Monday, July 30, 2007


"O que faço nunca me interessa se não comportar alegria."

Maiakovsky

Thursday, July 26, 2007

'fernanda. diz: ai!


O Homem Público N. 1 (Antologia)

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.

Não há razão
para conservar este fiapo
de noite velha.

Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.

Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura sorrindo
ou fingindo ouvir.

No entanto também
escrevi coisas assim,
para pessoas
que nem sei mais quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

Ana Cristina Cesar
fernanda diz:
de uma doçura
venenosa
de tão funda
???
ai

Tuesday, July 24, 2007

Ladeira da Memória - Rumo (diletantismo)

Olha as pessoas descendo, descendo, descendo
Descendo a Ladeira da Memória
Até o Vale do Anhangabaú

Quanta gente!
Vagando pelas ruas sem profissão
Namorando as vitrines da cidade
Namorando, andando, andando, namorando
O céu ficou cinza e de repente trovejou
E a chuva vem caindo, caindo, caindo
Prendendo as pessoas nas portas, nos bares
Na beirada das calçadas

Quanta gente!
Com ar aborrecido olhando pro chão
Pro reflexo dos edifícios e dos carros
Nas poças d'água
E pros pingos, pingando, pingando, pingando

Olha as pessoas felizes, felizes, felizes
Felizes por que a chuva que caía agora pouco
Essa chuva que caia agora pouco já passou...

(:

Saturday, July 21, 2007


E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar.

(Clarice Lispector)

Thursday, July 19, 2007


A Focinheira

- Sabe que eu sou fiel e afeiçoado,
dizia o Cão ao Homem, e disposto
a tudo, mesmo a ser sacrificado,
cumprindo as suas ordens. Isto posto,
quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido
apático e traidor por natureza?

O Homem responde:- Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e que, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.

- Já que assim é, o dito por não dito!
Corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, desde aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira.

Trilussa (Carlos Alberto Salustri)



Já não há material subversivo,
Pode-se ler e pensar até o que foi censurado
Pode-se ler e pensar em tudo, sabia?
É permitido enxergar ao redor.

Apenas, nos obrigaram [gentilmente]
a comprar [ com o suor de nosso trabalho]
os óculos da penúltima moda,
que distorcem olhares e maqueiam pensamentos.

Fernanda Lobo


" como beber dessa bebida amarga,
tragar a dor, engolir a labuta
mesmo calada a boca resta o peito,
silêncio na cidade não se escuta."

Chico Buarque

Monday, July 16, 2007


É melhor não falar em felicidade ou infelicidade - provoca aquela saudade desmaiada e lilás -

E eu não quero provocar porque dói.

Thursday, July 12, 2007

" Meu avô me convidou, naquela tarde, para me assentar ao seu lado nesse banco cansado. Pegou minha mão e sem tirar os olhos do horizonte me contou:

' O tempo tem uma boca imensa. com sua boca do tamanho da eternidade, ele vai devorando tudo sem piedade. O tempo não tem pena. Mastiga rios, árvores, crepúsculos. Tritura os dias, as noites, o sol, a lua, as estrelas. Ele é dono de tudo. Pacientemente, ele engole todas as coisas, degustando nuvens, chuvas, terras, lavouras. Ele consome as histórias e saboreia os amores. Nada fica para depois do tempo. Sua garganta traga as estações, os milênios, o ocidente, o oriente, tudo sem retorno. E nós, meu neto, marchamos em direção à boca do tempo.'

Meu avô foi abaixando a cabeça e seus olhos tocaram em nossas mãos entrelaçadas. Eu achei serem pingos de chuva as gotas rolando sobre meus dedos, mas a noite estava clara, como tudo mais."

Bartolomeu Campos Queirós

...

" [...] e quando meu coração amadurecer e se talvez eu voltar a te encontrar, vai ser como voltamos aos colégios e lugares grandes da infância e os descobrimos bem menores, e aí tu estarás do meu tamanho e ao meu alcance, nem que seja para um tchau que acabe quando eu atravessar a rua."
Benhur Bortolotto

Wednesday, July 11, 2007


Eu, outro dia me lembrei de você,
Ouvindo uma canção que pudesse dizer
Como eu, como tu, como velhos tratantes
Como velhos amigos, como velhos perigos,
Como grandes amantes nos poucos instantes de amor

Eu, outro dia me esqueci lentamente,
Ouvindo a razão na palavra de ordem corrente
E que eu, e que tu, e que todos os passos,
E que todos os beijos, e que os longos abraços,
E que os longos desejos não caiam aos pedaços.
" Quem é mestre na arte de viver
distingue pouco entre o
trabalho e seu tempo livre, entre a
sua mente e o seu corpo, a sua
educação e sua recreação, o seu amor
e sua religião. Dificilmente sabe o que
cada coisa vem a ser. Persegue
simplesmente a sua visão de excelência
em qualquer coisa que faça, deixando aos
outros distinguir se está trabalhando
ou se divertindo. Ele pensa sempre
em fazer ambas as coisas juntas. "

Zen

Friday, July 06, 2007


" quando secam os oásis utópicos,
estende-se um deserto de banalidade e perplexidade. "
Jürgen Habermas

Saturday, June 30, 2007


Não: não digas nada
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias...

Secos e Molhados

Tuesday, June 26, 2007


http://www.youtube.com/watch?v=hLl9WNQvZH0


Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul

Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração

Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação

Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão

Gilberto Gil

Friday, June 22, 2007


o que é que há dentro de mim
que me faz sempre dizer "grande coisa..."
de tudo quanto é coisa?


que não me deixa impressionar
ou ter impacto
por grande que seja a coisa!


deve haver algo gigante...

porém, quando em vez,
o gigante acha tão grande
coisa tão pequena...
(:
Fernanda Lobo

Thursday, June 21, 2007

eu não quero ser feliz...

... eu quero viver.
.

.

[beber o suco de muitas frutas

o doce e o amargo

indistintamente.]

Tuesday, June 19, 2007


Você inventa - grite!
Eu invento - ai!
Você inventa - chore!
Eu invento - ui!
Você inventa o luxo
Eu invento o lixo
Você inventa o amor
Eu invento a solidão...
Você inventa a lei
E eu invento a obediência
Você inventa a deus
E eu invento a fé
Você inventa o trabalho
E eu invento as mãos
Você inventa o peso
E eu invento as costas
Você inventa a outra vida
Eu invento a resignação
Você inventa o pecado
E eu fico aqui no inferno
Meu Deus, no inferno
Valha-me Deus!
Tom Zé

Monday, June 11, 2007


prefiro não.

Monday, May 21, 2007


" creio no Deus que extrapola nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando nosso destempero profere blasfêmias. "


Frei Betto

Saturday, May 19, 2007


Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha, aqui, não me desagradava em absoluto.
— Não, não consigo acreditar. Tenho certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida.
Respondi-lhe que naturalmente, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele me deteve e quis saber como eu imaginava essa outra vida. Então gritei:
— Uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida.


Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era.


Albert Camus

Wednesday, May 16, 2007


"Não assassine esse calor no alto de uma árvore.
As coisas falam sem você, contenha-se, sua voz poderá abafá-las."

Violette Leduc

Sunday, May 13, 2007


“ Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as caga. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempo e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer. ”


Charles Bukowski