Tuesday, May 13, 2008


" Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo. Diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse aos seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação à meia-luz, da qual passa loge o burburinho dos outros. "


Rilke

- "Cartas a um jovem poeta"

Sunday, May 04, 2008

Poema da necessidade




É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade

Saturday, May 03, 2008


"Único e certo é o deserto

Que é fruto do monólogo absoluto."


Cassiano Ricardo

Friday, May 02, 2008




A cidade e os livros - Antonio Cícero

OUTRO EPIGRAMA

Se perdi a inocência
para ganhar o pão de cada dia,
com o suor do próprio rosto
lamento apenas tenha sido tão escassa
a inocência de que eu era servido.

Para que tão facilmente eu a houvesse perdido
e o pão de cada dia, em conseqüência,
me seja, agora, uma simples migalha.

Por que não foi maior minha inocência?


Cassiano Ricardo

Friday, November 30, 2007


"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

Milan Kundera

Thursday, November 29, 2007


A word is dead
When it is said,
Some say.

I say it just
Begins to live
That day.

Emily Dickinson

Wednesday, November 28, 2007

Fiz zum zum e pronto

Respirei eu fundo
Foi-se tudo pra escanteio...

Monday, November 26, 2007


Uma janela aberta

e um simples rosto hirto,

e que provavelmente

nela se debruçou;

e nesse gesto puro

do rosto na janela

estava todo o poema

que ninguém escutou;

só a janela aberta

e o espaço dentro dela

que o tempo atravessou.


Jorge de Lima

Friday, November 02, 2007


DO AMOROSO ESQUECIMENTO


Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mario Quintana - Espelho Mágico

Só Drummond, só Drummond, só Drummond! Só Drummond, só Drummond, só Drummond!


O novo homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcretos
e houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto
:"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaioe,
per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Friday, September 07, 2007

O mito


(...)
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana


talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;


talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.


Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
anúncio de dentifrício)
é faca me escavando.
(...)

Drummond

Wednesday, August 29, 2007

Se eu pudesse




Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer,
lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro

Friday, August 24, 2007


P.M.S.L.
Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.
Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio dos corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é contínuo negar-se no seu fogo, seu arder é deslizar.
Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela finge?
Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próprio findar.
Eis o que somos:
o nosso tédio de ser.
Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!
O girassol
vê com assombro
que só a sua precariedade
floresce. Mas
esse assombro é que é ele, em verdade.
Saber-se
fonte única de si
alucina.
Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.
Ferreira Gullar

Friday, August 17, 2007


E agora, que medo é esse?
Medo de me deixar gastar pelos intemperismos irrefreáveis desses tempos,
Medo de escorrer de mim e ficar tão rasa
até me confundir com ausência;
com matéria vaga, errante, tão indefinida;
vencida pelo mundo, entregue à cruz do "em volta".

Medo de, depois de ausência, ser inexistência e só.
(e que patético não ser nem o que não é.)
E, logo agora,
vem de onde essa vontade de me caçar
como se caça borboletas?
(que bom seria me assistir com rede na mão e pés no chão correndo pelo campo...)
Descortino a grande vida de minhas moléculas
e as agarro com obstinação para que não evaporem.
Que lástima ficar rasa logo agora!
Valha-me Deus
que essa intermitência apavora.
Que medo de ser fumaça que abandona o fogo. Tão
leviana e néscia!
Me deixei lixar por quem pediu,
achei que me livrar da aspereza fosse conforto.
Depois, ainda quiseram me polir
e eu sorri para aquele verniz artificial.
Por conseguinte, me lapidaram
e logo agora percebo que - lamento, lamento! -
percebo que tenho vergonha deste resultado
tão lapidado no anti-espelho.
E agora, Maria?
E agora, todos os Josés?
Respondam-me todos os meus ourives:
Quem de vocês pode tornar bruta a pepita já derretida
escorrendo de si?
ó vento, ó chuva, sol, montanhas...
ó humanos, seus gastadores de retina e de almas,
Deixem-me!
Que eu quero é ser um poço de mim...
Fernanda Lobo

Saturday, August 11, 2007


O utopista
Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

Murilo Mendes

Friday, August 10, 2007




Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.

Murilo Mendes

Sunday, August 05, 2007


E cuspido, espremido,
petisco de visgo,
forçando a passagem
pela barreira,
sangrando,rasgando,
subindo a ladeira,
orgasmo invertido,
gritei quando vi:
já estava respirando.

Tom Zé.

ANGÚSTIA E REAÇÃO

Há noites intransponíveis,
Há dias em que pára nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à idéia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.

Murilo Mendes

Faxina


Joguei fora o que era de lixo.
Dei a César o que era de César.

Batom com batom
Música com música
Perfume com perfume
Vestido com vestido
Fotografia com as lembranças
e cartas com o amor.

Poemas com poemas.

Mal se passou um dia inteiro
e os batons
as músicas
os perfumes
os vestidos e as fotos,
tudo
já estava, de novo,
cheio de poemas.

Fernanda Lobo