski

Thursday, August 10, 2006


" Posso experimentar. Posso. Vou experimentar. Ir. Sem tomar direção, sem saber do caminho. Pé por pé, pé por si. Deixarei que o caminho me escolha. Vamos."

Guimarães Rosa

Tuesday, July 18, 2006


Balada De Agosto

Zeca Baleiro

Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras
Que não digo

Mesmo na luz não há quem possa
Se esconder do escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido

Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha
Nos teus olhos

Wednesday, July 12, 2006


Nem sou tão de me isentar da culpa que tenho, mas nesse ponto não vejo falta em mim, já que não se pode imputar pena a uma criança que, de repente, é pegada desprevenida pela imagem da guloseima. Não pode senão a venerar e a querer.
Fui também pegada desprevenida por isso, que são as coisas que existem, e não posso me ver culpada por querer tudo.
Como o homem que perde a linha de passagem entre admirar as belas pernas e querê-las, eu passei, por impulso- é verdade- , a ponte que passa de admirar tudo ao querer.
Não me detenho apenas a me entregar a essa demanda insana de tudo, mas há momentos em que não parece haver o que seja melhor do que nada. Isso porque, para mim, não basta o que é dito melhor do que nada.
Todavia, não pretendo que meu tudo seja sem limites. Limites, os odeio. Mas eles imperam. E me dão um consolo árduo de que quero um tudo com limites.
Existe o que eu não queira. E se não quero é pelo exclusivo motivo de não ser parte do meu tudo. Existe o que não desperte em mim interesse e dói ver limites assim em mim mesma.
Mas o tudo sem limites talvez fosse pior, quiçá impossível.
Também, a que vastidão de nada me levaria o querer tudo só para mim. O querer tudo sem colocá-lo à disposição de outrem. Sem fazer do transbordo do tudo, fonte que dê de beber a quem bem quero..
Não vejo onde me esconder desse querer: a criança já viu o doce, o homem já viu as pernas e eu me torno a cada dia o tudo que quero..e vão é sacudir a cabeça aliado àqueles tapinhas que pretendem exorcizar um hóspede indesejado de querer tudo: está aqui e é lamentável admitir, mas eu não tenho culpa.

Fernanda Lobo

Tuesday, July 11, 2006

CURTA!!!

http://media.putfile.com/balance/320

Christoph e Wolfgang Lauenstein, Alemanha.

ps.: O Castigo do Egoísta

Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem. O castigo do egoísta está em só disso se aperceber sob a férula (castigo), tentando em vão aprender a caridade, por interesse.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

O Homem - Um Ser Egoísta

O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Nas suas acções baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: 'Tudo para mim e nada para os outros' é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.

Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'

Saturday, July 01, 2006


Eu gosto mesmo é de poesia!
Nada parecido com letrinhas miúdas, simétrica e proporcionalmente colocadas em um papel.

Gosto de poesia. Mas a outra.
A poesia de que gosto é o que as poesias me provocam: é o que se parece com lágrimas sublimadas e me enche num soar de sílabas, num unir de palavras inventadas umas para as outras.

A poesia de meu gosto é aquilo que nao se sabe ser frio ou quente e que vai nao se sabe se na espinha ou no estomago como uma estrela cadente na virada repentina da música, ou quando o cantor pronuncia a palavra diferente. Uma palavrinha.

Poesia boa é, na viagem, encostar a cabeça na janela do carro e respirar, por ali mesmo, os novos ares que estao por vir, como se só o passar veloz das árvores verdes e o permanecer pacífico do céu azul já fossem suficientes para trazer tais ares.

Poesia mesmo é ter amigo. Amigos sao tao rudes(de várias formas) e, por vezes, tao desinteressantes. Mas aquela afobaçao que nao sabem esconder diante de qualquer esboço de lágrimas do amigo é poética, porque sentem que isso lhes dói mais do que se tivessem culpa.

E eu gosto dessa poesia que é o vento batendo no rosto, enquanto caminho só. E canto.

Gosto é dessa poesia amarga que me fala de todos os metros quadrados nos quais eu gostaria de estar, enquanto sei que estarei em poucos deles- mesmo querendo a rima de todos os lugares que existem.

Abraço de mae tem outra poesia: voce está escondido, sente que nada vai mudar, e se sente confortável assim mesmo.

Sorriso de irmao é poesia escrita em dialeto. Só eles sabem ler.

Poesia pode até ser tardia, como conselho de pai. A forte poesia. Mas que só se sabe ler depois de ter lido várias- e consultando o dicionário.

A outra poesia é o segundo antes do beijo, é a cabeça rodando antes de dizer o que vai dizer, é ver futebol torcendo de verdade, é pisar o chao depois dos piores sapatos, é uma surpresa azul, é um filme que eu nunca conseguiria bolar e- por que nao?- uma boa prosa em preto e branco que eu traduzo para poesia verde e vermelha, para as cores que eu bem entender...

Fernanda Lobo

Wednesday, June 21, 2006


Só que, às vezes, queria saber como seria não me ser.

Ser outro. Ser você. A impressão que tenho é a de que minha existência se vê limitada. A mim.

E isso me provoca uma inquietude incurável. Isso me põe na alma a extensão um moinho, que gira todo o tempo pela mesma tarefa, pelo mesmo fim, e tem sua existência limitada a ser o que é.

Talvez, exista, fora de mim, algo diferente desse ciclo, dessa forma, dessa linha, do limite. Talvez, haja fora, um trajeto melhor, pior, diferente... talvez.

Talvez, seja tudo igual.

Talvez, quando eu me vejo reagindo, eu seja só um animal, uma presa ameaçada por um caçador, tentando sua defesa, por vezes, vã.

Talvez, quando eu chore, seja só uma nuvem que se desfez quando não agüentou a densidade do que o sol, o próprio sol da vida, fez com que chegasse a ela.

Talvez, minha vida não passe do terremoto, dos movimentos de placas tectônicas, que fazem inexistir segurança, o estável, a certeza...

Talvez, eu não seja mais do que o mundo, devo ser só isso tudo... Talvez seja tudo igual. Dentro e fora.

Mas eu ainda acho que talvez, haja algo, fora de me ser, que eu deveria conhecer.

Fernanda Lobo

..."Se o sol se cansa
e a noite lenta quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente, inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan e o do sol".
Maiakovski

Monday, June 19, 2006


Katherine Mansfield

Meu espírito está quase morto. Minha fonte de vida, tão faminta que secou. Quase todas as minhas melhoras de saúde são pura farsa - teatro. Que significam? Posso caminhar? Apenas me arrastar. Posso fazer qualquer coisa com as mãos e o corpo? Nada. Sou uma inválida sem esperança alguma. O que é a minha vida? A existência de um parasita. Cinco anos já se passaram, e estou num cativeiro mais estreito do que nunca.
Portanto, se o Grande Lama do Tibet prometeu ajudar - como pode hesitar? Arrisque! Arrisque tudo! Não dê importância à opinião dos outros, àquelas vozes. Faça o mais difícil nesta terra para você. Aja por si mesma. Enfrente a verdade.
Certo, Tchekov não a enfrentou. Sim, mas Tchekov morreu. E sejamos honestos, o que sabemos de Tchecov a partir de suas cartas? Isso foi tudo? É claro que não. Não é de se supor que ele tenha tido uma vida inteira de desejos sobre a qual dificilmente se encontra uma palavra? Leiam-se as últimas cartas. Ele abriu mão da esperança. Eliminando-se os elementos sentimentais dessas cartas finais, elas são terríveis. Não há mais Tchecov. A doença o tragou.
Mas talvez, para as pessoas que não estão doentes, tudo isso seja absurdo. Nunca viajaram por essa estrada. Como podem saber onde é que estou? Tanto mais razão para avançar ousadamente, sozinha. A vida não é simples. Apesar de tudo o que dizemos sobre o mistério da Vida, quando chegamos perto, queremos tratá-lo como se fosse um conto infantil....
Mas, Katherine, o que você quer dizer com saúde? E por que você a deseja?
Resposta: saúde para mim significa poder viver uma vida plena, adulta, viva, de fôlego, em contato íntimo com o que amo - a terra e suas maravilhas - o mar - o sol. Tudo a que nos referimos quando falamos do mundo externo. Quero entrar nele, fazer parte dele, viver nele, aprender com ele, perder tudo o que em mim é superficial e adquirido e tornar-me um ser humano direto e consciente. Quero, compreendendo a mim mesma, compreender os outros. Quero ser tudo o que sou capaz de me tornar, para que possa ser (e aqui parei e esperei, mas não adianta - só há uma expressão possível) uma filha do sol. Sobre ajudar os outros, carregar uma luz e assim por diante, parece falso dizer qualquer palavra. Fiquemos com esta Uma filha do sol.
Depois, quero trabalhar. Em quê? Quero viver de modo a trabalhar com as mãos e o cérebro. Quero um jardim, uma pequena casa, grama, animais, livros, quadros música. E a partir disso tudo, para exprimi-lo, quero escrever.
Mas uma vida quente, ávida, viva ¿ enraizada na vida - para aprender, desejar, saber, sentir, pensar, agir. É o que desejo. Nada menos. É o que tenho de tentar."

Algumas Cartas e Trechos do Diário, ed. Noa Noa, 1988, tradução Rosaura Eichenberg

Saturday, June 17, 2006


" é mais fácil cultuar os mortos que os vivos

mais fácil viver de sombras que de sóis

é mais fácil mimeografar o passado

que imprimir o futuro. "

Sunday, June 04, 2006

Há quem encontre o fio da meada...


"Como todo ser vivo, procurei atingir meu ser e, para isso, inspirei-me nas experiências nas quais tinha a ilusão de haver chegado a isso.

Conhecer era, como em minhas contemplações infantis, oferecer minha consciência ao mundo, arrancá-la do nada do passado, das trevas da ausência; parecia-me realizar a impossível união do em si e do para si, quando me perdia no objeto que olhava, nos momentos de êxtases físicos ou afetivos, no encantamento da lembrança, no pressentimento entusiasta do futuro.

E desejava também materializar-me em livros que seriam como os que amara, coisas existindo para o outro, só que marcadas por uma presença: a minha.

Toda a busca do ser está fadada ao fracasso; esse mesmo fracasso, porém, pode ser assumido. Renunciando ao sonho vão de nos tornarmos deus, podemos satisfazer-nos simplesmente em existir. Saber não é possuir e, no entanto, não me canso de aprender. Desejava participar da eternidade de uma obra na qual me encarnaria, mas principalmente queria ser ouvida por meus contemporâneos.»

Simone de Beauvoir

Tuesday, May 30, 2006


Sentir um grito é mais do que ouvir.
É estremecer dentro, mesmo se não se sabe ser o grito de liberdade ou pavor.

Sentir as palavras é mais do que ler.
É saber um acréscimo de estranhamento em si, estranhamento por ter sido abusado dentro de si um lugar nunca tocado. Abusado por palavras. É se deixar exorcizar pelo inteligível.

Sentir um sabor é mais do que gostar.
É se entregar a um delírio tão momentâneo quanto consumidor, é querer mais o prazer do que o prêmio.

Sentir um perfume é mais, é bem mais do que cheirar.
É ter certeza de que o momento existe, é se saber em um sonho quase realizado. Realizado até que finde. Sem lembrar que findará.

Há sons que ultrapassam a sonoridade, há sons que trazem gostos; que têm mãos para enfiá-las em seus seios. E arrancar em enxurradas o que houver de mais compacto.

Há cheiros que se eternizam.

Há palavras que têm vida, que confrontam, que entendem.

E há vidas que, sentidas, ultrapassam respirar, ultrapassam uma biologia funcional. São as que se deixam invadir pelo que há que se sentir por detrás do que existir.

Fernanda Lobo

Saturday, May 27, 2006



fernanda diz:
os dois tão conversando longe, mas parece que tão perto ,sabe?
fernanda diz:
rindo...
fernanda diz:
uma paz....
luisa diz:
vou ver
fernanda diz:
adoro janelas grandes
luisa diz:
tb!
luisa diz:
adoro a janela do meu quarto novo pq ela é grande
luisa diz:
a do outro era pequena
luisa diz:
;/
fernanda diz:
é... a minha é grande
fernanda diz:
faz minha vida muito melhor a minha janela
fernanda diz:
minha janela e meus travesseiros
luisa diz:
essa janela é muito muito grande
luisa diz:
bonita mesmo a foto
fernanda diz:
num é?
fernanda diz:
delicia
fernanda diz:
eu fiquei um tempão olhando essa foto
fernanda diz:
vou por no blog
fernanda diz:
q q eu escrevo?
luisa diz:
coisas simples, mas fundamentais
luisa diz:
janelas e travesseiros
fernanda diz:
a gente é muito amelie tb com essas ondas
luisa diz:
hm.. escreve o que vc me disse
luisa diz:
que eles tão longe mas parece que estão perto...

Thursday, May 25, 2006


"Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim".

Cazuza

Wednesday, May 17, 2006


... A palavra
Pablo Neruda


Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.


*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

Thursday, May 11, 2006

Pose pra foto, meninos de rua!


"Eles são deuses
Eles não são
Eles são deuses
Claro que não
Eles são deuses
E ninguém é
Eles são deuses
Porque são deuses
Porque só deuses
Vivem sem fé."

Saturday, April 29, 2006

Sartre




A autenticidade exige que se aceite sofrer,
por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo.
Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer.
Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos.
É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico.
Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade.

Tuesday, April 11, 2006


Se você olhasse a lua
Meu olhar nela estaria
Esses olhos se encontrariam
E logo, eu existiria
Nas marés de gestos seus
Sentir a luz costumeira
Dos fulgores que foram breus.

Se você escolhesse uma estrela
Dentre todas, seria a que vejo
E eu veria o sorriso a que não me acostumo
E seria uma imensidão de danças de estrelas
Solitárias, inadequadas e belas
Em infinitudes de sons
Ritmados, harmônicos e quentes...

Seria noite de profundidades
Na qual a Lua embaçaria o real
E eu não mais acreditaria no visível
E a verdade não seria o sombrio ,
Mas a Lua emprestando de uma estrela brilho para si
E eu emprestando para mim o brilho. De você.

Thursday, April 06, 2006

"Ah, não! Já acabou??? Num acredito!"


é assim que se diz quando se lê um livro de Neruda terminado com esses versos:

"porque assim nos parece que é o mundo:
uma pista infinita de campeões
e em um lugar nós, esquecidos
por culpa talvez de todos os outros
porque eram tão parecidos conosco
até que roubaram seus lauréis,
suas medalhas, seus títulos, seus nomes."

Monday, April 03, 2006


Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Neruda

Tuesday, March 28, 2006


Cola o teu desenho no meu
Pra ver se cola
Cola o meu retrato no teu e me namora
Comigo nessa dança
Um sonho de criança
E o meu coração colado ao teu
pra ver se cola... =)

Friday, March 24, 2006

" Ei, senta aqui. Ouve essa música! "


Abre os teus armários.
Eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços castos.
Cobre a culpa vã
Até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo.

Canta que é no canto que eu vou chegar.
Canta o teu encanto que é pra me encantar.
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você.
Que explique a minha paz.Tristeza nunca mais.

Vale o meu pranto que esse canto em solidão.
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas.
Abre essa janela
A primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota.

Canto que é de canto que eu vou chegar.
Canto e toco um tanto que é pra te encantar.
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você.
Que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.

Marcelo Camelo

"casa pré-fabricada" com Los Hermanos
"casa pré-fabricada" com Maria Rita
"casa pré-fabricada" com Los Hermanos
"casa pré-fabricada" com Maria Rita
...

assim o Media Player hoje... =)

Thursday, March 16, 2006

Friday, February 24, 2006

Saturday, December 31, 2005

Incompreendido só



Nem preciso de que alguém me entenda.
Ninguém me entender já é o bastante .
Isso de querer demais
Isso de sentir demais coisas muito belas
É isso o que me estraga .

Nem quero que alguém me console .
Ninguém me consolar é o bastante pra que eu perceba que sou só eu .
E isso aqui que agonia demais
Isso que fere demais intencionalmente
É isso o que me tira de só um querer modesto...

Não preciso de juízo ausente.
Sem estar enterrado, ninguém vai entender.
Entender porque eu planto e não quero a ceifa,
Porque eu nasço e não acredito em morte.

E fica isso tudo se debatendo
Isso tudo de chorar e embotar os olhos quando se quer ver
Isso de perder palavras quando se quer dizer de deslumbramento
Isso de querer, e não conseguir sentir nas mãos arrebatamento.

Nem dá pra esperar que alguém perceba
É querer demais que compreendam um denso desconsolo,
Uma enfadonha insatisfação acobertada por placidez.
Não posso exigir que sufoquem suas lógicas ponderadas
Pra entender isso tudo aqui.


Fernanda Lobo

Saturday, December 17, 2005


As seis cordas

Federico Garcia Lorca

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

Wednesday, December 07, 2005



Procurar-me assim não é sinônimo de encontrar.
É sinônimo de buscar, buscar mais um pouco...

É buscar uma certa profundidade no que parece superficial.

É notar uma certa ignorância ávida por conhecimento.

Procurar o que eu sou demanda uma certa coragem, a coragem que me sobra muitas vezes...
É buscar alguma melancolia num mundo de sorrisos, sons sistêmicos...

É não encontrar respostas, mas ouvir perguntas que ecoam e não querer outra coisa, senão buscar.

Procurar-me faz deslumbrar um resquício de nobreza, de força, de olhos fixos e adiantes...

É recusar uma cegueira quase inevitável.

Não cabe a mim dizer o que sou, mas ser.

Não cabe a mim respirar sem liberdade, dizer sem sentir, sentir sem dizer...
Não cabe a mim ser perfeita, porque o erro me pertence e me possui, mas o aprendizado também.

Procurar-me não leva a uma estrada branca, mas ao que explode em cores, dores, amores...

Encontrar-me é o impossível. Desistir de encontrar-me também.
Fernanda Lobo


Saturday, November 26, 2005

> "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes, os últimos versos que lhe escrevo.">
P. Neruda

Sunday, November 13, 2005

Ando com cara de apaixonada
E isso não quer dizer nada:
que ainda bate um coração
Onde deveria bater um não

Não é que eu chore psicose
Nem que eu cultive obssessão
Não é que eu curta uma neurose
Nem que eu cave compulsão

É só uma questão
de encontrar a tal válvula
Que não encontrei no escape
É só uma questão de fugira à cláusula
Do ciclo de uma situação.

E se tudo, realmente, não for nada
Então pra nem tudo serve
Essa cara de apaixonada.

Fernanda Lobo
Dói
a face da verdade
a força da verdade
a foice da verdade
um verme de verdade
a fossa da verdade
a fase da verdade
a falsa da verdade
Dói.

Fernanda Lobo
E é tanto um cansaço de mim
Esse me cansar de você

É mais um querer liberdade de mim
Do que distância de você

É uma melancolia tão minha
Que eu insisto em chamar de tédio seu

É uma apatia tão própria
Que eu leio como indiferença por você

É tanto uma fé que eu não tenho
Que designo desconfiança de você

É mais uma dor sem início e sem fim
Dizendo que você faz doer

É um impropério do EU
Que eu insisto em passar pra TU

É o implícito subentendido que eu sou
E te acuso de não entender.

Fernanda Lobo

Tuesday, November 08, 2005

Tudo se confunde.
Não me sinto estranheza.
Luz, música , alma , voz...
Fazer sentido importa?
É que a loucura muda faz coisas longe das correntes do normal,
espera chuva cair sem correr,
deixa a vida jogar sem fugir,
deixa a sorte levar pra vencer,
deixa o rio passar pra seguir.
A poesia e a lágrima na garganta:
o melhor e o pior de mim,
o resumo do que não foi dito
e a esperança de o amanhã não chegar.
Ah, se eu fosse presa talvez falasse melhor,
mas eu vôo e não me importo com quem não entende.
Se eu fosse só razão, aí sim,talvez tudo fizesse sentido,
mas dei pra poetar, sentir todas as dores do mundo
e sempre querer mais um pouco depois de tudo:
adeus da tal razão...
Fernanda Lobo

Thursday, November 03, 2005

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como plenitude.
Faça com que eu seja a tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de te amar, sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Friday, October 21, 2005


Eu ouço a música que as coisas cantam quando rodam;
Eu ouço o som de tudo enquanto tudo vive e morre;
eu ouço o ritmo das mulheres em seus passos, suas pernas, suas profundidades;
Eu ouço a melodia das luzes que encantam os homens loucos, lúdicos, embriagados;
Eu ouço as notas dos choros dos soldados, das pragas, das pestes, do sangue;
eu ouço o soar das bruxas e dos pecados,das velas e das rezas...

O mundo canta uma só música,
que não é bonita e nem feia,
que não é boa e nem ruim,
que não é rimada e nem disforme,
que não é harmoniosa e nem caótica,
que é de quem vê beleza em imperfeição,
de quem sabe debochar ante o impropério,
A música que é impossível de se cantar e de se ouvir quando se tem olhos da alma vendados e mãos do espírito atadas...

Fernanda Lobo