Tuesday, February 27, 2007


Os sós
só lidam consigo.
Só lidar
com solidão
Não consigo.

Só posso me dar
se for em demasia
sem solicitar,
que é liberdade
solução de solidão.
<
Brilhar por si
é coisa de Sol,
é coisa de Deus,
de coisa maior
que pode estar só.
Eu não.>>

Fernanda Lobo

poesia-vida-poesia


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...

Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

José, para onde?

Sunday, February 25, 2007




"O amor é o ridículo da vida.
A gente procura nele uma pureza impossível,
uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue,
bonita e breve,
como as borboletas que só vivem 24 horas.
Morrer não dói."

Friday, February 23, 2007




" Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus. "

Sunday, February 18, 2007




"Eu amo a vida,
eis a minha verdadeira fraqueza.
Amo-a tanto,
que não tenho
nenhuma imaginação
para o que não
for vida."
Albert Camus

Thursday, February 15, 2007

liberté

no silêncio, há a iminência da palavra fatal.

o silêncio desloca o homem do esquecimento de si próprio e faz com que viva o "oco da alma".

o silêncio provoca a angústia de se descobrir como simples estar-no-mundo, entregue a si mesmo, desamparado da firmeza que o senso-comum lhe oferece.

Saturday, February 10, 2007

o coração da flor / a alma da flor



e ele queria ser um herói,
ou mártir de uma qualquer história minha,
mas ele em personagem não tinha que ser inventado,
pois forçava incessantemente sua existência dentro de mim,
na história mais minha...

Thursday, February 08, 2007

Monday, February 05, 2007


" no centro da sala,
diante da mesa,
no fundo do prato,
comida e tristeza.
a gente se olha,
se toca e se cala
e se desentende
no instante em que fala.

cada um guarda mais o seu segredo,
sua mão fechada,
sua boca aberta,
seu peito deserto.
sua mão parada,
lacrada, selada,
molhada de medo.

pai na cabeceira: é hora do almoço.
minha mãe me chama: é hora do almoço.
minha irmã mais nova, negra cabeleira,
minha avó me chama: é hora do almoço.

e eu 'inda sou bem moço pra tanta tristeza,
deixemos de coisas, cuidemos da vida,
senão, chega a morte ou coisa parecida
e nos arrasta moço sem ter visto a vida. "

Friday, February 02, 2007




Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não, e por que não dizer que o mundo respirava mais se ela apertava assim seu colo
e como se não fosse um tempo em que já fosse impróprio se dançar assim
ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins.


Como fosse um lar seu corpo a valsa triste iluminava e à noite caminhava assim
e como um par, o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim
valsando como valsa uma criança que entra na roda, a noite tá no fim,
e ela valsando só na madrugada, se julgando amada ao som dos bandolins.
Oswaldo Montenegro