Wednesday, July 12, 2006


Nem sou tão de me isentar da culpa que tenho, mas nesse ponto não vejo falta em mim, já que não se pode imputar pena a uma criança que, de repente, é pegada desprevenida pela imagem da guloseima. Não pode senão a venerar e a querer.
Fui também pegada desprevenida por isso, que são as coisas que existem, e não posso me ver culpada por querer tudo.
Como o homem que perde a linha de passagem entre admirar as belas pernas e querê-las, eu passei, por impulso- é verdade- , a ponte que passa de admirar tudo ao querer.
Não me detenho apenas a me entregar a essa demanda insana de tudo, mas há momentos em que não parece haver o que seja melhor do que nada. Isso porque, para mim, não basta o que é dito melhor do que nada.
Todavia, não pretendo que meu tudo seja sem limites. Limites, os odeio. Mas eles imperam. E me dão um consolo árduo de que quero um tudo com limites.
Existe o que eu não queira. E se não quero é pelo exclusivo motivo de não ser parte do meu tudo. Existe o que não desperte em mim interesse e dói ver limites assim em mim mesma.
Mas o tudo sem limites talvez fosse pior, quiçá impossível.
Também, a que vastidão de nada me levaria o querer tudo só para mim. O querer tudo sem colocá-lo à disposição de outrem. Sem fazer do transbordo do tudo, fonte que dê de beber a quem bem quero..
Não vejo onde me esconder desse querer: a criança já viu o doce, o homem já viu as pernas e eu me torno a cada dia o tudo que quero..e vão é sacudir a cabeça aliado àqueles tapinhas que pretendem exorcizar um hóspede indesejado de querer tudo: está aqui e é lamentável admitir, mas eu não tenho culpa.

Fernanda Lobo

2 comments:

Anonymous said...

genial, mocinha... estou definhando a espera de resposta, todos os dias venho até a cidade pra procurar um e-mail...
alivia-me a dor de não encontrá-lo ler o que tu escreves, não pra mim, mas para todos, alivia-me ver que estás cada dia mais perspicaz...

"mil homens não podem despir um homem nu" - que medo idiota este meu.

Anonymous said...

acho que esse comentário que acabei de escrever foi postado no texto errado... só eu. só tu.