Saturday, April 29, 2006

Sartre




A autenticidade exige que se aceite sofrer,
por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo.
Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer.
Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos.
É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico.
Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade.

Tuesday, April 11, 2006


Se você olhasse a lua
Meu olhar nela estaria
Esses olhos se encontrariam
E logo, eu existiria
Nas marés de gestos seus
Sentir a luz costumeira
Dos fulgores que foram breus.

Se você escolhesse uma estrela
Dentre todas, seria a que vejo
E eu veria o sorriso a que não me acostumo
E seria uma imensidão de danças de estrelas
Solitárias, inadequadas e belas
Em infinitudes de sons
Ritmados, harmônicos e quentes...

Seria noite de profundidades
Na qual a Lua embaçaria o real
E eu não mais acreditaria no visível
E a verdade não seria o sombrio ,
Mas a Lua emprestando de uma estrela brilho para si
E eu emprestando para mim o brilho. De você.

Thursday, April 06, 2006

"Ah, não! Já acabou??? Num acredito!"


é assim que se diz quando se lê um livro de Neruda terminado com esses versos:

"porque assim nos parece que é o mundo:
uma pista infinita de campeões
e em um lugar nós, esquecidos
por culpa talvez de todos os outros
porque eram tão parecidos conosco
até que roubaram seus lauréis,
suas medalhas, seus títulos, seus nomes."

Monday, April 03, 2006


Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Neruda

Tuesday, March 28, 2006


Cola o teu desenho no meu
Pra ver se cola
Cola o meu retrato no teu e me namora
Comigo nessa dança
Um sonho de criança
E o meu coração colado ao teu
pra ver se cola... =)

Friday, March 24, 2006

" Ei, senta aqui. Ouve essa música! "


Abre os teus armários.
Eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços castos.
Cobre a culpa vã
Até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo.

Canta que é no canto que eu vou chegar.
Canta o teu encanto que é pra me encantar.
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você.
Que explique a minha paz.Tristeza nunca mais.

Vale o meu pranto que esse canto em solidão.
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas.
Abre essa janela
A primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota.

Canto que é de canto que eu vou chegar.
Canto e toco um tanto que é pra te encantar.
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você.
Que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.

Marcelo Camelo

"casa pré-fabricada" com Los Hermanos
"casa pré-fabricada" com Maria Rita
"casa pré-fabricada" com Los Hermanos
"casa pré-fabricada" com Maria Rita
...

assim o Media Player hoje... =)

Thursday, March 16, 2006

Friday, February 24, 2006

Saturday, December 31, 2005

Incompreendido só



Nem preciso de que alguém me entenda.
Ninguém me entender já é o bastante .
Isso de querer demais
Isso de sentir demais coisas muito belas
É isso o que me estraga .

Nem quero que alguém me console .
Ninguém me consolar é o bastante pra que eu perceba que sou só eu .
E isso aqui que agonia demais
Isso que fere demais intencionalmente
É isso o que me tira de só um querer modesto...

Não preciso de juízo ausente.
Sem estar enterrado, ninguém vai entender.
Entender porque eu planto e não quero a ceifa,
Porque eu nasço e não acredito em morte.

E fica isso tudo se debatendo
Isso tudo de chorar e embotar os olhos quando se quer ver
Isso de perder palavras quando se quer dizer de deslumbramento
Isso de querer, e não conseguir sentir nas mãos arrebatamento.

Nem dá pra esperar que alguém perceba
É querer demais que compreendam um denso desconsolo,
Uma enfadonha insatisfação acobertada por placidez.
Não posso exigir que sufoquem suas lógicas ponderadas
Pra entender isso tudo aqui.


Fernanda Lobo

Saturday, December 17, 2005


As seis cordas

Federico Garcia Lorca

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

Wednesday, December 07, 2005



Procurar-me assim não é sinônimo de encontrar.
É sinônimo de buscar, buscar mais um pouco...

É buscar uma certa profundidade no que parece superficial.

É notar uma certa ignorância ávida por conhecimento.

Procurar o que eu sou demanda uma certa coragem, a coragem que me sobra muitas vezes...
É buscar alguma melancolia num mundo de sorrisos, sons sistêmicos...

É não encontrar respostas, mas ouvir perguntas que ecoam e não querer outra coisa, senão buscar.

Procurar-me faz deslumbrar um resquício de nobreza, de força, de olhos fixos e adiantes...

É recusar uma cegueira quase inevitável.

Não cabe a mim dizer o que sou, mas ser.

Não cabe a mim respirar sem liberdade, dizer sem sentir, sentir sem dizer...
Não cabe a mim ser perfeita, porque o erro me pertence e me possui, mas o aprendizado também.

Procurar-me não leva a uma estrada branca, mas ao que explode em cores, dores, amores...

Encontrar-me é o impossível. Desistir de encontrar-me também.
Fernanda Lobo


Saturday, November 26, 2005

> "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes, os últimos versos que lhe escrevo.">
P. Neruda

Sunday, November 13, 2005

Ando com cara de apaixonada
E isso não quer dizer nada:
que ainda bate um coração
Onde deveria bater um não

Não é que eu chore psicose
Nem que eu cultive obssessão
Não é que eu curta uma neurose
Nem que eu cave compulsão

É só uma questão
de encontrar a tal válvula
Que não encontrei no escape
É só uma questão de fugira à cláusula
Do ciclo de uma situação.

E se tudo, realmente, não for nada
Então pra nem tudo serve
Essa cara de apaixonada.

Fernanda Lobo
Dói
a face da verdade
a força da verdade
a foice da verdade
um verme de verdade
a fossa da verdade
a fase da verdade
a falsa da verdade
Dói.

Fernanda Lobo
E é tanto um cansaço de mim
Esse me cansar de você

É mais um querer liberdade de mim
Do que distância de você

É uma melancolia tão minha
Que eu insisto em chamar de tédio seu

É uma apatia tão própria
Que eu leio como indiferença por você

É tanto uma fé que eu não tenho
Que designo desconfiança de você

É mais uma dor sem início e sem fim
Dizendo que você faz doer

É um impropério do EU
Que eu insisto em passar pra TU

É o implícito subentendido que eu sou
E te acuso de não entender.

Fernanda Lobo

Tuesday, November 08, 2005

Tudo se confunde.
Não me sinto estranheza.
Luz, música , alma , voz...
Fazer sentido importa?
É que a loucura muda faz coisas longe das correntes do normal,
espera chuva cair sem correr,
deixa a vida jogar sem fugir,
deixa a sorte levar pra vencer,
deixa o rio passar pra seguir.
A poesia e a lágrima na garganta:
o melhor e o pior de mim,
o resumo do que não foi dito
e a esperança de o amanhã não chegar.
Ah, se eu fosse presa talvez falasse melhor,
mas eu vôo e não me importo com quem não entende.
Se eu fosse só razão, aí sim,talvez tudo fizesse sentido,
mas dei pra poetar, sentir todas as dores do mundo
e sempre querer mais um pouco depois de tudo:
adeus da tal razão...
Fernanda Lobo

Thursday, November 03, 2005

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como plenitude.
Faça com que eu seja a tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de te amar, sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Friday, October 21, 2005


Eu ouço a música que as coisas cantam quando rodam;
Eu ouço o som de tudo enquanto tudo vive e morre;
eu ouço o ritmo das mulheres em seus passos, suas pernas, suas profundidades;
Eu ouço a melodia das luzes que encantam os homens loucos, lúdicos, embriagados;
Eu ouço as notas dos choros dos soldados, das pragas, das pestes, do sangue;
eu ouço o soar das bruxas e dos pecados,das velas e das rezas...

O mundo canta uma só música,
que não é bonita e nem feia,
que não é boa e nem ruim,
que não é rimada e nem disforme,
que não é harmoniosa e nem caótica,
que é de quem vê beleza em imperfeição,
de quem sabe debochar ante o impropério,
A música que é impossível de se cantar e de se ouvir quando se tem olhos da alma vendados e mãos do espírito atadas...

Fernanda Lobo