
Sentir um grito é mais do que ouvir.
É estremecer dentro, mesmo se não se sabe ser o grito de liberdade ou pavor.
Sentir as palavras é mais do que ler.
É saber um acréscimo de estranhamento em si, estranhamento por ter sido abusado dentro de si um lugar nunca tocado. Abusado por palavras. É se deixar exorcizar pelo inteligível.
Sentir um sabor é mais do que gostar.
É se entregar a um delírio tão momentâneo quanto consumidor, é querer mais o prazer do que o prêmio.
Sentir um perfume é mais, é bem mais do que cheirar.
É ter certeza de que o momento existe, é se saber em um sonho quase realizado. Realizado até que finde. Sem lembrar que findará.
Há sons que ultrapassam a sonoridade, há sons que trazem gostos; que têm mãos para enfiá-las em seus seios. E arrancar em enxurradas o que houver de mais compacto.
Há cheiros que se eternizam.
Há palavras que têm vida, que confrontam, que entendem.
E há vidas que, sentidas, ultrapassam respirar, ultrapassam uma biologia funcional. São as que se deixam invadir pelo que há que se sentir por detrás do que existir.
Fernanda Lobo
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