Friday, September 07, 2007

O mito


(...)
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana


talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;


talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.


Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
anúncio de dentifrício)
é faca me escavando.
(...)

Drummond

Wednesday, August 29, 2007

Se eu pudesse




Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer,
lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro

Friday, August 24, 2007


P.M.S.L.
Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.
Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio dos corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é contínuo negar-se no seu fogo, seu arder é deslizar.
Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela finge?
Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próprio findar.
Eis o que somos:
o nosso tédio de ser.
Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!
O girassol
vê com assombro
que só a sua precariedade
floresce. Mas
esse assombro é que é ele, em verdade.
Saber-se
fonte única de si
alucina.
Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.
Ferreira Gullar

Friday, August 17, 2007


E agora, que medo é esse?
Medo de me deixar gastar pelos intemperismos irrefreáveis desses tempos,
Medo de escorrer de mim e ficar tão rasa
até me confundir com ausência;
com matéria vaga, errante, tão indefinida;
vencida pelo mundo, entregue à cruz do "em volta".

Medo de, depois de ausência, ser inexistência e só.
(e que patético não ser nem o que não é.)
E, logo agora,
vem de onde essa vontade de me caçar
como se caça borboletas?
(que bom seria me assistir com rede na mão e pés no chão correndo pelo campo...)
Descortino a grande vida de minhas moléculas
e as agarro com obstinação para que não evaporem.
Que lástima ficar rasa logo agora!
Valha-me Deus
que essa intermitência apavora.
Que medo de ser fumaça que abandona o fogo. Tão
leviana e néscia!
Me deixei lixar por quem pediu,
achei que me livrar da aspereza fosse conforto.
Depois, ainda quiseram me polir
e eu sorri para aquele verniz artificial.
Por conseguinte, me lapidaram
e logo agora percebo que - lamento, lamento! -
percebo que tenho vergonha deste resultado
tão lapidado no anti-espelho.
E agora, Maria?
E agora, todos os Josés?
Respondam-me todos os meus ourives:
Quem de vocês pode tornar bruta a pepita já derretida
escorrendo de si?
ó vento, ó chuva, sol, montanhas...
ó humanos, seus gastadores de retina e de almas,
Deixem-me!
Que eu quero é ser um poço de mim...
Fernanda Lobo

Saturday, August 11, 2007


O utopista
Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

Murilo Mendes

Friday, August 10, 2007




Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.

Murilo Mendes

Sunday, August 05, 2007


E cuspido, espremido,
petisco de visgo,
forçando a passagem
pela barreira,
sangrando,rasgando,
subindo a ladeira,
orgasmo invertido,
gritei quando vi:
já estava respirando.

Tom Zé.

ANGÚSTIA E REAÇÃO

Há noites intransponíveis,
Há dias em que pára nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à idéia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.

Murilo Mendes

Faxina


Joguei fora o que era de lixo.
Dei a César o que era de César.

Batom com batom
Música com música
Perfume com perfume
Vestido com vestido
Fotografia com as lembranças
e cartas com o amor.

Poemas com poemas.

Mal se passou um dia inteiro
e os batons
as músicas
os perfumes
os vestidos e as fotos,
tudo
já estava, de novo,
cheio de poemas.

Fernanda Lobo

Monday, July 30, 2007


"O que faço nunca me interessa se não comportar alegria."

Maiakovsky

Thursday, July 26, 2007

'fernanda. diz: ai!


O Homem Público N. 1 (Antologia)

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.

Não há razão
para conservar este fiapo
de noite velha.

Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.

Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura sorrindo
ou fingindo ouvir.

No entanto também
escrevi coisas assim,
para pessoas
que nem sei mais quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

Ana Cristina Cesar
fernanda diz:
de uma doçura
venenosa
de tão funda
???
ai

Tuesday, July 24, 2007

Ladeira da Memória - Rumo (diletantismo)

Olha as pessoas descendo, descendo, descendo
Descendo a Ladeira da Memória
Até o Vale do Anhangabaú

Quanta gente!
Vagando pelas ruas sem profissão
Namorando as vitrines da cidade
Namorando, andando, andando, namorando
O céu ficou cinza e de repente trovejou
E a chuva vem caindo, caindo, caindo
Prendendo as pessoas nas portas, nos bares
Na beirada das calçadas

Quanta gente!
Com ar aborrecido olhando pro chão
Pro reflexo dos edifícios e dos carros
Nas poças d'água
E pros pingos, pingando, pingando, pingando

Olha as pessoas felizes, felizes, felizes
Felizes por que a chuva que caía agora pouco
Essa chuva que caia agora pouco já passou...

(:

Saturday, July 21, 2007


E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar.

(Clarice Lispector)

Thursday, July 19, 2007


A Focinheira

- Sabe que eu sou fiel e afeiçoado,
dizia o Cão ao Homem, e disposto
a tudo, mesmo a ser sacrificado,
cumprindo as suas ordens. Isto posto,
quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido
apático e traidor por natureza?

O Homem responde:- Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e que, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.

- Já que assim é, o dito por não dito!
Corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, desde aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira.

Trilussa (Carlos Alberto Salustri)



Já não há material subversivo,
Pode-se ler e pensar até o que foi censurado
Pode-se ler e pensar em tudo, sabia?
É permitido enxergar ao redor.

Apenas, nos obrigaram [gentilmente]
a comprar [ com o suor de nosso trabalho]
os óculos da penúltima moda,
que distorcem olhares e maqueiam pensamentos.

Fernanda Lobo


" como beber dessa bebida amarga,
tragar a dor, engolir a labuta
mesmo calada a boca resta o peito,
silêncio na cidade não se escuta."

Chico Buarque

Monday, July 16, 2007


É melhor não falar em felicidade ou infelicidade - provoca aquela saudade desmaiada e lilás -

E eu não quero provocar porque dói.

Thursday, July 12, 2007

" Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e sem tirar os olhos do horizonte me contou:

' O tempo tem uma boca imensa. com sua boca do tamanho da eternidade, ele vai devorando tudo sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é dono de tudo. Pacientemente, ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. Sua garganta traga as estações, os milênios, o ocidente, o oriente, tudo sem retorno. E nós, meu neto, marchamos em direção à boca do tempo.'

Meu avô foi abaixando a cabeça e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre meus dedos, mas a noite estava clara, como tudo mais."

Bartolomeu Campos Queirós

...

" [...] e quando meu coração amadurecer e se talvez eu voltar a te encontrar, vai ser como voltamos aos colégios e lugares grandes da infância e os descobrimos bem menores, e aí tu estarás do meu tamanho e ao meu alcance, nem que seja para um tchau que acabe quando eu atravessar a rua."
Benhur Bortolotto

Wednesday, July 11, 2007


Eu, outro dia me lembrei de você,
Ouvindo uma canção que pudesse dizer
Como eu, como tu, como velhos tratantes
Como velhos amigos, como velhos perigos,
Como grandes amantes nos poucos instantes de amor

Eu, outro dia me esqueci lentamente,
Ouvindo a razão na palavra de ordem corrente
E que eu, e que tu, e que todos os passos,
E que todos os beijos, e que os longos abraços,
E que os longos desejos não caiam aos pedaços.
" Quem é mestre na arte de viver
distingue pouco entre o
trabalho e seu tempo livre, entre a
sua mente e o seu corpo, a sua
educação e sua recreação, o seu amor
e sua religião. Dificilmente sabe o que
cada coisa vem a ser. Persegue
simplesmente a sua visão de excelência
em qualquer coisa que faça, deixando aos
outros distinguir se está trabalhando
ou se divertindo. Ele pensa sempre
em fazer ambas as coisas juntas. "

Zen

Friday, July 06, 2007


" quando secam os oásis utópicos,
estende-se um deserto de banalidade e perplexidade. "
Jürgen Habermas

Saturday, June 30, 2007


Não: não digas nada
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias...

Secos e Molhados