Wednesday, July 16, 2008




FOLCLORE DE DEUS


Para Deus, tudo dos homens é o mesmo folclore: o cego Deraldo e Goethe, o inventor da roda e Einstein, Vitalino, de Caruaru, e Rodin, a Saudade de Ouro Preto e a Heróica; Lampião e Napoleão são rimas aos ouvidos de Deus.

O sabugo de milho vira foguete nas mãos do menino, mas o foguete vira sabugo nas mãos transespaciais de Deus.

Para Deus, tudo dos homens é a mesma simplicidade: Paulo corre atrás da bola; Eva Curie viu a ave; vovô Freud viu o ovo. Deus acha graça em todos os elementos.

Há doenças dispendiosas que se tratam anos a fio em hospitais suntuosos; há homens fortes que (só) carregam nos estádios o secreto câncer de viver; mas para Deus todas as doenças são dores de cabeça.

Para Deus, todos os homens são pobres: mendigos das esquinas de Wall Street, indigentes dos cartéis de aço, flagelados dos subterrâneos petrolíferos; mas Deus prefere os pobres sinceros, e os faz invisíveis.

Deus é o único hipnotizador: crescei e multiplicai-vos. E os homens inventam passagens sobre e sob o rio, semânticas, paixões assassinas; de mãos cruzadas o olhos estarrecidos, a gente acorda.

Deus é a moeda clandestina em um país estrangeiro: pobres de nós se confundimos a sua efígie de ouro de lei com o perfil niquelado de César.

Para Deus, todos nós somos loucos metidos em camisas de onze varas: sobre os ombros do paciente ele corteja os graus da certeza neurótica do analista.

O que seguras em tua mão é aquilo que te prende; o que possuis é aquilo que te priva; mas Deus diz: bebe a água sem bebê-la; anda por toda a parte sem ir a parte alguma.

Na semente, Deus é a árvore; na árvore, Deus é a semente.

Onde a palavra começa, a palavra acaba, e aí está Deus.

Para Deus, todos os homens levam nos bolsos objetos escondidos: selos antigos, uma esfera de aço, um anzol enferrujado, um canivete sem folha; por isso é preciso, de pena de nós mesmos, fazer força para não chorar. Pois todo menino enterra seu tesouro.

Deus é a luz, e assim a energia é a matéria multiplicada pelo quadrado da velocidade de Deus.

Deus dá nozes a quem tem dentes: ao funâmbulo estende as cordas; o sofrimento, Deus dá a quem tem alma; a alegria, essa Deus a reservou a quem não tem nada.

Deus é o grande madrugador: ele estava de pé entre folhagens portentosas na aurora do mundo; e ele andava em ti enquanto dormias.

Mas Deus é também o grande boêmio: ele passou por tua noite quando bebias teu penúltimo copo de vinho; talvez não o viste, mas todos os teus sentidos se alertaram, e bebeste um gole inquieto e enxugaste o teus lábios com o dorso da mão e sentiste saudade de tua casa.

Deus é a chave de ouro do poema; mas as outras 13 chaves pendem de teu chaveiro; e os metais de tuas chaves abrem aposentos de frustração, onde não te encontras.

Deus é o guardião, a zaga, o meio apoiador, o ponta-de-lança e o entendimento misterioso entre as linhas; o ferrolho não prevalecerá contra ele; por isso as multidões vibram com seu virtuosismo.

Para ele, o homem primitivo será o último homem, e o primeiro homem foi o único sábio. Sendo o centro do círculo, todos os pontos que formam o tempo são eqüidistantes de Deus.



Paulo Mendes Campos

Wednesday, June 25, 2008

SOBRE HOMENS E BACURAUS

Xico Sá


Amigos e amigas, vai saber lá o porquê das somas completas dos inconscientes, mas num encontro na última quarta-feira, com Fred 04, no clube Clash, em São Paulo, falamos de tudo, principalmente da importância ou da desimportância do ônibus, o velho busao, o busão-blues de todas as esperas e bacuraus perdidos madrugas adentro.
Até criamos, na utopia mais avexada, um movimento cuja milhagem é a narrativa, o homem e a mulher em pé na parada. Pense. Tem gente que gamou, casou e fez filhos a partir dessa hora, né? Mãozinhas dadas no mesmo assento, zolhinhos gastos com a mesma paisagem a caminho de casa, ela descendo e a gente, cavalheiros no último, beijando a mão e a recebendo na rua, PRINCESA de todos os meios-fios e calçamentos!
Só vale na vida o que se conta de pé, o resto é alcova e fuleragem, fuleragem enquanto vingança do Nordeste, o melhor dos mundos, a nossa sabedoria particular, a nossa linda lição de existência tão grande quanto a sabedoria de Nietszche.
Pense numa peleja, pense num clássico da filosofia a perder a neve ou a miragem de Canindé de vista.
O que dizer, que balãozinho sobre nossas cabeças de eternos gibis e quadrinhos?!
O que se diz nessa hora, amigo?
Já passou o CDU/Várzea?
E o Radial/CDU? Donde CDU vem a ser Cidade Universitária, sigla e destino da minha amada e querida CEU, a residência da UFPE, donde habitei o quarto 101 com meus amigos de Carpina e outras zonas de matas e sertões afora.
A gente lá de pé cubando o movimento.
Pense num suspense.
Nada mais hitcockiano do que um ônibus dobrando uma esquina.
Pense numa espera!
Às vezes deitado e bêbado no cimento do Bar Savoy, sem um centavo no bolso e com o azul desbotado sem poder sequer apertar a mão do poeta Carlos Pena Filho, o maior simbolista brasileiro de todos os tempos, que já havia partido desta noutra linha da mão e da vida.
Sorte era a generosidade 24 horas de Jaci Bezerra, Tarcísio 7 e Alberto da Cunha Melo, que me tiravam da fome e ainda me davam o delírio da poesia e da comida.
Jaci, 7 e Alberto, além de grandes por si mesmos, vixe, são os T.S. Eliots, melhor, são os Walt Whitmans do meu estômago quente na chegada ao Hellcife, linha Crato via Princesa do Agreste, salve salve, Deus inapalpável, estes homens de carne, amor e osso.
Estes, entre outros, me revelaram a certeza do poema como sustância da humanidade.
Assim aprendi sobre poesia e homens, mas, como eu ia falando, ja passou o CDU/Várzea?
Pense numa espera de madrugas tantas. Pense até o pescoço entortar, pense enquanto passa boi, passa boiada e nada pra Caxangá, miséria humana, vida de gado, e quando dobrava da Madalena rumo ao Cordeiro o cheiro de galeto a me encher de fome de tudo, como reza a poética de Jorge du Peixe, meu ídolo.
CDU/Várzea, o destino, era o que este cronista, eterno pedestre, graças a Deus, indagava, ali dormindo no batente do cimento frio do bar Savoy, avenida Guararapes, Recife, anos um, nove, oito, zero, 1.980.
Uma forma de contar a vida e a possível luta de classes por intermédio das histórias aquém e além da catraca. Passa boi, passa boiada...

Thursday, June 12, 2008

"então, amor também acaba?"





O amor acaba

Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Agradecemos a J.Carino pelo envio da crônica.
(O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22).

Friday, June 06, 2008

O poeta ... "sem esforço entende/ A linguagem da flor e das coisas sem voz!" *


ANÁLISE

Tão ABSTRATA é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa

*(trecho do poema "Elevação", de Baudelaire)

Monday, June 02, 2008

o Bandeirante


"Decidido.
Vou ser feliz aqui mesmo."
porque se chamava moço, também se chamava estrada...

Thursday, May 15, 2008

enjoy the silence


Tão grande é o meu silêncio

Que poderia escutar uma hóstia pousar sobre uma nuvem,

A floração de estrelas no abismo

E o murmúrio de Deus amando o mundo,

e o múrmurio de Deus... :.

Tuesday, May 13, 2008


" Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo. Diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse aos seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação à meia-luz, da qual passa loge o burburinho dos outros. "


Rilke

- "Cartas a um jovem poeta"

Sunday, May 04, 2008

Poema da necessidade




É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade

Saturday, May 03, 2008


"Único e certo é o deserto

Que é fruto do monólogo absoluto."


Cassiano Ricardo

Friday, May 02, 2008




A cidade e os livros - Antonio Cícero

OUTRO EPIGRAMA

Se perdi a inocência
para ganhar o pão de cada dia,
com o suor do próprio rosto
lamento apenas tenha sido tão escassa
a inocência de que eu era servido.

Para que tão facilmente eu a houvesse perdido
e o pão de cada dia, em conseqüência,
me seja, agora, uma simples migalha.

Por que não foi maior minha inocência?


Cassiano Ricardo

Friday, November 30, 2007


"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

Milan Kundera

Thursday, November 29, 2007


A word is dead
When it is said,
Some say.

I say it just
Begins to live
That day.

Emily Dickinson

Wednesday, November 28, 2007

Fiz zum zum e pronto

Respirei eu fundo
Foi-se tudo pra escanteio...

Monday, November 26, 2007


Uma janela aberta

e um simples rosto hirto,

e que provavelmente

nela se debruçou;

e nesse gesto puro

do rosto na janela

estava todo o poema

que ninguém escutou;

só a janela aberta

e o espaço dentro dela

que o tempo atravessou.


Jorge de Lima

Friday, November 02, 2007


DO AMOROSO ESQUECIMENTO


Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mario Quintana - Espelho Mágico

Só Drummond, só Drummond, só Drummond! Só Drummond, só Drummond, só Drummond!


O novo homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcretos
e houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto
:"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaioe,
per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Friday, September 07, 2007

O mito


(...)
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana


talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;


talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.


Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
anúncio de dentifrício)
é faca me escavando.
(...)

Drummond

Wednesday, August 29, 2007

Se eu pudesse




Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer,
lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro

Friday, August 24, 2007


P.M.S.L.
Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.
Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio dos corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é contínuo negar-se no seu fogo, seu arder é deslizar.
Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela finge?
Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próprio findar.
Eis o que somos:
o nosso tédio de ser.
Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!
O girassol
vê com assombro
que só a sua precariedade
floresce. Mas
esse assombro é que é ele, em verdade.
Saber-se
fonte única de si
alucina.
Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.
Ferreira Gullar